Notícias de uma Guerra Particular

27/11/2005 | Categoria: Críticas

Documentário premiado desvenda questão do tráfico no Rio em DVD duplo de ótima qualidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A resistência do espectador comum ao documentário como gênero cinematográfico tem privado o público brasileiro de ver, em lojas e locadoras de vídeo, marcos importantes do cinema nacional. Foi por causa dessa falta de mercado consumidor que o seminal “Notícias de uma Guerra Particular” (Brasil, 1999), primeira e mais importante radiografia profunda da questão do tráfico de drogas e armas no Rio de Janeiro, levou seis anos para ganhar a rua. De qualquer forma, a contundência dos depoimentos e a discussão franca, aberta e sem maniqueísmos continuam a fazer do média-metragem um dos melhores títulos brasileiros dos últimos anos.

Trata-se, na verdade, de um filme referencial, desses que impõem modificações ao próprio tratamento do tema a que se filia. O filme de João Moreira Salles e Kátia Lund (que, graças a esse filme, seria co-diretora de “Cidade de Deus” pouco depois) traça um painel do problema do tráfico nas favelas cariocas enfocando o problema com uma abordagem original: o tráfico seria uma espécie diferente de guerra urbana, travada entre policiais e traficantes, tendo no meio do fogo cruzado os moradores mais humilde e socialmente excluídos. Os dois cineastas levaram dois anos (1997 e 98) garimpando depoimentos dos três lados e editando-os, sem preferências ou tomadas de posição.

Desse esforço ímpar de ouvir todos os lados da questão de maneira eqüidistante, emergem alguns depoimentos impressionantes, como o de um menino de 10 anos, “soldado” de traficantes do morro Dona Marta, que empilha com naturalidade uma porção de armas pesadas – inclusive um lança-granadas – de uso proibido pela população civil, demonstrando conhecer de cor os modelos, a origem de fabricação e o calibre de cada uma delas, inclusive enumerando detalhes técnicos que passariam despercebidos até a especialistas no assunto.

Outras entrevistas de destaque vêm do capitão Rodrigo Pimentel, jovem e experiente policial militar, que faz o raciocínio sobre a “guerra particular” cujo conceito inspirou o título do filme, e do chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro na época do documentário, Hélio Luz. Com uma franqueza desconcertante, o delegado explica sua tese: a Polícia no Brasil foi feita para ser corrupta e violenta, e não muda porque a elite não deseja mesmo a mudança. “A Polícia foi construída para proteger a elite da multidão de excluídos que vive nos morros, e cumpre essa função com eficiência”, afirma, com o semblante melancólico e desiludido de quem, três meses depois, pediria demissão e sairia da força policial para sempre.

A importância de “Notícias de uma Guerra Particular” vai além do seu mérito cinematográfico, pois comprova que um filme, a rigor uma simples peça de entretenimento, pode extrapolar essa condição e se transformar em item educacional de caráter quase obrigatório. Ao entrar de peito aberto nas favelas e dar voz aos traficantes, às crianças exploradas pelo tráfico, aos moradores que convivem diariamente com a morte, os dois diretores estavam entrando em um território virgem, espécie de Brasil ainda não desbravado pelas forças oficiais ou pelos meios de comunicação.

Na verdade, “Notícias de uma Guerra Particular” abriu a porteira para obras como o livro “Abusado”, de Caco Barcellos, ou o excelente documentário “Ônibus 174”, que aprofundou ainda mais a discussão do tema. Sem o filme de Moreira Salles e Lund, talvez a compreensão do problema do tráfico no Brasil não fosse tão ampla e profunda. Esse mérito inclusive empalidece pequenos problemas estéticos ou técnicos (a trilha sonora repetitiva e às vezes melodramática, a captação deficiente de áudio que deixa certos trechos quase incompreensíveis) que o filme enfrenta e vence sem problemas.

O premiado documentário abre uma coleção da VideoFilmes dedicada a edições especiais de filmes importantes. O disco é duplo e inclui extras saborosos, como um documentário do mestre Eduardo Coutinho na íntegra (“Santa Marta, Duas Semana no Morro”, de 1987, com 56 minutos) e uma faixa de comentário em áudio reunindo os dois diretores, mais Coutinho e Carlos Alberto Mattos. Esses extras estão no disco 1.

No segundo CD, estão as íntegras das entrevistas concedidas por oito personagens, incluindo o então chefe da Polícia Civil do Rio, Hélio Luz, traficantes, ex-chefões do Comando Vermelho e o escritor Paulo Lins (de “Cidade de Deus”). As entrevistas duram entre 15 e 50 minutos cada. O filme, que está no disco 1, tem som Dolby Digital 2.0, formato de tela fullscreen (4×3) e legendas em inglês, francês e espanhol.

– Notícias de uma Guerra Particular (Brasil, 1999)
Direção: João Moreira Salles e Kátia Lund
Documentário
Duração: 57 minutos

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