Nashville

11/09/2006 | Categoria: Críticas

Altman conduz dinâmica extraordinária entre duas dúzias de personagens fascinantes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

As gerações de cinéfilos que começaram a ver filmes com consistência a partir da década de 1990 se acostumaram a registrar, como paradigma de certo tipo de longa-metragem, a obra-prima “Short Cuts” (1993), de Robert Altman. Qualquer produção surgida a partir daquele ano que priorizasse o coletivo ao individual – ou seja, que tivesse vários protagonistas e não apenas um – passou a ser comparada com “Short Cuts”. O que muitos admiradores de ocasião não sabiam é que a carreira de Altman já estava repleta de obras do mesmo tipo, sendo a mais consistente e famosa delas o musical “Nashville” (EUA, 1975).

Trata-se de um filme típico de Altman, talvez o trabalho que definiu a abordagem do diretor norte-americano: foco nas relações e não nas pessoas, gente pertencente a todos os tipos de classe e gênero, longa duração, histórias circulares interligadas e múltiplas conexões entre os personagens, elenco com liberdade para improvisar diálogos. “Nashville” é uma obra dinâmica, muito ágil e nem um pouco enfadonha, graças à dinâmica extraordinária entre as duas dúzias de personagens que interagem incessantemente durante as quase três horas de projeção.

Altman concebeu a produção como um musical-homenagem à música e à cultura country. Foi por isso, evidentemente, que o diretor decidiu filmar em Nashville, cidade para onde a maior parte dos artistas que se dedicam ao estilo de música caipira ruma com a intenção de gravar discos. Sim, “Nashville” é um musical, embora tenha gente que nem perceba; há nada menos do que uma hora de canções, a maioria composta pelos próprios atores que as interpretam no filme (muitos dos personagens são músicos, profissionais ou amadores). Além disso, o filme tem a cara dos anos 1970, seja no figurino, nas gírias faladas pelos atores, no tipo de personagem que Altman enfoca.

De fato, uma das maiores qualidades é a profusão de interessantes histórias curtas que o cineasta interliga de maneira fluida. Se o espectador conseguir isolar alguns personagens vai registrar maravilhosos fragmentos de vida cotidiana: temos uma cantora gospel (Lily Tomlin) que cria dois filhos surdos sob a indiferença do marido (James Dan Calvert), o velhinho que recebe a sobrinha tiete (Gwen Welles), o astro country (Henry Gibson) que se esforça para gravar as canções do próximo LP e cultivar boas relações ao seu redor, a garçonete (Karen Black) que se acha grande cantora mas desafina sem parar, e muitos outros.

Altman é particularmente brilhante em captar a essência de cada personagem usando o mínimo de tempo possível. Isto é algo difícil em um filme como “Nashville” porque a quantidade de personagens é enorme, e cada um deles tem apenas três ou quatro cenas para mostrar a que veio. O cineasta não tem muito tempo de tela para aprofundar cada um, mas não precisa disso; em alguns casos, usa apenas um par de cenas para rascunhar firmemente o personagem em questão, ao mesmo tempo em que invade outra história e aproveita para apresentar novas pessoas, e assim por diante. Os atores Elliott Gould e Julie Christe aparecem como eles mesmos e dão um molho de humor todo especial ao enredo.

Quer um exemplo da técnica inigualável de Altman para definir um personagem? Fique com o roqueiro Tom Frank (Keith Carradine, que ganhou um Oscar de melhor canção por uma balada que compôs para o filme). Famoso e mulherengo incorrigível, ele inicia um caso com a cantora gospel desconhecida interpretada por Lily Tomlin. Ela cai na cama dele mais por irritação com o descaso do marido do que por paixão real. Não sente nada por Tom, e não hesita em deixá-lo sozinho no meio da noite, quando se arrepende do ato. Enquanto isso, ele infantilmente tenta provocar ciúmes nela ligando para outra garota. A cara de idiota de Tom, largado no quarto com o telefone na mão, é impagável. Ele não precisa de outras cenas além desta. Não passa de uma estrela acostumada a monopolizar atenções.

Reza a lenda que Altman filmou quase cinco horas de cenas, e teve que cortar a metade para que o longa-metragem tivesse uma duração aceitável para ser exibido nos cinemas. Durante certo tempo, o cineasta chegou a planejar uma reedição do filme em duas partes, para exibição da TV, mas depois desistiu da idéia. As cenas não aproveitadas continuam jogadas nos estúdios da Paramount, que não se animou a usá-las no DVD lançado nos EUA. Uma pena. É provável que outra obra-prima do diretor esteja mofando, neste momento, em algum cofre de Hollywood.

O clássico de Altman jamais saiu no Brasil em DVD. Nos EUA, foi lançado em um disco simples mas de boa qualidade. A imagem foi restaurada (widescreen 2.35:a anamórfica), o som é ótimo (Dolby Digital 5.1) e há dois extras legais: um comentário em áudio e uma entrevista em vídeo com o diretor.

– Nashville (EUA, 1975)
Direção: Robert Altman
Elenco: Karen Black, Lily Tomlin, Keith Carradine, Shelley Duvall
Duração: 159 minutos

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