Narradores de Javé, Os

17/03/2005 | Categoria: Críticas

Eliane Caffé cria filme ágil e engraçado, que celebra a vida rural e trabalha a questão da memória afetiva

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Javé, um pequeno vilarejo no sertão nordestino está a ponto de ser inundado para a construção de uma barragem. Os habitantes do lugarejo, formado praticamente por uma única rua de terra batida, prometem reagir. Esse enredo prosaico, singelo, é o mote de “Os Narradores de Javé” (Brasil, 2003), um dos mais refrescantes e originais longas-metragens produzidos no Brasil nos últimos anos.

A história, ao contrário do que se pode imaginar, não tem um herói mitológico como Antônio Conselheiro e nem batalhas com centenas de figurantes. A reação do povo sim ples e ingênuo do lugar, onde Judas perdeu as meias (as botas devem ter ficado uns 500 quilômetros ates), é pacífica: escrever um livro narrando a história de Javé, para provar às autoridades políticas que o lugar merece ser tombado como patrimônio histórico e, assim, evitar a inundação.

O encarregado de escrever o livro é o único habitante de Javé que sabe e escrever. Acontece que Antônio Biá (José Dumont) também é um mentiroso nato e já inventou poucas e boas sobre os moradores do vilarejo, sendo por isso expulso. Numa tentativa desesperada de impedir o desaparecimento da cidade, o povo de Javé o traz de volta. E as confusões estão apenas começando.

O filme de Eliane Caffé tem muitas semelhanças com o trabalho anterior dela, “Kenoma”, a começar pelo protagonista. José Dumont dá mais uma demonstração de que é um ator excepcional, construindo um Antônio Biá carismático, engraçado, sempre com uma frase cortante na ponta da língua. A composição do personagem é tão marcante que ameaça deixar cacoetes do ator pelo resto da carreira, como aconteceu no Jack Torrance que Jack Nicholson fez em “ O Iluminado”.

O resto do elenco surge como maior trunfo da autora. Caffé reúne atores de primeira linha (Gero Camilo e Nelson Xavier estão excelentes) a moradores humildes das duas cidades onde o filme foi feito, Lençóis e Gameleira da Lapa (BA). A cineasta fez um trabalho assombroso de preparação do elenco, a ponto de impedir o espectador de identificar quem é profissional e quem é amador. Está aí um filme que rivaliza tranqüilamento com “Cidade de Deus”, nesse aspecto.

Se o elenco beira a perfeição, o roteiro brinda o espectador com um dos textos mais engraçados dos últimos tempos, celebrando a vida rural do brasileiro simples à maneira do Ariano Suassuna de “O Auto da Compadecia”, um primo-irmão do filme. Só que “Os Narradores de Javé” ainda vai mais longe, ao trabalhar com afeto a questão da memória.

Esse tema vem à tona com força quando os moradores começam a relembrar, cada um a seu modo, os episódios da fundação do lugarejo. O filme de Eliane Caffé deseja reafirmar a maneira como memória afetiva tem, no coração do homem, um lugar único e especial. E há diferenças: uma trilha sonora moderna do DJ Dolores, usada com economia, e uma fotografia abrasiva, sem brilho, que captura a luz abrasante do sertão com um toque de realismo.

A montagem ágil, que se mostra capaz de entrelaçar com fluidez os vários “causos” contados pelos habitantes para o livro de Biá, é outro trunfo. “Os Narradores de Javé” não é cinema comercial, mas deixa transparecer em cada cenário, em cada figurino, a produção carinhosa. Até mesmo os espertos créditos iniciais imprimem velocidade à narrativa, que recorre aos flashbacks com freqüência sem jamais perder o ritmo. Filmão, que merece ser visto por todo mundo que se orgulha de ver o Brasil na tela.

O filme de Eliane Caffé demorou mais de um ano para aparecer em formato DVD, e só o fato de conseguir espaço no disputado mercado de vídeo já merece aplausos. Som e imagem estão OK, e há ainda um pequeno making of como aperitivo.

– Narradores de Javé (Brasil, 2003)
Direção: Eliane Caffé
Elenco: José Dumont, Gero Camilo, Nelson Xavier, Luci Pereira
Duração: 100 minutos

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