Normais – O Filme, Os

13/04/2004 | Categoria: Críticas

Longa-metragem baseado na série de TV narra, com criatividade, dia em que Rui e Vani se conheceram

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um filme curto, eficiente e muito mais engraçado do que a segunda (e última) temporada da série de TV em que foi baseado. Essa frase resume bem o conteúdo de “Os Normais – O Filme” (Brasil, 2003), uma investida ambiciosa da Globo Filmes (braço da rede de televisão no mercado da tela grande) nos cinemas. É o tipo de filme que não quer e não vai mudar o mundo, apresenta soluções criativas para o baixo orçamento e presenteia o espectador com pouco menos de 1h30 de muitas risadas. Considerando a safra pobre de comédias, isso não é pouco.

Claro, “Os Normais – O Filme” chega para apimentar um pouco mais a discussão a respeito das diferenças entre cinema e televisão. Esse papo anda muito em moda porque, de repente, muitos produtos televisivos do Brasil encontraram um caminho rumo aos Multiplex, seguindo uma trilha aberta pelo “Auto da Compadecida”, de Guel Arraes (autor de “Lisbela e O Prisioneiro” e que, nesse caso, assina a produção). “Os Normais – O Filme” se sai bem na empreitada. É um filme de estúdio que tem cara de filme de estúdio. Simples assim. E, na medida em que se assume dessa forma sem nenhum pudor, ganha muitos pontos.

A verdade é que um comentário sobre “Os Normais – O Filme” deve ser dividido em duas partes distintas, uma dedicada à temática e outra à estética. Nesse último item, há alguns problemas que muita gente já havia detectado nos filmes de Guel, como o excesso de planos médios e closes (ou seja, personagens conversando sempre próximos à câmera, sem muita variação), edição repleta de cortes (dificilmente uma imagem permanece na tela durante mais de dois segundos), diálogos quase o tempo inteiro (o filme é uma metralhadora de frases!).

Ocorre que a estética de TV cai muito bem em “Os Normais – O Filme”, melhor inclusive do que nos trabalhos do próprio Guel. O filme tem só uma cena externa, no porto do Rio de Janeiro, e isso funciona a favor do longa porque ajuda a reproduzir direitinho o ritmo nervoso, urbano, da série em que foi baseado. Além disso, as imagens captadas em HD (vídeo digital de alta definição) estão ótimas, e até as dificuldades provocadas pelo orçamento curto são dribladas de forma criativa, como na cena em que Rui precisa despistar um carro da polícia dirigindo velozmente. Como não havia condições de recriar a cena nas ruas do Rio, o diretor José Alvarenga Jr. fez tudo numa maquete, com atores manipulando carrinhos de brinquedo. É muito bom perceber sinais de criatividade nos filmes nacionais.

O texto de Alexandre Machado e Fernanda Young também está bacana, muito melhor do que os últimos episódios da série, cancelada justamente pela repetição de clichês. Os 88 minutos narram a noite em que Rui e Vani se conheceram, na igreja, ambos casando com parceiros diferentes. Evandro Mesquita e Marisa Orth, como os dois colegas de cena, estão excelentes, assim como Luiz Fernando Guimarães. Agora, Fernanda Torres incorporou Vani, oferecendo uma daquelas interpretações sobrenaturais, que vão emprestar-lhe cacoetes para os futuros personagens pelo resto da vida.

Aliás, os atores têm grande responsabilidade na qualidade do texto, porque não o recitam em momento algum, transformando os diálogos em cenas de naturalidade rara nos filmes brasileiros. Mas não são os únicos responsáveis. Preste atenção, por exemplo, no “número musical” com legendas que divide a narrativa em dois blocos; é um dos momentos mais engraçados dos últimos anos. “Os Normais – O Filme” foi feito para comer pipoca e sair do Multiplex com a barriga doendo de rir.

– Os Normais – O Filme (Brasil, 2003)
Direção: José Alvarenga Jr.
Elenco: Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Marisa Orth, Evandro Mesquita
Duração: 88 minutos

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