Nightwatch – Perigo na Noite

29/10/2007 | Categoria: Críticas

Thriller dinamarquês usa a receita predileta de Alfred Hitchcock para matar a platéia de susto

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Martin (Nikolaj Coster-Waldau) é um estudante de Direito sem grana que arruma um emprego de vigilante noturno de necrotério para custear a faculdade. Ele imagina que as noites em claro podem lhe ajudar ainda a melhorar as notas, porque a natureza do trabalho lhe dará tempo suficiente para estudar direito. Na prática, porém, as coisas não saem conforme o previsto. Acontecimentos estranhos e assustadores ocorrem nos corredores escuros do lugar. Martin começa a imaginar uma improvável associação entre os sustos e a ação de um serial killer que anda matando prostitutas na cidade, mas ninguém acredita nele. É claro que as duas linhas narrativas vão se juntar na trama interessante de “Nightwatch – Perigo na Noite” (Nattevagten, Dinamarca, 1994).

O thriller de Ole Bornedal usa um protagonista bem ao gosto do mestre Alfred Hitchcock para injetar tensão a uma história simples e direta, que utiliza a ambientação decrépita de um mortuário para causar arrepios na platéia. Martin é o mais normal dos sujeitos – tem uma namorada que ama (Sofie Graaboel) e um amigo meio maluco com quem se diverte horrores (Kim Bodnia) –, só que acaba preso numa teia de circunstâncias que fazem o policial encarregado de investigar os crimes do assassino misterioso (Ulf Pilgaard) suspeitar que ele é o maníaco. Como nos melhores trabalhos de Hitchcock, o suspeito passa a investigar o caso para provar a sua inocência.

Embora esteja longe do status de obra-prima, e tenha um terceiro ato perceptivelmente mais fraco do que o desenvolvimento inicial da história, a atmosfera gótica/decrépita do filme dinamarquês garante ótimos momentos de diversão. A primeira parte, em que os personagens e o ponto de partida do enredo são apresentados, é particularmente excitante, investindo em uma série de pequenos detalhes que se acumulam para gerar suspense até mesmo em diálogos prosaicos entre dois personagens. É o caso, por exemplo, da estranha foto envelhecida que Martin encontra na mesma de trabalho do necrotério – aquele rosto amarelado e fantasmagórico, olhando fixamente para quem quer que lhe encare, com o tempo assume ares de personagem, e qualquer espectador acostumado com os códigos do suspense clássico certamente vai imaginar que ela poderá se revelar uma pista importante.

Além disso, Ole Bornedal demonstra talento inegável talento, tanto para pregar sustos monumentais como para criar suspense em cenas simples, colocando o espectador na posição de saber mais do que os personagens na tela. No primeiro caso, temos a longa e tensa seqüência em que Martin ouve soar um alarme que nunca, jamais, em nenhuma hipótese, deveria tocar – e ainda por cima, por força da ocupação, precisa investigar. No segundo caso, temos a angustiante cena em que a verdadeira identidade do assassino é revelada. Infelizmente, a qualidade do filme cai bastante a partir deste exato momento, com um final bobo, melodramático e impossível. Apesar dos vacilos, “Nightwatch – Perigo na Noite” comprova que o bom thriller prescinde de efeitos especiais caros e estrelas com salários milionários.

O filme não existe em DVD no Brasil. Nos EUA, uma edição da Anchor Bay pode ser encontrada com uma cópia OK do filme (imagens em widescreen 1.77:1 anamórfico, áudio em Dolby Digital 5.1), que inclui comentário em áudio do diretor. Vale lembrar, ainda, que o mesmo diretor dirigiu uma refilmagem norte-americana de qualidade inferior, com Ewan McGregor e Nick Nolte no elenco.

– Nightwatch – Perigo na Noite (Nattevagten, Dinamarca, 1994)
Direção: Ole Bornedal
Elenco: Nikolaj Coster-Waldau, Sofie Graaboel, Kim Bodnia, Lotte Andersen, Ulf Pilgaard
Duração: 104 minutos

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