Nathalie X

01/06/2005 | Categoria: Críticas

Infidelidade conjugal ganha retrato apocalíptico em filme francês de narrativa gélida

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O que acontece quando uma mulher descobre, depois de 25 anos de casamento, que o marido a trai com alguém mais jovem? Há várias respostas possíveis. Uma delas, talvez a menos provável de todas, constrói a relação dos personagens que habitam “Nathalie X” (Nathalie…, França, 2003). O filme da cineasta Anne Fontaine retoma, tanto na temática quanto na estética, um dos assuntos favoritos do cinema francês contemporâneo: a infidelidade conjugal.

O tom pesado e verborrágico do longa-metragem é uma característica que pode explicar a recepção fria do público ao filme de uma das cineastas mais badalas dos círculos cinéfilos da França na atualidade. Depois de passar em branco pelo Festival de Toronto, em meados de 2003, “Nathalie X” acabou tendo a estréia adiada para janeiro de 2004, na França. O filme integra uma mostra de cinema contemporâneo francês no Brasil e, por isso, algumas cidades nacionais o viram antes dos franceses. Isso é pouco comum.

Espectadores que conhecem a carreira de Anne Fontaine não ficarão desapontados, pois a diretora retoma um assunto que já abordara em longas anteriores, como “Lavagem a Seco”. A diferença, dessa vez, é que não existe humor em “Nathalie X”. A protagonista do filme é Catherine (Fanny Ardant), uma ginecologista da alta burguesia francesa. A mulher vive um casamento frio e distante com um empresário, Bernard (Gerard Depardieu), mas não parece notar o quanto é infeliz.

Catherine se defronta com o fantasma da infidelidade quando o marido falta à própria festa de aniversário. Ouvindo os recados no celular dele, Catherine descobre que Bernard tem uma amante. Sem saber o que fazer, ela o segue por alguns dias e acaba entrando num prostíbulo de luxo, de onde o vê sair. Lá, conhece Marlène (Emmanuelle Béart), uma garota de programa. Catherine a contrata para dar em cima de Bernard. Quer ver até onde ele é capaz de ir. Juntas, as duas criam uma personagem fictícia para a prostituta. Ela vira Nathalie, uma estudante de línguas.

Durante a primeira hora de projeção, “Nathalie X” torna o espectador um cúmplice da desorientação de Catherine, que alimenta a própria dor ao pagar para ouvir, nos mínimos detalhes, as descrições dos encontros de Nathalie e Bernard. São diálogos fortes que só poderiam estar em um filme francês. Mas, paralelamente à situação conjugal catastrófica, algo excepcional acontece: Catherine e Marlène ficam amigas. O desenrolar dessa amizade vai desembocar em um final imprevisível (mesmo!).

Já o estranho triângulo amoroso segue uma trilha esquisita, terminando de maneira insípida. Em poucas palavras, trata-se de um filme inteligente, bem construído e que explora magnificamente a beleza de duas grandes (e lindas) atrizes, abusando das sombras e das cores fortes (vermelho e azul). A fotografia é um excelente ponto de apoio do longa-metragem, bem como o elenco feminino. Já Depardieu encarna Bernard com eficiência e poucas palavras.

O grande problema de “Nathalie X”, na verdade, não parece ser exatamente um problema – mas torna-se um, num momento em que a cinematografia francesa vai buscar inspiração no cinema emocional norte-americano (lembre-se de “Amèlie Poulain”). Trata-se da frieza com que a câmera acompanha um relacionamento de bodas de prata desmoronar aos poucos, como um castelo de cartas. “Nathalie X” é um iceberg. E o público contemporâneo tem dificuldades de aceitar um produto assim.

A Europa Vídeo lançou o filme no Brasil em DVD simples, contendo o filme com imagem de corte original widescreen, mais trilhas de áudio em português e francês no formato Dolby Digital 2.0. Um trailer e um pequeno featurette de bastidores completam o pacote.

– Nathalie X (Nathalie…, França, 2003)
Direção: Anne Fontaine
Elenco: Fanny Ardant, Emmanuelle Béart, Gerard Depardieu, Wladimir Yordanoff
Duração: 100 minutos

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