Ninotchka

09/12/2005 | Categoria: Críticas

União de Ernst Lubitsch, Billy Wilder e Greta Garbo gera comédia fascinante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Garbo ri”. O slogan que marcou a campanha publicitária de “Ninotchka” (EUA, 1939) se tornou célebre e deixou uma marca profunda na maior estrela de cinema da época em que a comédia do alemão Ernst Lubitsch foi produzida. Para quem não entendeu a exotismo da declaração, cabe uma explicação adicional: considerada excelente atriz dramática, Greta Garbo desenvolvera a persona de uma pessoa fechada, até mal-humorada, que nunca ria. Naqueles anos 1930, quando o star system de Hollywood funcionava a todo vapor, a imagem pública projetada por um ator nos filmes era uma declaração de personalidade. Nada mais natural, portanto, do que os produtores explorarem o fato de a diva investir num gênero que lhe era estrangeiro, por assim dizer.

Claro que “Ninotchka” é muito mais do que mero veículo para expressão de uma atriz num gênero que não lhe era comum. O filme marca também a segunda colaboração entre o diretor, veterano imbatível na área da sátira social do universo dos ricos, e um jovem austríaco que seria, depois, considerado um sucessor à altura: Billy Wilder. O europeu recém-emigrado assinava o roteiro do longa-metragem, em parceria com o homem com quem escreveria vários clássicos da Sétima Arte (inclusive a genial comédia amarga noir “Crepúsculo dos Deuses”), Charles Brackett.

A conjunção de talentos que marca a produção de “Ninotchka” aparece claramente na frente da tela. O título é uma comédia deliciosa que integra um subgênero até certo ponto comum em Hollywood, naqueles tempos: o contraponto entre os modos de vida capitalista e socialista. Como todos sabem, a indústria do cinema foi um dos mais poderosos instrumentos de propaganda do sistema econômico dos Estados Unidos, mas “Ninotchka” vai muito além disso; é cinema de primeira grandeza, pois possui um trabalho de câmera brilhante e diálogos impagáveis, repleto de frases antológicas e piadas hilariantes. Além disso, se desanca de forma implacável a burocracia comunista, também não poupa o capitalismo de alfinetadas com a típica ironia finíssima de dupla Wilder-Lubitsch.

A história é muito simples, como convém a uma boa comédia romântica. Trata da visita a Paris de Nina Yakushova (Garbo), uma emissária do governo russo. Semblante fechado e fé inabalável na comunhão dos bens com o povo, Ninotchka chega para fiscalizar as ações de três antecessores, enviados para vender um lote de jóias e angariar fundos para o combalido Kremlin. O que ela não sabe é que o trio está hospedado na suíte presidencial de um grande hotel, desfrutando dos prazeres capitalistas, enquanto são “cozinhados” por um lorde falido que deseja uma parte do dinheiro obtido nas negociações. Ninotchka esbarra no Conde Leon D’Algout (Melvyn Douglas) sem saber quem ele é, e é só o início de uma grande confusão.

O trabalho de Wilder e Brackett no roteiro é brilhante. Especialistas em diálogos ferinos, cheios de malícia e carregados de ironia finíssima, os dois capricham, criando várias passagens memoráveis. O contraponto entre os dois modos de vida, por exemplo, gera conversas como o primeiro encontro entre Ninotchka e D’Algout, quando ele a convida para beber alguma coisa. “Não estou com sede”, responde ela. “Que tal comer algo?”, insiste ele. “Já consumi todas as calorias necessárias para um dia”, corta a russa. É uma brilhante maneira de ilustrar de forma graciosa e cômica o contraste entre o ponto mais sedutor do capitalismo – a promessa de prazer mesmo nas coisas mais cotidianas – e o raciocínio pragmático russo, que prega o bem coletivo acima de tudo.

Como se não bastasse, Lubitsch conduz tudo com mão invisível, acertando no ritmo das passagens mais cômicas. Preste bastante atenção, por exemplo, na cena em que Garbo ri pela primeira vez. Este era o momento que a platéia esperava desde que leu a frase mais chamativa do cartaz do filme, e Lubitsch o enche de tensão sexual, transformando-o também no ponto de virada do roteiro – é quando o filme se transforma de sátira ao modo de vida comunista em comédia romântica clássica, e de certa maneira inesperada.

O trabalho de câmera também é inesquecível; tome como exemplo as grandes farras promovidas pelo trio russo no grande salão presidencial do hotel, quando a câmera permanece no corredor e as vendedoras de cigarros com vestidinhos curtos entram no quarto para fazer seu trabalho – a censura não permitira mostrar mais do que isso, mas Lubitsch a dribla representando as reações entusiasmadas dos homens através dos gritos de puro prazer.

Até mesmo nas passagens aparentemente inofensivas há grandes momentos. Quando os três russos vão à estação de trens para receber Ninotchka, por exemplo, eles ainda não sabem que o emissário é uma mulher. Procuram por um rosto que lembre um “camarada” russo. Começam a avaliar um homem de aparência militar e, quando parecem convencidos que ele é o colega russo, o sujeito solta um “Heil Hitler” e faz a característica saudação nazista, com o braço direito erguido. Na cena, Lubitsch sugeria uma proximidade entre as ideologias nazista e comunista que mesmo os norte-americanos mais empedernidos tinha dificuldade em expressar. Uma maravilha.

Garbo entendeu tudo disso. O resultado final não foi um fenômeno de bilheteria (rendeu U$ 2,2 milhões, cifra pouco impressionante mesmo para os padrões da época) e ganhou boas críticas, mas não foi o fenômeno. Depois a História lhe faria justiça, colocando-o como uma das principais obras da carreira de Lubitsch. No coração da estrela, porém, “Ninotchka” foi para um lugar muito especial, assumindo a coração de filme favorito. “As pessoas não lembram que eu sei rir. Quando eu mesmo começo a me esquecer disso, só preciso fazer o rosto de Ninotchka, e a tristeza some”, diria ela, anos mais tarde. Legal, não?

O DVD é da Warner e traz o filme em edição restaurada, mas frugal. A imagem tem o corte original (fullscreen 4×3), o som é remixado (Dolby Digital 1.0) e o único extra disponível é um trailer.

– Ninotchka (EUA, 1939)
Direção: Ernst Lubitsch
Elenco: Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire, Bela Lugosi
Duração: 110 minutos

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