Noite e Neblina

08/08/2006 | Categoria: Críticas

Documentário em curta-metragem sobre campos de concentração é um filme obrigatório e um DVD excelente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Embora tenha impressionados cinéfilos do mundo inteiro na época do lançamento original e depois, ao longo dos anos, se transformado em paradigma indiscutível do gênero documentário, o filme francês “Noite e Neblina” (Nuit et Brouillard, França, 1955) nunca se tornou muito popular. É fácil entender as razões: 1) é um curta-metragem e, como tal, dificilmente passa nos cinemas; 2) documentários em geral não costumam atrair público; 3) o tema, árido, é o Holocausto, e há boa quantidade de imagens aterrorizantes dos campos de concentração nazistas, material que costuma afastar os espectadores.

Um filme assim parece ter sido talhado para o formato DVD. E “Noite e Neblina” é incontornável. Precisa ser visto, e não apenas pelos cinéfilos. O curta-metragem de 31 minutos é simples e direto, mas funciona ao mesmo tempo como uma homenagem aos nove milhões de vítimas da crueldade nazista e como alerta para aqueles que vêem o regime de Hitler como um momento que pertence ao passado da humanidade. A abordagem de Resnais é espartana, mas transita sem pausas entre o delicado e o brutal, soando como um grito lancinante contra todo e qualquer tipo de intolerância.

A produção de “Noite e Neblina” foi difícil. Resnais hesitou em dirigir a obra, pois temia ficar marcado como diretor de documentários, quando desejava filmar ficção. Ao ser apresentado ao poeta Jean Cayrol, um sobrevivente de campo de concentração, acabou convencido a embarcar na empreitada. Chamou então o músico Hanns Eisler para compor a banda sonora e passou a coletar imagens de cinejornais, fotografias e todo tipo de documento que mostrasse os campos de concentração.

O filme foi feito para comemorar o aniversário de 10 anos da liberação desses campos, em 1945, ao final da Grande Guerra. Resnais teve a idéia de viajar para os locais onde funcionaram os principais, como Auschwitz e Sachsenhausen, e filmá-los em película colorida. O choque das imagens bucólicas – amplos gramados verdes sob céu azul – com o horror dos cadáveres que repousavam nos mesmos lugares, cinzentos e sem vida, apenas alguns anos antes, cria a idéia que percorre todo o filme: o mal está à espreita, em qualquer lugar, a qualquer tempo. É preciso estar sempre atento para que ele não engolfe as cores do mundo.

Em entrevistas posteriores, Resnais confessou que sempre pensou em “Noite e Neblina” como uma sutil condenação à decisão francesa de invadir a Argélia, fato ocorrido na época do lançamento do filme. Embora não haja qualquer menção a isso durante a película, a idéia encaixa perfeitamente no texto delicado, mas firme e cortante de Cayrol. Sim, é um filme sobre o Holocausto, e está repleto imagens da brutalidade inimaginável dos campos de concentração (pilhas de cadáveres mutilados, paredes de câmaras de gás arranhadas pelas unhas dos prisioneiros à beira da morte), mas o filme não deseja simplesmente impressionar através da violência. Ele está além do Holocausto.

É na combinação de três fatores que resulta a beleza de “Noite e Neblina”: o contraste entre imagens da guerra e do pós-guerra, a doçura cortante do poema de Jean Cayrol e a delicadeza da música melancólica de Hanns Eilser. Ou seja, este não é um documentário jornalístico, frio e objetivo. Pelo contrário. Imagem, som e texto compõem uma espécie de sinfonia audiovisual que, nas palavras de François Truffaut, é uma “aula de história cruel mas merecida”. É isso.

O DVD da Aurora inaugura uma coleção chamada Cinema Essencial. A qualidade do filme (imagem em fullscreen 1.33:1 e som em Dolby Digital 2.0) é ótima, já que a cópia foi restaurada. Além disso, há quatro featurettes interessantes, todos produzidos pela Aurora exclusivamente para este lançamento. Embora os extras tenham mais interesse para os residentes em Pernambuco (onde está a sede da Aurora DVD), merecem destaque especial porque se trata da primeira obra estrangeiro lançada no Brasil que tem material extra produzido aqui, em território nacional, para ela.

Os melhores extras são duas entrevistas (19 minutos) com os críticos de cinema Paulo Cunha e Alexandre Figueirôa. Ambos fizeram Doutorado em Cinema em Paris e possuem intimidade com a obra, em especial o primeiro. Há ainda uma terceira entrevista com a diretora do Arquivo Histórico Judaico, Tânia Kaufman (5 minutos), e ainda um curto documentário em inglês sobre a presença judia em Pernambuco (11 minutos). Para completar, um luxuoso encarte de 24 páginas, repleto de artigos a respeito do filme. Um disco indispensável.

- Noite e Neblina (Nuit et Brouillard, França, 1955)
Direção: Alain Resnais
Documentário
Duração: 31 minutos

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6 comentários
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  1. Estou procurando este filme já ha algum tempo sem sucesso. gostaria muito de assisti-lo, mas não sei onde encontrar.

  2. Paulo, a Aurora DVD fechou as portas em 2006. Mesmo assim você consegue achar o DVD em boas locadoras (no Recife, a SMS ou a Classic). Algumas lojas virtuais também o vendem, assim como as filiais da Livraria Imperatriz.

  3. E aqui em São Paulo , onde posso acha-lo ?

  4. Não tenho certeza, Diana, mas arriscaria a Livraria Cultura e a 2001 Video.

  5. Rodrigo, será que hoje em dia ainda é possível encontrar esses dvds da Aurora?

  6. Não faço ideia, Anderson. Creio que em lojas não existem mais. Talvez em sebos.

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