Nosferatu – O Vampiro da Noite

27/09/2006 | Categoria: Críticas

Versão de Werner Herzog para história de Drácula tem diversas seqüências inesquecíveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Nosferatu – O Vampiro da Noite” (Nosferatu: Phantom der Nacht, Alemanha, 1979) é, ao mesmo tempo, o mais acessível e ambicioso filme de Werner Herzog. Acessível porque oferece uma nova versão da mais popular história de horror do século XX, a lenda do conde Drácula. E ambicioso porque Herzog não tinha a menor intenção de produzir um filme tradicional de horror, mas um longa-metragem bem ao seu feitio: uma tragédia gótico-romântica, cheia de imagens fortes de teor onírico ou surreal, contada de forma a valorizar a atmosfera desolada. O resultado? É ótimo.

Ao decidir refilmar o famoso longa-metragem mudo de Friedrich Wilhelm Murnau (1922), o cineasta alemão não escondeu que desejava criar uma ponte entre os dois mais importantes movimentos estéticos do cinema germânico, o expressionismo (década de 1920) e o chamado Cinema Novo (anos 1970), do qual era um dos expoentes. No entanto, não foi uma refilmagem normal, pois do filme original de Murnau Herzog pouco utilizou, além do visual: o design do vampiro (baseado em um rato), o uso abundante de sombras e contrastes pesados, e também a palheta de cores frias, que Murnau conseguiu tingindo de azul a película em preto-e-branco. Em termos narrativos, o filme é bem diferente.

Aliás, é impressionante como Herzog conseguiu manter os elementos principais do conto de Drácula, incluindo os nomes dos personagens (detalhe que Murnau teve que alterar, pois não tinha autorização dos donos dos direitos autorais), e ainda assim enfiar na narrativa suas impressões digitais. O elemento mais recorrente da obra do cineasta – a luta estóica do ser humano para afirmar um lugar para si na natureza – está lá, bem claro. Toda a segunda parte do filme se dedica a mostrar a invasão dos ratos à cidade de Wismar, depois da chegada do vampiro. Herzog mostra com tintas de tragédia a fracassada batalha dos moradores para manter o controle do lugar.

Um elemento fundamental para o sucesso artístico do filme é a belíssima fotografia de Jörg Schmidt-Reitwein. Ele conseguiu unir dois estilos bem distintos e, ainda assim, manter a unidade visual do filme. Associando um cuidadoso trabalho de escolha de cores frias (priorizando azuis e verdes suaves) a uma iluminação que abusa da contraluz, iluminando os atores simultaneamente de baixo para cima e por trás, Schmidt-Reitwein compõe algumas imagens belas, desoladas, soturnas, inesquecíveis. “Nosferatu” é um filme sobretudo visual, repleto de tomadas impressionantes.

Observe, por exemplo, a fantástica tomada em que Jonathan Harker (Bruno Ganz) sobe na carruagem de vidro no desfiladeiro do Borgo, iluminado por uma incandescente luz azul. Ou veja a incrível imagem do vampiro (Klaus Kinski, cujo olhar demente cai como uma luva no papel) carregando um caixão, à beira do rio em Wismar, com a enorme sombra projetada nas mansões atrás. Isso para não falar do surreal banquete medieval em que homens e ratos compartilham a mesma mesa, ou da impressionante seqüência em que Drácula aparece pela primeira vez para Lucy (Isabelle Adjani), como uma sombra que se insinua através de um espelho.

Todo esse trabalho visual é valorizado pela trilha sonora misteriosa e dissonante do grupo Popol Vuh, colaborador habitual de Herzog. As canções, compostas com poucas notas que se sustentam indefinidamente, ajudam a construir uma atmosfera cada vez mais hipnótica, mais onírica. É a moldura perfeita para Herzog inserir sua marca registrada: imagens desoladas que registram as intervenções do homem na natureza – um navio vazio singrando um mar infinito, um homem cavalgando uma planície deserta com nuvens de tempestade se formando logo acima. “Nosferatu” possui uma coleção impecável de imagens belas.

Quanto à história, Herzog usa poucos diálogos, preferindo construir uma dinâmica diferente na construção dos personagens tão familiares aos fãs de horror. Jonathan e Lucy, por exemplo, são mostrados como um casal em crise (“essa viagem vai me fazer bem”, observa ele, quando informado que terá que ir à Romênia), e o aparecimento do vampiro não ajuda em nada a uni-los. Drácula, por sua vez, está longe da figura glamourosa, cheia de charme e energia sexual, que Hollywood acostumou a vender; é uma sombra pálida e repulsiva, um morto-vivo, alguém que considera a imortalidade uma maldição (ele é “o Senhor dos Ratos”, como afirma um personagem).

Mas o melhor exemplo das mudanças sutis é a maneira como Herzog mostra Van Helsing (Walter Ladengast). O outrora implacável caçador de vampiros não passa de um burocrata, um inofensivo homem de meia-idade que até desconfia da natureza demoníaca de Drácula, mas afirma não poder fazer nada sem uma investigação cuidadosa ou ordens superiores – e Herzog providencia um destino sarcasticamente impagável para o personagem. “Nosferatu” é um filme lento em demasia para os padrões do cinema norte-americano, mas casa com perfeição o horror gótico-romântico da história maior do vampirismo com o olhar pessimista que Herzog lança à condição humana.

O DVD da Versátil é baseado no lançamento norte-americano da Anchor Bay. A qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 letterboxed) e som (Dolby Digital 5.1, em alemão) é excelente. Há um curto documentário (13 minutos) sobre os bastidores, e um bom comentário em áudio do diretor (legendado em português). Ficou faltando apenas a versão falada em inglês, filmada simultaneamente e presente em um segundo disco da edição norte-americana. Mas é uma ausência menor, já que só foi produzida por razões comerciais e repete literalmente tudo, inclusive diálogos e enquadramentos, da versão alemã.

– Nosferatu – O Vampiro da Noite (Nosferatu: Phantom der Nacht, Alemanha, 1979)
Direção: Werner Herzog
Elenco: Klaus Kinski, Isabelle Adjani, Bruno Ganz, Roland Topor
Duração: 107 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »