Noiva de Frankenstein, A

31/12/2005 | Categoria: Críticas

Seqüência do filme de 1931 é o trabalho mais inteligente e bem acabado de James Whale

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O avassalador sucesso do primeiro “Frankenstein”, de 1931, e de “Drácula”, lançado no mesmo ano, transformou os estúdios Universal na casa dos filmes de monstros. Uma opinião quase unânime de críticos e admiradores sobre o gênero ensina que a seqüência do primeiro, chamada “A Noiva de Frankenstein” (Bride of Frankenstein, EUA, 1935) é o melhor trabalho da onda de horror que assaltou Hollywood naqueles anos. E a maior parte dessas pessoas não discute que um homem é o responsável pela excelência do longa-metragem: o cineasta James Whale.

De fato, a história de Whale em Hollywood mostra que ele era um dos diretores mais preparados a atuar na indústria do cinema, naqueles tempos. Havia trabalhado como cenógrafo e diretor de arte, além de ser um bom pintor, o que lhe transformava em um profissional perfeito para trabalhar visualmente histórias diferentes. Além disso, as circunstâncias ajudaram para que Whale obtivesse carta branca na seqüência do filme de 1931. Ele era muito amigo do diretor do estúdio, Carl Laemme Jr, e demorou quatro anos para aceitar o convite e dirigir o filme, pois desejava dirigir produções dramáticas que lhe possibilitassem ascender na hierarquia de Hollywood.

Quando a Universal lhe implorou, oferecendo orçamento maior e possibilidade de controlar a produção por inteiro, Whale finalmente aceitou fazer o filme; isso lhe possibilitou condições raras para a época. Assim, ele não apenas ajudou a desenhar e conceber os sets de filmagem, como também aumentou a quantidade de locações e redigiu as primeiras versões do roteiro. Dessa forma, pôde inserir em “A Noiva de Frankenstein” não apenas o seu senso de humor excêntrico e teatral, mas também uma série de idéias inovadoras que ajudaram a representar visualmente os dramas vividos pelo trágico e monstruoso protagonista. Além disso, também carregou para o filme, de forma velada, um pouco do conflito pessoa que vivia por causa de sua homossexualidade aberta.

A primeira sacada inteligente aparece logo no prólogo, quando Whale recupera a famosa história sobre a origem do livro original. Os poetas Lord Byron e Percy Shelley aparecem, em uma noite chuvosa, questionando a Mary Shelley (Elsa Lanchester) a razão da morte do monstro no fim do primeiro filme. A escritora, então, avisa que ele nunca morreu, e passa a narrar os acontecimentos após a destruição do laboratório de Victor Frankenstein (Colin Clive). A seqüência é uma forma original e ousada de metalinguagem, incluída na trama de ficção um pouco de realidade. Interessante observar, também, a caracterização andrógina e afetada dos dois poetas ingleses.

Outra idéia original foi permitir que o monstro (Boris Karloff) aprendesse a falar. Ele o faz numa das melhores cenas do filme, após encontrar um solitário violinista cego (O.P. Heggie) que vive em uma cabana isolada na floresta. Sem poder ver a aparência monstruosa da criatura, o homem não se assusta com, e assim os dois personagens alimentam, cada um, a própria carência afetiva causada pela solidão, virando bons amigos e celebrando a companhia que um faz ao outro. Ao mesmo tempo em que é comovente, a história é bem-humorada: o eremita ensina o monstro a fumar charutos e beber vinho.

Quando começar a falar, o monstro ganha também o poder de expressar melhor seus sentimentos, realçando assim a criatura trágica e de bom coração que já demonstrara ser no primeiro filme. No roteiro original, inclusive, Whale incluiu uma cena brilhante, no cemitério local, em que a criatura perseguida por uma turba enlouquecida encontra uma estátua de Jesus Cristo crucificado e se abraça a ela, pensando que a imagem é outro ser incompreendido como ele. Os censores de Hollywood eliminaram a cena, mas Whale a filmou de modo mais sutil, fazendo Frankenstein parar para tomar fôlego, durante a fuga, bem ao lado da estátua de Cristo. A imagem se sustenta por tempo suficiente para que o espectador trace sozinho o paralelo entre as duas figuras.

Também os cenários, largamente inspirados nos filmes expressionistas da Alemanha, contribuem para expressar os sentimentos do monstro. Um bom exemplo é o design da floresta para onde Frankenstein foge após sair das ruínas do moinho onde o primeiro filme havia terminado. Ao entrar no bosque, confuso, as árvores são frondosas e cheias de folhas. Quando a criatura entra lá pela segunda vez, após o encontro com o violinista, a situação dele já mudou e se tornou bem mais trágica, pois agora ele tem consciência da sua solidão e deseja encontrar uma companhia a qualquer custo; dessa vez o bosque é composto por troncos pelados, sem folhas, que enfatizam a ausênc0ia de vida e a atmosfera lúgubre.

Após tantas mudanças positivas, Whale ainda deu um jeito de incluir dois personagens antológicos. Um é o Dr. Pretorious (Ernest Thesiger), cientista louco que obriga o Dr. Frankenstein a retomar o projeto de criar vida artificial, seqüestrando sua noiva. Pretorious, excêntrico e de modos efeminados, seria inspirado no próprio Whale – dizem que, ao mostrar o nascimento de um humano (a noiva) com dois pais e nenhuma mãe. Whale queria fazer uma alusão subliminar à homossexualidade. O outro personagem histórico é a Noiva propriamente dita, interpretada pela mesma Elsa Lanchester que fez Mary Shelley no prólogo. A maquiagem evocando eletricidade e o escasso tempo em cena lhe garantiram imortalidade na memória dos fãs.

O filme foi lançado no Brasil dentro da Monsters Collection, da Universal, em uma edição caprichada. A obra conta com imagens no enquadramento original (standard 4×3) e som remasterizado (Dolby Digital 2.0), ambos de excelente qualidade. Há um comentário em áudio do historiador Scott MacQueen (legendado em português), um documentário muito bom (38 minutos, com legendas) e galeria de fotos.

– A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein, EUA, 1935)
Direção: James Whale
Elenco: Boris Karloff, Ernest Thesiger, Colin Clive, Elsa Lanchester
Duração: 75 minutos

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