Nem Que a Vaca Tussa

10/11/2004 | Categoria: Críticas

Disney se despede da animação tradicional com visita ao passado do Velho Oeste

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

“Nem Que a Vaca Tussa” (Home on the Range, EUA, 2004) vai carregar para sempre, independente da qualidade que possui, um rótulo triste para a Disney, a mais tradicional empresa de animação do mercado cinematográfico. O longa-metragem de 76 minutos foi o último filme produzido pelo estúdio com a técnica da animação tradicional, feita com lápis e tinta. Trata-se do último rebento de uma tradição de 67 anos, que agregou clássicos do naipe de “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937) e “O Rei Leão” (1994).

De certa forma, é sintomático que a Disney tenha escolhido outro gênero pertencente ao passado, a meados do século XX – o faroeste – para homenagear com essa despedida. “Nem Que a Vaca Tussa” tenta, portanto, uma combinação difícil: reunir a narrativa clássica do filme infantil (com trama simples, heróis e vilões unidimensionais e coadjuvantes engraçados, geralmente encarnados como animais) à iconografia tradicional do Velho Oeste, com cidades poeirentas, saloons que cheiram a uísque e vastas planícies douradas de sol. Sai-se apenas razoavelmente.

A história gira em torno de três vacas que tentam salvar o rancho “Pedaço do Céu” da hipoteca. Para tanto, precisam arrumar US$ 750 em uma semana. Como esse é o valor exato da recompensa oferecida pela captura de um conhecido ladrão de gado, Alameda Slim, as três se embrenham nessa aventura. Com elas, competem o caçador de recompensas Rico, um enigmático humano cujo rastro é seguido pelas “garotas”.

Crítica e público foram, nos Estados Unidos, impiedosos com a firma decana da animação tradicional. “Nem Que a Vaca Tussa” fez bilheteria apenas modesta (pouco menos de US$ 50 milhões, nem 20% do que produções digitais como “Procurando Nemo” conseguiram nos últimos anos) e recebeu comentários negativos da maior parte dos especialistas. O maior problema da obra parece ter sido a tentativa de criar um universo infantil sobre uma paisagem que os baixinhos desconhecem inteiramente.

Um espectador familiarizado com filmes de faroeste vai se sentir em casa. No filme estão os picos do Monument Valley (a paisagem de areia rochosa onde John Ford filmou quase todas as obras que fez), o Grand Canyon e uma coleção impecável de ícones associados à imagem dos pioneiros do Oeste: minas de prata, enchentes, búfalos ferozes, caçadores de recompensa misteriosos, ladrões de gado, fazendeiros de boa índole. Ocorre que tudo isso passa em branco para os pequenos, que nunca viram nada disso na tela. O faroeste, como a animação tradicional, é passado – coisa de saudosistas.

O trabalho de animação em si é limitado, investindo mais uma vez em um realismo impossível de competir com os computadores de Pixar e DreamWorks, rivais que vêm humilhando a Disney ano após anos nesse quesito. As inovações existem, mas chamam pouca atenção diante desse quadro. Além disso, o roteiro de “Nem Que a Vaca Tussa” apela feio para piadas grosseiras, que a Disney dificilmente teria coragem de repetir há alguns anos (uma delas, pronunciada por uma vaca a respeito de implantes de silicone, acabou tirando do longa-metragem a classificação “Livre” nos EUA).

Um detalhe importante é que há só dois números musicais – outra tradição dos filmes infantis que se vai, essa sem deixar saudades – e isso dá certa agilidade à trama. Influências de “Babe” (o cotidiano de uma fazenda ameaçada de despejo, sob o ponto de vista dos animais) também são bem-vindas. No Brasil, o trio Cláudia Rodrigues (“A Diarista”), Fernanda Montenegro e Isabela Garcia dá sangue na pele das três vacas protagonistas. Nada disso, porém, consegue retirar de “Nem Que a Vaca Tussa” um certo cheiro de naftalina. Bye bye Disney.

– Nem Que a Vaca Tussa (Home on the Range, EUA, 2004)
Direção: Will Finn e John Sanford
Animação
Duração: 76 minutos

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