Nó na Garganta

29/10/2007 | Categoria: Críticas

História de criança carismática cujos instintos de violência são aguçados por ambiente social hostil é extremamente bem dirigida

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Quase todos os filmes com protagonistas crianças contam histórias dolorosas sobre como persistência, dedicação e amor podem transformar infâncias sofridas em vitórias pessoais. O inclassificável “Nó na Garganta” (The Butcher Boy, Irlanda/Inglaterra/EUA, 1997) toma o caminho oposto. O trabalho de Neil Jordan narra, usando elementos de realismo mágico para obter um registro que varia da tragédia sombria à comédia de humor negro, a história de uma criança carismática e hiperativa, cujos instintos de paranóia e violência são aguçados por um ambiente social hostil e inadequado, desembocando em tragédia.

Controlando com habilidade um material dramático polêmico, denso e difícil, Jordan utiliza trilha sonora pop perfeita e reconstituição de época impecável para levar o espectador até uma pequena cidade rural da Irlanda, em 1961. Lá, constrói um rico e complexo retrato do mundo interior de Francis Brady (Eamonn Owens), um agitado e agressivo menino de 11 anos, cercado por todos os lados de solidão e hostilidade. Ele vem de um lar destroçado. É filho de um músico que vive bêbado (Stephen Rea) e de uma dona-de-casa com compulsão para fazer doces e tentar o suicídio (Aisling O’Sullivan). O casamento não funciona mais, a família enfrenta dificuldades financeiras e Francis vive isolado, sozinho, perambulando pela rua.

Até mesmo a única amizade que o menino possui, a do igualmente turbulento Joe (Alan Boyle), está ameaçada pela mãe de outro colega, a senhora Nugent (Fiona Shaw). A mulher acredita ter identificado em Francis a má influência das demais crianças da cidade, e está decidida a fazer de tudo para interromper a amizade. Cada vez mais solitário e alienado, Francis só encontra refúgio na imaginação – um universo que mistura elementos religiosos, revistas em quadrinhos, filmes e seriados classe B. E sangue. Sim, sangue. Francis trabalha em um açougue, retalhando porcos, a fim de reforçar o orçamento de casa. É uma ocupação que não ajuda em nada a domar os instintos agressivos que rondam a cabecinha doente do pequeno menino ruivo. Muito pelo contrário.

Neil Jordan e o roteirista Patrick McCabe (também autor do romance original) utilizam todo o primeiro ato para delinear, com riqueza de detalhes, o ambiente social hostil em que Francis está imerso. Depois, operam um pequeno e eficiente truque tipicamente cinematográfico. Eles fazem questão de sublinhar o quanto o garoto está, a cada dia, mais solitário e infeliz. Ninguém lhe dá atenção. Crianças normais submetidas a este tipo de situação, especialmente no cinema, tenderiam a se mostrar tímidas ou retraídas, sendo então resgatadas da tragédia por uma vocação pessoal.

Não é o caso deste personagem singular. Ninguém, nem mesmo os pais de Francis, ocupados que estão remoendo os próprios problemas, percebem que o ambiente somente ajuda a canalizar a agressividade latente do menino em direção a uma figura em especial. Aos poucos, a platéia vai se dando conta de que não está vendo um drama infantil sobre redenção, mas a viagem sem freios para dentro de uma mente à beira da loucura e da psicopatia. Somente a câmera de Neil Jordan, estrategicamente acompanhando tudo do ponto de vista do menino, capta os sinais da tragédia iminente com alguma antecedência.

Em termos técnicos, “Nó na Garganta” é um filme impressionante. A fotografia de Adrian Biddle trabalha com cores fortes e vivas para traduzir, visualmente, as tonalidades monocromáticas de uma revista em quadrinhos, tramando um visual límpido, de cores fortes e dramáticas. É uma forma visual de enfatizar que o espectador está vendo não a realidade, mas a forma como Francis vê a realidade. Vale observar também a criativa função narrativa da cor verde, que adorna todas as roupas usadas pela senhora Nugent, e que Francis acaba por interpretar, utilizando seu repertório de filmes B, como um sinal que desencadeia a tragédia sobre a pequena vila. Todo o contexto da época, com imagens recorrentes da bomba atômica e pesadelos sobre o fim do mundo, ajuda a compor um quadro de dor e violência, só que filtrado pela lente de humor negro.

Escolhido após testes infindáveis com duas mil crianças, o ator-mirim Eamonn Owens deixa uma fortíssima marca positiva como Francis. Carismático, tagarela e muito energético, ele é dono de um olhar desafiador e de um sorriso insolente que, juntos, dão ao personagem um ar ao mesmo tempo divertido, estridente e ameaçador, que encaixa perfeitamente no personagem. Atores irlandeses de talento, como Stephen Rea (dono da narração cínica do Francis adulto que percorre toda a jornada) e Brendan Gleeson, compõem o elenco homogêneo e vigoroso. Não se pode esquecer da impagável participação da cantora Sinead O’Connor, que incorpora a Virgem Maria de boca suja, em uma série de visões que Francis tem, quando a situação começa a ficar preta de verdade.

“Nó na Garganta” fica especialmente desconcertante quando se percebe que Neil Jordan não tenta suavizar o roteiro cruel, violento e sarcástico de Patrick McCabe, transformando-o em uma história de redenção pessoal. Não. O diretor irlandês decide que a loucura e a agressividade devem levar o personagem até o fim do caminho, ainda que isto lhe custe a sanidade – convenhamos, filmes ditos “normais” não terminam da mesma maneira que ocorre aqui. Não há atalhos pacificadores ou barreiras morais, e a viagem ao lado negro de uma mente paranóica prossegue, sem freios, até o final. O contexto social do protagonista e a mistura de violência, humor negro e cinismo do enredo levaram a crítica internacional a definir o filme como um híbrido de “Laranja Mecânica” com “Os Incompreendidos”, o que faz muito sentido. De qualquer forma, também é possível enxergar Francis Brady como o primo pobre, cruel e violento de Amelie Poulain. Uma obra para poucos.

– Nó na Garganta (The Butcher Boy, Inglaterra/EUA/Irlanda, 1997)
Direção: Neil Jordan
Elenco: Eamonn Owens, Stephen Rea, Fiona Shaw, Alan Boyle
Duração: 109 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »