Novo Mundo, O

14/08/2006 | Categoria: Críticas

Terrence Malick narra a história mítica da índia Pocahontas em filme impregnado de uma melancólica visão de mundo hippie

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Quando o recluso cineasta Terrence Malick anunciou, em 2004, que pretendia levar às telas uma ficcionalização da vida da mítica índia Pocahontas, a notícias foi recebida com certo desânimo. É compreensível, pois parecida um desatino típico de um ermitão. Como era possível que um diretor do calibre de Malick, tendo filmado apenas três vezes em 30 anos, resolvia fazer um quarto e esperadíssimo longa-metragem justamente sobre um mito romântico um tanto bobo e amplamente conhecido? Muita gente torceu o nariz. O fato é que, à parte a ficção que o mundo conhece a respeito da bela índia, “O Novo Mundo” (The New World, EUA, 2005) é mesmo um projeto talhado para Terrence Malick.

A tarefa de que o cineasta se incumbiu é relativamente simples: arrancar da história de Pocahontas toda a casca fictícia e romântica que o tempo se encarregou de agregar a ela. Despir o mito. Narrar os fatos como eles realmente aconteceram. Considerando que o diretor é um especialista inegável em filmar histórias sobre o lugar do homem na natureza (vide a obra-prima “Dias de Paraíso”, de 1978) e que também possui experiência em ficcionalizar fatos reais de maneira realista (o que fez soberbamente em “Terra de Ninguém”, de 1973), “O Novo Mundo” encaixa perfeitamente na filmografia de Malick, pois faz as duas coisas. E se não chega ao nível de excelência desses dois momentos antológicos do cinema norte-americano dos anos 1970, mostra que Malick é um sujeito de integridade, e que a reclusão voluntária a que se submeteu – não dá entrevistas e nem se deixa fotografar – serviu para manter intacta sua visão de mundo.

Se é bom ou ruim o fato de alguém manter uma ideologia congelada após 30 anos, fica a cargo de cada leitor decidir. Uma coisa é certa: “O Novo Mundo” reflete perfeitamente o estado de espírito de Terrence Malick diante do modo como ele vê a humanidade. Trata-se de um estado de permanente melancolia, um sentimento de tristeza por acreditar irremediável o divórcio entre civilização e natureza. De fato, toda a obra de Malick, se bem observada, gira em torno de um único tema, que é a luta do homem para encontrar seu lugar no mundo. Uma luta perdida de antemão, já que a própria existência do homem pressupõe a criação de uma cultura com regras sociais que o obrigam a domar os instintos, algo que o condena a uma sensação permanente de melancolia, já que no processo ele acaba perdendo uma parte fundamental de si.

Malick narra a história da Pocahontas (Q’Orianka Kilcher, estreando no cinema) com distanciamento, perseguindo um realismo virtualmente impossível. Afinal, pouco se sabe sobre os detalhes da história da índia que casou com um aristocrata inglês – o primeiro casamento entre um nativo dos EUA e um colonizador registrado pelos livros de História – e virou atração da corte na Inglaterra do século XVII. Malick teve que preencher as muitas lacunas com ficção da própria lavra. Ele escreveu o roteiro e, como já havia feito em “Além da Linha Vermelha” (1999), usou o prestigio pessoal para convocar uma lista invejável de bons atores, incluindo Colin Farrell, Christopher Plummer, Christian Bale e, em papéis de menor destaque, David Thewlis e Ben Chaplin.

A narrativa que emerge em “O Novo Mundo” é, essencialmente, a história de um amor impossível, um “Romeu e Julieta” na selva. Malick não se afasta tanto assim do mito, embora mantenha distância segura dele. No filme, por exemplo, os fatos mais conhecido da jornada da índia norte-americana são apresentados como verdadeiros – filha do chefe dos nativos da Virgínia, onde os ingleses se estabelecem, ela teria salvado o aventureiro John Smith (Farrel) da morte nas mãos dos índios e provido a colônia inglesa com comida nos momentos mais difíceis. Por outro lado, a beldade de olhos castanhos jamais é chamada, por nenhum personagem, pela palavra Pocahontas, uma expressão que só se popularizou muitos anos depois da morte da garota, ocorrida em 1617.

A tese básica do filme, que percorre toda a obra de Terrence Malick, remete ao mito do bom selvagem de Rousseau. O cineasta, como o filósofo francês, vê a civilização como fator corruptor do espírito original ser humano. Este é um processo que se dá de forma lenta e quase imperceptível: aos poucos, ao adquirir cultura e educação, os homens vão aprendendo progressivamente a domar os instintos. Malick agrega um dado novo à equação, admitindo que o último degrau nesse processo de aculturação é o amor, e que quando um selvagem consegue fazê-lo, significa que está completamente adaptado à civilização.

O modo como a nativa americana lida com esse sentimento vai mudando lenta e firmemente durante o filme e, em última instância, acaba determinando suas atitudes. É isso: para Malick, a civilização faz as pessoas melancólicas porque, para viver em sociedade, elas precisam eliminar os instintos, algo fundamental para que haja alegria no viver. Quando perdem isso, as pessoas perdem também algo intangível e essencial. A transformação da índia alegre e jovial do início do filme em uma mulher feliz, mas sisuda, é um exemplo perfeito da teoria. Se Pocahontas inicia “O Novo Mundo” gargalhando, termina sorrindo. E a diferença é considerável.

Malick filma a história idílica com um falso despojamento que é quase uma marca registrada. A trilha sonora de James Horner, evocativa embora não especialmente cativante, acompanha obsessivamente os personagens do triângulo amoroso que o filme constrói – além de Pocahontas e John Smith, há ainda John Rolfe (Christian Bale) – e a fotografia do craque Emmanuel Lubezki (“A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”) explora as paisagens utilizando apenas a luz natural, o que dá ao todo um tom mais realista do que aquele visto, por exemplo, em “Dias de Paraíso”. O ritmo do filme é lento, contemplativo, quase preguiçoso, algo vital para as intenções de Malick mas que dificulta o envolvimento emocional da platéia na história. Não há uma única seqüência de ação. “O Novo Mundo” é um filme feito para adultos.

Do ponto de vista narrativo, o longa-metragem padece de certa falta de foco, algo visível principalmente pelo uso simultâneo de três narrações em off. Cada vértice do triângulo amoroso narra um pedaço da ação, com abundância de trechos poéticos e não-narrativos, incluindo comentários filosóficos, orações e poesias. “O Novo Mundo” passa a sensação geral de um filme hippie meio deslocado, feito fora de sua época.

Esse dado pode explicar inclusive o fracasso retumbante de bilheteria, já que o longa-metragem fez apenas US$ 12 milhões nos EUA, depois de ter custado o triplo disso. O mercado externo, Brasil incluído, também não é muito favorável, até porque a história evoca uma mitologia tipicamente norte-americana, de interesse limitado fora do país. Uma pena, já que o filme, apesar de não ser obra-prima, tem algo a dizer.

A PlayArte pôs no mercado nacional um DVD simples e eficiente. A falta de extras é compensada pelo bom tratamento recebido pelo filme, com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico) e som OK (Dolby Digital 5.1).

– O Novo Mundo (The New World, EUA, 2005)
Direção: Terrence Malick
Elenco: Q’Orianka Kilcher, Colin Farrel, Christian Bale, Christopher Plummer
Duração: 135 minutos

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