Natureza Selvagem, Na

20/05/2008 | Categoria: Críticas

Apesar de simplificar a jornada pessoal do protagonista, filme de Sean Penn tem grandes interpretações e bom roteiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Em 2005, o cineasta Werner Herzog realizou um documentário fascinante sobre Timothy Treadwell, ativista ecológico que levou por 13 anos uma vida solitária, nas condições extremas do Alasca, até ser morto por um urso em 2003. O personagem apresenta semelhança inegável com Christopher McCandless, cuja trajetória real foi retratada por Sean Penn no pungente longa-metragem “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild, EUA, 2007). Além de terem habitado por muito tempo o mesmo espaço geográfico, os dois jovens tomaram a mesma decisão de buscar uma maior comunhão com a natureza e evitar ao máximo o convívio com a civilização. Os fatores similares favoreciam a ocorrência de mais um caso de “filmes gêmeos”, um fenômeno tradicional na indústria cinematográfica, mas não foi isso o que ocorreu.

Para satisfação dos cinéfilos, “O Homem Urso” e “Na Natureza Selvagem” são filmes muito bons, mas também bastante diferentes. Além de ser uma ficção (embora baseada em fatos reais), a película dirigida por Sean Penn também possui uma narrativa mais clássica. O trabalho de Penn, que costuma exercer a função de maneira bissexta e sempre alcança resultados convincentes (“A Promessa”), abre espaço generoso para a composição cuidadosa de personagens, o que permite que os atores brilhem. E o elenco, obviamente, acaba se tornando um dos maiores destaques do trabalho, já que inclui uma penca de gente boa: William Hurt, Marcia Gay Harden (que interpretam os pais do protagonista), Hal Holbrook, Catherine Keener, Kirsten Stewart e vários coadjuvantes menos conhecidos.

O show, porém, pode ser debitado na conta do jovem Emile Hirsh. Quando escalado para o papel principal, ele chegou a ser encarado com desconfiança por parte da imprensa especializada, mas deu a volta por cima sem dificuldade. Além de passar por uma impressionante transformação física (perdeu cerca de 30 quilos durante as filmagens, aparecendo magérrimo e macilento no terceiro ato), o jovem ator interpreta Christopher McCandless com uma mistura de carisma, magnetismo pessoal e um tantinho de autoconfiança exagerada. É a mistura perfeita para dar peso emocional à tragédia que Sean Penn deseja filmar, criando um road movie delicado que funciona como coeso estudo de personagem.

Embora tenha baseado o roteiro (que também escreveu) em um relato jornalístico que narra a jornada de McCandless de maneira documental, Sean Penn não resiste à tentativa de fazer uma leitura emocional – ainda que sutil e bem lastreada por fatos – da situação do protagonista. O verdadeiro McCandless caiu no mundo quando terminou a faculdade. Queimou todas as economias (US$ 24 mil), abandonou o carro e pegou a estrada para nunca mais voltar. Durante a jornada, em que jamais manteve contato com a família, manteve um diário. Foi através deste manuscrito que Sean Penn pôde reconstituir os encontros que moldam, no filme, a personalidade do personagem: um casal hippie, um caminhoneiro farrista, um casal de turistas dinamarqueses, um velho solitário, e assim por diante.

Apesar de todos esses encontros mostrarem que a raça humana é perfeitamente capaz de produzir indivíduos de bom coração e caráter impecável, McCandless continua sua jornada rumo a um isolamento cada vez maior e mais radical. Para Sean Penn, trata-se de um claro caso de mal-estar com a civilização. Esta “teoria” é apoiada pela ótima música de Eddie Vedder, que assume aqui o lado “trovador solitário” e entrega um punhado de canções acústicas, remetendo ao melhor de Neil Young. Uma das músicas culpa, enfaticamente, a sociedade como responsável pela situação de McCandless. O ponto nevrálgico do filme é a seqüência em que ele retorna do México, sujo e esfomeado, e parece pronto para restabelecer contato com a família, até passear pelas ruas observando os rostos indolentes das pessoas nas vitrines dos restaurantes e decidir, finalmente, que passou do ponto de retorno, e não pode mais viver entre pessoas.

É uma cena belamente dirigida, mas que simboliza muito bem a maior fragilidade de “Na Natureza Selvagem”, que é a simplificação da jornada emocional do personagem. Para enfatizar a mensagem do longa-metragem, Sean Penn decidiu ignorar diversos pontos da biografia do rapaz. Sabe-se, por exemplo, que na infância, quando tinha cinco anos, McCandless já exibia tendência ao isolamento e enorme interesse pela natureza. Parece claro que essas características tenham se juntado à péssima relação com os pais para produzir um indivíduo anti-social, mas este é um dado que não existe no filme, e somente quem pesquisar um pouco sobre o verdadeiro Christopher McCandless vai descobrir essas nuances. Uma produção com quase duas horas e meia deveria dar conta de todas essas minúcias.

Por outro lado, é impossível ignorar os pontos positivos do filme, que são muito mais generosos. A fim de retratar a vida no Alasca com realismo, Sean Penn e a equipe técnica viajaram quatro vezes à região, ao longo de um ano, e filmaram todas as cenas em locação, mostrando de forma eficiente a passagem do tempo através da vegetação (rala, exuberante, com neve, etc.). As imagens da natureza, associadas à música quase minimalista de Eddie Vedder, capturam com exatidão o senso de isolamento e a pequenez do homem diante da natureza. Além disso, o comovente segmento que focaliza o encontro do jovem ermitão com um solitário aposentado que se isolou após uma tragédia pessoal (Hal Holbrook, em grande atuação indicada ao Oscar) é um daqueles raros momentos cinematográficos em que o espectador se emociona genuinamente, sem que o diretor precise forçar a barra em direção ao melodrama.

O DVD simples, da Paramount, traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Na Natureza Selvagem (Into the Wild, EUA, 2007)
Direção: Sean Penn
Elenco: Emile Hirsch, Catherine Keener, Vince Vaughn, Hal Holbrook
Duração: 148 minutos

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