Nenhum a Menos

25/08/2008 | Categoria: Críticas

Simples e despojado, longa de Zhang Yimou prova que simplicidade e graça podem andar juntas com crítica social

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Com mais de um bilhão de habitantes e um processo avançado de ocidentalização, a China se tornou assunto favorito entre economistas, que não se cansam de elogiar os índices econômicos alcançados pelo país a partir da década de 1990. Pouco se fala, contudo, nas condições sociais enfrentadas pela maioria dos chineses, especialmente no vastíssimo território rural do país asiático. “Nenhum a Menos” (Yi ge dou bu neng shao, China, 1999), um dos melhores filmes do diretor chinês Zhang Yimou, oferece um retrato duro e incisivo sobre esse aspecto pouco conhecido da nação. De quebra, traz também uma grande lição de tenacidade e perseverança.

A gênese da produção, que ganhou o Festival de Veneza em 1999 (foi o segundo Leão de Ouro conquistado por Yimou) e fez sucesso em diversas mostras de cinema alternativo ao redor do mundo, surgiu durante uma turnê realizada pelo cineasta em províncias afastadas da China. Ele se deparou com um cenário desolador, muito parecido com aquele que encontramos na zona rural do nordeste brasileiro: estradas sem conservação, escolas caindo aos pedaços, fome e analfabetismo em larga escala. Nesses lugares, ele percebeu que as crianças largam a escola muito cedo, antes dos 14 anos, para migrar até a cidade grande mais próxima e arranjar subempregos, ou mesmo mendigar, a fim de ajudar a família imensa e miserável a conseguir um prato de comida.

Conhecido por ser um cineasta-estilista, do tipo que valoriza o uso da cor e concebe filmes de visual elegante, Yimou renunciou a esta característica para obter um resultado mais simples e despojado, em que a sofisticação não desviasse a atenção do que realmente importava – a história. Reuniu um grupo de não-atores, incluindo diversas crianças, e concebeu um curioso sistema de filmagem para obter deles o desempenho mais espontâneo e naturalista possível. Ele usou câmeras de 16mm (mais leves e baratas) e microfones escondidos para tornar a equipe técnica o mais “invisível” que fosse possível. Liberou os garotos para improvisar à vontade e filmou, muitas vezes, com câmera escondida, sem que os “atores” soubessem que estavam sendo observados.

O resultado é um filme encantador, que guarda alguma semelhança com o brasileiro “Central do Brasil”, feito quase simultaneamente (e vencedor, não custa lembrar, no Festival de Berlim no ano anterior). A abordagem de Yimou, graças ao roteiro conciso e sem gorduras, é leve, quase graciosa, apesar da dureza dos temas abordados. A personagem principal é uma garota de 13 anos (Wei Minzhi), contratada como professora substituta de uma pequena aldeia rural. Quando um dos alunos (Zhang Huike) abandona a escola para trabalhar na cidade grande, ela não gosta – e decide ir atrás da criança, para convencê-la a retornar. Isso, inclusive, apesar de o relacionamento com os alunos não ser dos melhores, principalmente por causa da inexperiência e insegurança da menina.

Sem jamais deixar a forma se sobrepor ao conteúdo, Zhang Yimou consegue um desempenho coletivo extraordinário do elenco amador – a performance da “professora”, em particular, é um primor – e consegue inserir lirismo e delicadeza num filme que realiza uma crítica social contundente. Observadores atentos poderão perceber uma nítida influência dos melhores filmes neo-realistas italianos, a exemplo de “Umberto D”, algo que não chega a surpreender, dado o uso de técnicas típicas da escola de Vittorio De Sica e Luchino Visconti, como o uso de atores não-profissionais e o roteiro aberto, sem diálogos, construído pelos próprios participantes do filme a partir de histórias vivenciadas por eles mesmos em suas vidas. “Nenhum a Menos” é um filme encantador, que flerta com o melodrama sem chafurdar nele, e tem o mérito de deixar o espírito do espectador mais elevado.

Depois de vencer a Mostra Internacional de São Paulo, no ano do lançamento, a produção ganhou o mercado brasileiro com um DVD simples e sem extras da Columbia. O enquadramento original (widescreen 1.85:1 anamórfico) é respeitado. O áudio em cantonês tem qualidade decente (Dolby Digital 2.0).

– Nenhum a Menos (Yi ge dou bu neng shao, China, 1999)
Direção: Zhang Yimou
Elenco: Wei Minzhi, Zhang Huike, Tian Zhenda, Gao Enman
Duração: 106 minutos

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