Nove Rainhas

29/11/2004 | Categoria: Críticas

Excelente thriller policial argentino cativa pela trama inteligente e pelos bons atores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Filmes sobre ladrões golpistas charmosos e bem vestidos já são populares há muito tempo. Hollywood, em particular, constrói enredos com personagens assim desde meados do século XX. Nenhuma psicologia barata seria capaz de explicar o fascínio que os bandidos chiques têm sobre os cinéfilos em geral, mas isso é fato. Um fato que fica mais evidente quando se vê o excelente filme argentino “Nove Rainhas” (Nueve Reinas, Argentina, 2000). O longa-metragem já foi descrito como a obra que o dramaturgo e cineasta David Mamet tenta fazer há anos, sem sucesso. Exagero, mas não há dúvida de que “Nove Rainhas” é entretenimento cinematográfico de primeira qualidade.

O filme começa com um homem fumando, nervoso, na entrada da loja de conveniência de um posto de gasolina, em Buenos Aires. Juan (Gastón Pauls) entra e dá um golpe na atendente, faturando 45 pesos com um papo fascinante. O golpe parece tão fácil que Juan espera alguns momentos e tenta repeti-lo, com outra atendente. Aí acaba a sorte: o golpe é descoberto. Do nada, surge Marcos (Ricardo Darín), homem que lanchava na local. Ele se identifica como policial e toma a iniciativa de levar Juan para a delegacia local. Logo depois de sair do lugar, porém, Marcos cai na gargalhada. Que policial, que nada; ele não passa de outro golpista, só um pouco mais experiente.

Marcos libera Juan com uma proposta: que tal se tornar sócios por um dia? Juan hesita, mas topa. Ele precisa urgentemente levantar 70 mil pesos, em 10 dias, para pagar uma dívida do pai. Os trapaceiros começam, então, a aplicar um golpe aqui, outro ali. Até que Marcos recebe uma ligação da irmã, Valeria (Leticia Brédice). Ela trabalha como atendente em um hotel cinco estrelas e foi abordada por um antigo sócio do irmão golpista. O sujeito passou mal no lobby do hotel e mandou chamar Marcos. Quer, na verdade, que o antigo parceiro conclua um negócio incrível. Marcos precisa abordar um milionário espanhol hospedado lá, Vidal Gandolfo (Ignasi Abadal), e lhe vender uma versão falsificada de um raro selo produzido na Alemanha, uma cartela com as “Nove Rainhas” do título.

“Nove Rainhas”, o filme, é por si só um fascinante golpe no espectador. Durante os 114 minutos de projeção, uma série de perguntas martela a cabeça da platéia: será que a dupla vai conseguir superar as dificuldades e fechar o negócio? Juan terá a chance de pagar a dívida do pai? E, mais importante de tudo, Marcos vai tentar dar um golpe do colega? O excelente roteiro de Fábián Bielinsky brinca com essas perguntas o tempo todo, construindo uma trama de suspense original, diferente, que realmente lembra os bons filmes de David Mamet, como o ótimo “O Assalto”.

De certa forma, a existência de “Nove Rainhas” já é um pequeno milagre. Trata-se da estréia do diretor em longas-metragens, e só foi produzido porque venceu um concurso de roteiros na Argentina, promovido pela Fox. O dinheiro levantado pagou uma produção barata, que funciona muito bem. Bielinsky soube tirar proveito da situação caótica vivida pelo país portenho, na época das filmagens, incluindo no filme ate mesmo situações que aludem aos problemas financeiros (inflação galopante, bancos quebrados) enfrentados pela Argentina. Alem disso, conta com um show particular do ator Ricardo Darín, completamente à vontade no papel do vigarista Marcos.

Assim como alguns dos “primos” recentes produzidos nos EUA, a exemplo do ótimo policial “Onze Homens e Um Segredo”, de Steven Soderbergh, “Nove Rainhas” é puro entretenimento, ancorado em uma história original e inteligente. Esqueça a psicologia dos personagens, a técnica usada na produção, movimentos de câmera, efeitos especiais e outros badulaques cinematográficos. “Nove Rainhas” ancora sua existência no único pré-requisito realmente obrigatório para se fazer bom cinema – um roteiro forte, bem amarrado e ágil. Filmes assim, que unem alta concentração de divertimento com massa cinzenta, são bem raros. Vale a pena até mesmo importar o DVD (sem extras) da Argentina ou dos EUA, pois ele ainda não foi lançado no Brasil.

Como nota de rodapé, pode-se lembrar ainda que “Nove Rainhas” chegou a fazer uma carreira razoável no circuito alternativo dos EUA, faturando mais de US$ 1 milhão e chamando a atenção do próprio Steven Soderbergh, que comprou os direitos de filmagem e mandou produzir uma refilmagem, chamada “Criminal”. O “golpe” de Fábián Bielinsky realmente funcionou, não?

– Nove Rainhas (Nueve Reinas, Argentina, 2000)
Direção: Fábián Bielinsky
Elenco: Ricardo Darín, Gastón Pauls, Leticia Brédice, Ignasi Abadal
Duração: 114 minutos

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