Noite Americana, A

28/08/2004 | Categoria: Críticas

Truffaut filma com carinho e sensibilidade os pequenos dramas nos bastidores de uma filmagem

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A expressão “Noite Americana” se refere a uma técnica especial de fotografia para o cinema. O uso dessa técnica pode fazer com que cenas filmadas durante o dia, sob a luz do sol, pareçam se passar à noite. O título de “A Noite Americana” (La Nuit Américaine, França, 1973), portanto, revela bastante, literal e metaforicamente, a respeito do filme mais badalado de François Truffaut nos EUA. O longa-metragem, vencedor do Oscar de filme estrangeiro, é um sensível e adorável retrato dos bastidores de uma filmagem.

A idéia para “A Noite Americana” deve ter surgido, na cabeça de Truffaut, muitos anos antes. Em 1962, durante a famosa série de entrevistas que fez com Alfred Hitchcock, o mestre do suspense confessou ao pupilo que gostaria muito de filmar os pequenos dramas humanos que se desenrolam atrás das câmeras, durante a criação de um filme. Pessoas se apaixonam, casamentos entram em crise, casais se formam e se separam. Intrigas, desejos, dúvidas, angústias. Truffaut parece ter gostado da idéia e fez, dez anos depois, seu próprio filme sobre o assunto.

Um longa-metragem, parece dizer Truffaut, pertence tanto ao diretor quanto à equipe de filmagem. É curioso que tal produção tenha saído da mente do homem que colocou no papel a famosa “teoria do autor”, que atribui à figura do diretor o papel de verdadeiro artista do filme. De certa forma, “A Noite Americana” contradiz a teoria, já que Ferrand (Truffaut), o diretor, demonstra em diversos momentos não ter controle algum sob o que ocorre nas filmagens. De fato, em certos momentos, pode-se dizer que ele perde totalmente esse controle, sem que a obra saia dos eixos por causa disso. Ela pertence a todos, não a um.

Não há, em “A Noite Americana”, um personagem de destaque individual; o foco de Truffaut é sobre o coletivo. O francês demonstra o habitual carinho pelos seus personagens, mostrando com cortesia e sensibilidade as idiossincrasias de cada um deles. Julie (Jacqueline Bisset) é a estrela norte-americana que só deseja ser amada. Severine (Valentina Cortese) esquece as falas e se ressente da idade chegando, mas ainda age como a grande atriz que já foi. Alphonse (Jean-Pierre Leáud), o astro jovem e imaturo, arranja espaço para a namorada Liliane (Dani) na equipe técnica, mas a garota dá bola para outros homens, provocando ciúmes no rapaz. No meio dessa balbúrdia, Ferrand tenta cumprir o cronograma.

“A Noite Americana” é uma celebração ensolarada desta arte coletiva que é o cinema. Por isso, é uma flecha certeira no coração de qualquer amante de filmes. Se a falta de controle do diretor sobre a produção já havia sido abordada antes em “Oito e Meio”, de Fellini, o cineasta francês se afasta do colega por temperar a trama com muito humor e colocar nos diálogos mais leveza. Mas a influência de Fellini ainda se manifesta nos sonhos de Ferrand, que mostram (óbvia referência autobiográfica) um menino roubando fotos still de “Cidadão Kane” de um cinema.

A maioria das seqüências que mostram a filmagem de seqüências do filme dentro do filme, entretanto, carregam um senso de humor próximo do picaresco. Em um momento, por exemplo, Severine é obrigada a repetir a mesma tomada inúmeras vezes, primeiro porque esquece as falas, e depois porque não consegue abrir a porta certa para sair do cenário. Numa das mais hilariantes cenas do filme, a produção precisa dar um jeito de obrigar um gato a beber o leite da bandeja que Julie coloca na porta do quarto onde dorme. É divertido ver até que ponto a produção de um filme pode sofrer a interferência do acaso, por mais que se tente controlá-la.

O DVD de “A Noite Americana” merece uma conferida atenta por causa da grande quantidade de material extra que a Warner colocou. Há duas pequenas entrevistas com Truffaut sobre o filme, um documentário (20 minutos) e até mesmo as cenas da apresentação do longa-metragem no Festival de Cannes. Tudo isso legendado. Somados a uma transferência impecável da imagem e trilha de áudio correta em Dolby Digital 2.0, os extras garantem muitas horas de diversão para cinéfilos de todas as idades. Esqueça o tabu de que os cineastas franceses só fazem filmes arrastados (não é verdade!) e mergulhe de cabeça.

– A Noite Americana (La Nuit Américaine, França, 1973)
Direção: François Truffaut
Elenco: François Truffaut, Jacqueline Bisset, Valentina Cortese, Jean-Pierre Leáud
Duração: 115 minutos

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