Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos

10/02/2006 | Categoria: Críticas

Documentário original mota painel instigante do século XX a partir de filmes de arquivo e fotos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

É uma pena que o documentário seja um gênero tão desprezado, especialmente no Brasil. Não fosse isso, o sensacional poema cinematográfico “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos” (Brasil, 1999), de Marcelo Masagão, seria certamente lembrado por todos como um dos melhores e mais originais filmes brasileiro da década de 1990. Vencedor do Festival do Recife no ano em que foi produzido, o filme traça um painel deslumbrante do século XX, contando as histórias de famosos e anônimos através do casamento de uma trilha sonora suave e melodiosa com imagens de arquivo e fotografias.

A idéia, de lirismo comovente, é de uma simplicidade absoluta. Aliás, surpreendente é que ninguém tenha pensando antes em fazer algo parecido. O projeto de Masagão nasceu de uma idéia do autor para um CD-Rom. Ele conseguiu uma bolsa da Fundação MacArthur para criar o disco, contendo uma visão pessoal dos 100 anos mais importantes da história humana, a partir de uma pesquisa extensa em arquivos de imagens e jornais. Trabalhou três anos na idéia e, no meio da pesquisa, decidiu que estava reunindo material suficiente para um longa-metragem.

O resultado é fascinante. Toda a dinâmica do filme – que é bem ágil, ao contrário do que muitos esperam de documentários em geral – é construída a partir do choque entre três elementos: imagens, música e textos curtos. Não há palavras faladas. Através de legendas econômicas, Masagão faz comentários e dá informações, quase sempre complementando, e não apenas repetindo, aquilo que o espectador vê. A música dá o toque lírico ao resultado final, transformando o documentário numa espécie de poema visual.

Além de hercúleo trabalho de pesquisa, um dos maiores destaques do filme é a montagem esperta – ao todo, foram 2 mil horas no estúdio.,A edição lança mão de artifícios simples para gerar momentos de bom-humor e beleza ímpares, como o momento em que os dribles desconcertantes de Garrincha são colocados lado a lado aos passos de dança de Fred Astaire, criando um belíssimo momento que enfatiza o gênio humano.

Um detalhe importante é que não apenas os gênios do bem marcam presença em “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos”; os monstros do século XX também têm espaço generoso. O filme contrapõe Einstein a Hitler, Picasso a Stalin, Nijinski a Mussolini, a II Guerra Mundial à invenção do avião, a bomba atômica à psicanálise. Masagão parece querer dizer que os instintos humanos de criação e a destruição são duas faces de uma mesma moeda. Uma coisa não sobrevive sem a outra.

O cineasta também resiste à idéia de construir a história do século XX apenas com famosos. Lembra daquele poema de Bertold Brecht que enfatiza o papel dos anônimos nos grandes eventos da humanidade? Pois o diretor alinhava celebridades e anônimos, criando fictícios personagens banais e fundindo-as com eventos reais. Em um dos segmentos, por exemplo, fala sobre o magnata Gerald Ford, responsável pela difusão do automóvel, e a intercala narrando a vida (fictícia) de um dos operários que trabalhava na fábrica dele – e que jamais possuiu um carro. Tudo isso com poucas legendas e sem palavras, lembrando a todo instante que o cinema é a arte da imagem em movimento.

Produzido com a ridícula quantia de R$ 140 mil, “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos” é um filme que merece ser redescoberto por todos que gostam de um cinema original e emocionante. Em DVD, o longa-metragem não é fácil de ser encontrado – foi lançado em uma boa edição independente pelo autor. O som é Dolby Digital 2.0, e o disco traz um punhado de curtas-metragens também dirigidos por Masagão. Biscoito fino para cinéfilos.

– Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos (Brasil, 1999)
Direção: Marcelo Masagão
Documentário
Duração: 73 minutos

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