Nina

21/06/2005 | Categoria: Críticas

Diretor pernambucano faz interessante exercício de estilo, talvez hermético e rebuscado em excesso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Nina” (Brasil, 2004) é um interessante exercício de estilo do diretor pernambucano Heitor Dhalia. Pernambucano radicado em São Paulo, diga-se de passagem, e essa é uma informação importante, porque “Nina” não tem nada do universo nordestino que os amantes de cinema imaginam ser compartilhado pela turma da geração do diretor, como Cláudio Assis, de “Amarelo Manga”. Para todos os efeitos, “Nina” é um filme paulistano, que tem pretensões – nada pequenas – de ser universal, mas termina sendo hermético e rebuscado demais para o gosto do grande público.

Heitor Dhalia informa que o projeto de “Nina” existiu, na cabeça dele, por pelo menos dez anos antes do lançamento do filme. Na verdade, nasceu quando Dhalia leu “Crime e Castigo”, clássico do escritor russo Dostoievski, e achou que o livro daria um grande filme. Daí surgiu a história de Nina (Guta Strosser, excelente), uma jovem gótica e bissexual que sobrevive em São Paulo servindo lanches numa lanchonete de pé de escada, enquanto passa os dias às turras com a dona do apartamento em que vive, Dona Eulália (Myriam Pires).

O filme se distancia do romance, no entanto, quando estabelece Nina como uma jovem com óbvios distúrbios mentais. A garota é esquizofrênica e tem sérios problemas de relacionamento com as pessoas, o que a atira numa espiral de paranóia e crises de depressão que pode, ou não, culminar com assassinato. O livro de Dostoievski, vale ressaltar, é uma reflexão ousada sobre questões morais. O autor russo o escreveu num acesso de raiva, por viver em condições sub-humanas, cheio de dívidas, enquanto via gente bem menos capaz ou inteligente do que ele se dando bem na vida.

Impelido pela situação difícil, o herói de Dostoievski lentamente elabora uma teoria moral capaz de justificar um assassinato: por que ele, um gênio que tem contribuições evidentes a dar à humanidade, não teria o direito de matar alguém ignorante, que nada tem a contribuir com a raça humana? Traços dessa “teoria” podem ser encontrados nos escritos de Nietzsche e até mesmo na trama de mistério de “Festim Diabólico”, do mestre Alfred Hitchcock. O filme de Heitor Dhalia, contudo, não faz nenhuma menção a esse problema moral. Nina não é gênia. É apenas uma garota desequilibrada, à beira de ser tragada por um abismo de loucura e esquizofrenia.

Há qualidades no filme. O roteiro, escrito a quatro mãos por Dhalia e Marçal Aquino, faz um trabalho razoável ao construir a descida de Nina rumo à loucura com diálogos bastante raros. Heitor Dhalia optou por fazer um trabalho bem estético, com muito uso de música e efeitos visuais. A trilha sonora está repleta de pequenos loops de música instrumental, trechos que se repetem à exaustão, e isso ajuda o espectador a entrar na paranóia de Nina. Os delírios da protagonista são apresentados em animação assina pelo desenhista Lourenço Mutarelli, um trabalho criativo e inteligente. A edição é bem dinâmica, e a direção de arte tinge tudo com sombras e tons de cinza, retirando quase toda a cor do longa-metragem e deixando-o gótico.

“Nina”, o filme, exibe o mundo da forma que Nina, a personagem, o vê: cinza, triste, solitário, decrépito, cheio de rostos desconfiados e gente marginalizada e meio enlouquecida. Mas todo esse cuidado com a estética do filme não leva a resultado algum. O filme não tem um início e nem um final definidos, parecendo apenas um recorte meio aleatório na vida da protagonista, o que deixa tudo meio sem sentido – quer dizer, faz sentido a experimentação estética, mas ela não tem nenhuma função narrativa.

É impossível não contrapor “Nina” ao excelente longa-metragem “Spider”, de David Cronenberg. Os dois filmes tratam da vida de personagens esquizofrênicos, e fazem uma tentativa de penetrar na mente de pessoas com esse problema. Só que Dhalia não é Cronenberg. O diretor canadense soube narrar uma história complicada de forma delicada e sutil, amparado em um roteiro consistente. Heitor Dhalia tentou fazer igual, e ficou pela metade: não é delicado, muito menos sutil. “Nina” vale como exercício de estilo, e especialmente pela performance coletiva muito boa do elenco.

O lançamento em DVD é da Sony. O filme vem em formato de tela original (widescreen) e mais trilha de áudio em formato Dolby Digital 5.1. Há um documentário de bastidores, uma galeria de fotos das filmagens, outra com ilustrações de Lourenço Mutarelli (integradas à narrativa do filme nas seqüências de animação) e trailer. Simples e eficiente.

– Nina (Brasil, 2004)
Direção: Heitor Dhalia
Elenco: Guta Stresser, Myriam Muniz, Sabrina Greve, Luiza Mariani
Duração: 85 minutos

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