Nem Tudo É o que Parece

15/05/2006 | Categoria: Críticas

Primeiro filme de Matthew Vaughn tem boa história e pouca atmosfera sobre o submundo inglês do crime

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O título original de “Nem Tudo É o que Parece” (Layer Cake, Grã-Bretanha, 2004) significa, literalmente, “Bolo de Camadas”. Ou seja, um daqueles bolos feitos com dois ou mais tipos de recheio, dispostos em camadas separadas. Embora só vá ser explicado em palavras durante um diálogo, na penúltima cena, o nome pode ser compreendido sem muito esforço pelo espectador. “Nem Tudo É o que Parece” é um filme sobre o submundo do crime na Inglaterra, e expõe o funcionamento desse submundo a partir da metáfora do título: tudo funciona a partir do estabelecimento de um hierarquia mais ou menois rígida, com chefões, testas-de-ferro de dois ou três níveis, marginais de segunda, viciados e outros componentes.

Toda a complicada trama é narrada do ponto de vista de um homem sem nome, interpretado pelo ator Daniel Craig. Ele está na faixa dos 40 anos, veste-se bem, tem um emprego de fachada numa agência de publicidade e integra um dos escalões do meio de um complexo esquema de tráfico de cocaína. XXXX, como é listado nos créditos, afirma que o segredo para se dar bem no negócio é ser conservador; ou seja, conhecer bem quem vende e quem compra a droga, pagar as contas – as legais e as ilegais – em dia e jamais ser ganancioso. Ele já juntou uma fortuna razoável e planeja se aposentar em pouco tempo.

Os planos do rapaz desandam a partir do dia em que é chamado pelo chefe, Jimmy Price (Kenneth Cranham), e recebe dois trabalhos esquisitos e simultâneos. Ele precisa arrumar comprador para um grande carregamento de pílulas de ecstasy conseguido por um pequeno traficante local. Também deve encontrar, o mais rápido possível, a filha do chefe de Jimmy, o barão da cocaína Eddie Temple (Michael Gambon). A garota é viciada e sumiu com o namorado doidão, com destino incerto. XXXX não gosta de nenhuma das duas missões, mas tem que cumpri-las, e vai em frente. Este é o começo de um emaranhado de tramas e subtramas que põem a vida do traficante mauricinho em risco.

O projeto de “Nem Tudo É o que Parece” foi feito para o diretor Guy Ritchie. Seria um planejado retorno do cineasta ao submundo do crime londrino, que lhe rendeu os elogiados “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch”. Problemas de agenda fizeram com que Ritchie tivesse que recusar o trabalho e, então, o produtor das duas obras anteriores dele, Matthew Vaughn, assumiu o projeto e fez sua estréia como diretor. A boa notícia é que ele funciona como bom maestro cinematográfico. Não tem o senso de humor abrasivo e nem a direção nervosa de Guy Ritchie, mas possui firme senso pop (dê uma olhada nos nomes da trilha sonora, com The Cult, Duran Duran, Scissor Sisters, Joe Cocker e Rolling Stones) e estilo visual mais elegante e atento aos detalhes.

Talvez por inexperiência, o início do longa-metragem parece um pouco confuso, com uma grande miríade de personagens, envolvidos em várias subtramas, sendo apresentados ao mesmo tempo. Demora alguns minutos para que a platéia compreenda as conexões entre tantos personagens e tramas, mas uma vez que isso acontece, o filme anda perfeitamente. Sim, há um grande número de reviravoltas, mas nada é muito óbvio, e Matthew Vaughn jamais sai do ponto de vista do personagem: espantado com um lado do submundo que desconhecia, mas não tanto a ponto de ficar sem ação.

Fora do mundo dos filmes de Guy Ritchie, que era fortemente influenciado pelas narrativas cronologicamente embaralhadas de Quentin Tarantino, Matthew Vaughn vai buscar referências num passado mais distante. Seu panorama de uma organização criminosa com ramificações legais tem algo de “Os Bons Companheiros”, de Martin Scorsese, e o uso de “Gimme Shelter” (Stones) na trilha sonora parece ser uma referência direta ao filme norte-americano. Claro que o filme de Vaughn é mais modesto, e não a ambiciosa saga criminosa de ascenção e queda que Scorsese efetuou. Seu estilo de filmar também é mais estilizado, mais rápido e menos duro do que o de Scorsese.

Uma deficiência evidente de Vaughn está na direção de atores, que parecem inseguros em seqüências cruciais. Em certo momento, por exemplo, XXXX precisa matar um homem pela primeira vez. Compreensivamente, ele está hesitante e nervoso, mas a direção nunca consegue ilustrar como o crime afeta o personagem. A edição de Jon Harris – que no geral é veloz e eficiente – tenta mostrá-lo hesitando antes de aproximar-se da vítima, e tendo uma crise de insônia, mas não consegue aproximar o espectador do senso de excitação que ele deve estar sentindo. Em outras palavras, Matthew Vaughn tem uma boa história e a conta de maneira correta, mas ainda pode melhorar bastante em termos de capturar a atmosfera das cenas que narra. Tudo bem. Há tempo para isso.

O DVD do filme sai pela Sony. O filme tem os formatos de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (wide anamórfico) preservados, com ótima qualidade. Entre os extras, há comentário em áudio com o diretor e o roteirista J.J. Connolly, galeria de cenas cortadas (com comentário opcional de Vaughn), documentário de bastidores, um segmento de perguntas e repostas com o diretor e Daniel Craig, comparação das cenas finais com os storyboards e galeria de fotos. Tudo legendado.

– Nem Tudo É o que Parece (Layer Cake, Grã-Bretanha, 2004)
Direção: Matthew Vaughn
Elenco: Daniel Craig, Tom Hardy, George Harris, Michael Gambon
Duração: 105 minutos

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