Navigator – Uma Odisséia no Tempo

26/06/2006 | Categoria: Críticas

Fantasia gótica neozelandesa brnca com o tema da viagem no tempo e tem clima permanentemente onírico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A Peste Negra, visões inexplicáveis, símbolos católicos, guerreiros medievais e uma viagem no tempo. Os elementos que compõem o enredo da fantasia gótica “Navigator – Uma Odisséria no Tempo” (Navigator: A Mediaeval Odyssey, Austrália/Nova Zelândia, 1988) dificilmente poderiam ser organizados em uma narrativa estruturada de modo clássico, com começo, meio e fim bem definidos. E clássico é tudo o que “Navigator” não é. Trata-se de um filme estranho, delirante, com clima permanentemente onírico e uma mistura incomum de humor e melodrama. O resultado final é irregular, mas bastante interessante.

A história do filme começa no ano 1348, em um território chamado Cumbria, na futura Inglaterra. Um letreiro estabelece para o espectador o contexto em que o filme se passa: é a época do avanço da Peste Negra na Europa, um período em que a doença exterminou um terço da população humana na região. Sob clima tenso, os habitantes de uma vila rural esperam, sem muita confiança, o retorno de um explorador local que viajou ao continente, dias antes, para examinar o progresso da doença e avaliar quanto tempo o povo local ainda tem para se proteger contra o contágio.

Contra todas as expectativas, Connor (Bruce Lyons) consegue retornar, mas com uma má notícia: a Peste Negra tem avançado muito mais rapidamente do que o previsto. Ele calcula que a doença chegará na próxima lua cheia, que é no dia seguinte. Desesperados e sem saída aparente, os habitantes decidem tomar a decisão radical de seguir Griffin (Hamish McFarlane), o irmão mais novo de Connor. O garoto está sendo assolado por sonhos e visões, e acredita que, caso escavem um pouco mais o fundo de um grande buraco na periferia da vila, serão capazes de sair em uma cidade do outro lado do mundo.

Pois bem, os homens medievais da aldeia alargam o buraco e acabam rompendo as barreiras de espaço e tempo, indo parar no centro de Auckland, grande metrópole neozelandesa, em pleno século XX. A partir de então, seguindo as visões do pirralho, os guerreiros medievais precisam descobrir uma igreja de torre branca, e fincar no topo dela uma cruz de cobre. Desta maneira, os moradores da vila acreditam que terão proteção divina contra a chegada da Peste. A jornada, contudo, não é nada fácil, tornando-se uma verdadeira odisséia, em que precisam atravessar uma rodovia movimentadíssima – sem entender o que são aquelas máquinas – e superar encontros surreais com um grupo de ferreiros e até um submarino. Coisa de maluco.

Com um orçamento minúsculo e muita liberdade, o neozelandês Vincent Ward capricha no visual. Para começar, preenche o filme com imagens repletas de simbolismo religioso (cruzes mergulhadas em água, cavalos brancos), muitas vezes sem conexão aparente com a narrativa principal. Ele também alterna o uso de cor com inúmeras cenas em preto-e-branco, optando por fotografar essas últimas com contraste bastante forte e quase sempre em exteriores, o que dá ao filme um aspecto parecido com o de “O Sétimo Selo”, obra-prima de Ingmar Bergman que também se passa na Idade Média.

Já a odisséia enfrentada pelos guerreiros parece uma adaptação livre do “Inferno” de Dante, algo que fica especialmente evidente quando ocorre o surreal encontro dos viajantes com um submarino, monstro mecânico que os medievais confundem com um dragão. A narrativa, contudo, é muito irregular, deixando diversos detalhes sem explicação e rumando para um final que não é apenas ambíguo, mas também sem muito sentido. “Navigator” tem seu interesse justificado pela criatividade no uso do tema da viagem no tempo e, sobretudo, pelo humor peculiar. Mas só isso.

O DVD brasileiro não tem boa qualidade. É um disco simples e sem extras, e apresenta qualidade fraca de imagem (tela cheia, ou 4:3, com cortes laterais) e som (Dolby Digital 2.0).

– Navigator – Uma Odisséia no Tempo (Navigator: A Mediaeval Odyssey, Austrália/Nova Zelândia, 1988)
Direção: Vincent Ward
Elenco: Bruce Lyons, Chris Haywood, Hamish McFarlane, Marshall Napier
Duração: 88 minutos

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