Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

13/06/2004 | Categoria: Críticas

Obra-prima de Woody Allen apresenta humor auto-depreciativo de maneira alucinada e criativa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Uma comédia não pode ser mais engraçada do que “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (Annie Hall, EUA, 1977). No máximo, tão hilariante quanto. Essa deveria ser uma lei da Física, tanto quanto a afirmação de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. A verdade é que Woody Allen já fez muitos trabalhos geniais, mas esse título em particular ocupa um lugar de destaque na filmografia dele, por um motivo simples: a quantidade fenomenal de idéias boas e originais que ele conseguiu comprimir em apenas 93 minutos. É uma explosão de criatividade.

A Academia de Artes e Ciências de Hollywood soube reconhecer esse fato, dando a “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” um total de quatro Oscar, incluindo melhor filme, diretor, roteiro e atriz (Diane Keaton). A premiação ganha ainda mais importância quando se observa o histórico de troféus distribuídos pela Academia – comédia é um gênero normalmente desprezado pelos acadêmicos, ainda por cima se for tão anárquica quanto a película cometida por Woody Allen.

“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” exibe um saudável desprezo pelas regras tradicionais que rege os filmes de Hollywood. É puro experimentalismo: o filme não tem enredo e nem cronologia, saltando do futuro para o passado, interrompendo seqüências, introduzindo personagens que são rapidamente esquecidos. A grosso modo, pode-se dizer que a história consiste nos esforços desesperados do escritor Alvy Singer (Allen), um comediante judeu de Nova York, para reconquistar Annie Hall (Diane Keaton), uma cantora distraída e maluquinha.

A maneira que Allen encontrou para narrar tal romance é que responde pelo frescor do filme: quebrando todas as regras. “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” foi o primeiro filme comercial em que o protagonista virou para a câmera e começou a conversar com a platéia. E isso é apenas uma das inúmeras ousadias narrativas. Woody Allen usa seqüências desenhadas, legendas para expressar os pensamentos dos personagens, telas divididas (o efeito split screen) em que os personagens “dialogam” sem saber. A quantidade de boas idéias é simplesmente inesgotável.

Tudo isso dá ao longa-metragem um ritmo veloz e um charme refrescante. Em determinado momento, por exemplo, o casal está parado na fila de um cinema e Alvy Singer começa a reclamar do sujeito atrás dele, um tagarela com mania de intelectual (quem nunca ficou ao lado de um?). Em determinado momento, o sujeito começa a citar as teorias do filósofo e Marshall McLuhan, e aí é demais para Singer: ele sai da fila, protesta e traz o verdadeiro McLuhan para detonar os comentários do tal cara. “Você não entendeu nada do que eu escrevi”, dispara o filósofo. É de provocar gargalhadas em pedra!

O mais bacana é que a seqüência não é uma exceção, mas a regra; iguais a essa existem muitas outras. Preste atenção, por exemplo, na engraçadíssima cena em que Annie e Alvy visitam os respectivos analistas e descrevem, cada um a seu modo, uma determinada situação. Ou veja com cuidado a cena em que Singer (crescido!) viaja de volta aos tempos da escola primária para conversar com os pirralhos que lhe perseguiam quando menino. Faça isso e tente não rir.

Como era de se esperar, o filme caiu como uma bomba na modorrenta cena de comédias norte-americanas. Mostrando influência do grupo inglês Monty Python (a maneira alucinada como as piadas se atropelam umas às outras), “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” definiu a persona cinematográfica de Woody Allen – o intelectual ácido, inseguro e hipocondríaco que ama Nova York, mulheres e jazz – e criou uma fonte em que praticamente quase todos os bons diretores cômicos passaram a beber.

Se você é jovem, tente imaginar como seria o excelente “Alta Fidelidade”, por exemplo, se não existisse esse obra-prima de Woody Allen. Aliás, o filme de Stephen Frears recicla muito bem as lições do mestre do humor auto-depreciativo, mas ganharia muito mais pontos se assumisse com humildade a semelhança. Em resumo, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” é, ao mesmo tempo, cinema de primeira qualidade e um manancial de boas idéias. Alugue ou compre correndo, apesar da cópia brasileira ter apenas som Dolby Digital 1.0 e imagens arranhadas. De todo jeito, vale a pena.

– Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, EUA, 1977)
Direção: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Paul Simon, Tony Roberts
Duração: 93 minutos

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