Número 23

19/07/2007 | Categoria: Críticas

Thriller de suspense gótico de Joel Schumacher decepciona com excesso de estilo e história cheia de furos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O conceito mais importante do thriller de suspense gótico “Número 23” (Number 23, EUA, 2007), sobre o qual se ergue toda a trama, não é novo. Está presente, por exemplo, na parte final do livro “Contato”, de Carl Sagan (um trecho que não existe no filme de mesmo nome dirigido por Robert Zemeckis), e principalmente no paranóico “Pi”, estréia independente de Darren Aronofsky, em 1998. Nos dois casos, a comparação é extremamente desfavorável ao trabalho de Joel Schumacher. O longa-metragem é a encarnação extrema de um mal que vem se tornando cada vez mais comum em Hollywood: excesso de estilo visual, em contrapartida à ausência de lógica narrativa.

A história gira em torno de um pacato funcionário da carrocinha, Walter Sparrow (Jim Carrey), e é narrada em flashback. Logo no começo, ele nos informa, via narração em off, que sua situação é desesperadora. Os problemas teriam começado por causa de um simples cão. Certo dia, o aparecimento do animal fez com que Walter saísse atrasado do trabalho e perdesse a hora em um encontro com a esposa (Virginia Madsen). Ociosa, ele entrou numa livraria e comprou um estranho livro de capa vermelha para o marido. O volume, datilografado, versava sobre uma suposta maldição envolvendo o número 23 (coisas assim: some os algaritmos da data 11/09/2001 e terá 11+9+2+1=23). Mesmo sem ser matemático, Walter começa a fazer as contas e observa que o tal algarismo parece ter conexão direta com diversos fatos de sua própria vida.

Pior: aos poucos, ele percebe que os detalhes presentes no livro, claramente escrito por algum esquizofrênico com mania de perseguição, apresentam uma série de incríveis semelhanças com a história pessoal dele, Walter. Assim, não demora muito para que ele comece a dar uma de detetive amador, mergulhando em uma obsessiva investigação sobre fatos do passado, inclusive o desaparecimento de uma bela estudante da universidade local, 13 anos antes. É o pretexto para que o diretor Joel Schumacher realize uma sombria fantasia metalingüística neo-noir, gótica e pop, com os atores interpretando duas histórias paralelas, uma real (a investigação de Walter) e outra ficcional (os fatos sangrentos narrados no tal livro misterioso).

Visto com certa desconfiança por cinéfilos antenados devido à veia carnavalesca que sempre teve dificuldades em domar (vide “Batman & Robin”, de 1997, talvez o filme de super-heróis mais odiado de todos), Schumacher sempre equilibrou projetos irregulares (“Oito Milímetros”) com filmes menores e mais eficientes (“Por um Fio”). Este aqui chega para desequilibrar a balança. Além de flertar com uma idéia reciclada, que Darren Aronofsky soube desenvolver de forma muito mais coesa e inteligente, Schumacher colocou na receita um tratamento visual explosivo, histérico, escandaloso mesmo, à base de cortes estroboscópicos, iluminação hiper-estilizada de contrastes fortíssimos (certas cenas parecem iluminadas com mil lâmpadas fluorescentes, enquanto outras parecem não serem iluminadas de forma alguma) e uma direção de arte completamente equivocada.

Os ambientes – um quarto de hotel de terceira categoria, um cemitério, um sótão empoeirado – são tão exageradamente decorados que passam a impressão de terem sido montados, por Joãozinho Trinta, para um desfile no Sambódromo do Rio de Janeiro. Para piorar tudo, o diretor de fotografia Matthew Libatique (curiosamente o mesmo profissional que fotografou “Pi”) insiste em começar quase todas as cenas com imagens que vão gradualmente ganhando foco, um detalhe excessivo que contribui ainda mais para reforçar a impressão de estilização gótica em excesso. Na verdade, nem seria preciso ver o filme em si para que isto ficasse claro, pois a própria seqüência de créditos já exemplifica o tipo de estética escolhida por Schumacher. Ela usa máquina datilográfica, papel vegetal e tinta nanquim preta para associar o número 23 a grandes tragédias da humanidade, em montagem típica de videoclipe.

Obviamente, uma boa trama de suspense poderia redimir Joel Schumacher e deixar o longa-metragem pelo menos em um nível narrativo decente. Infelizmente, não é o que acontece. O cineasta leva 70 minutos se esmerando para confundir a cabeça do pobre espectador, e então utiliza um dos maiores clichês dos thrillers de suspense – a reviravolta contendo um segredo – para dar uma guinada radical na história. Ocorre que a tal reviravolta é absolutamente previsível, desde o início, e a partir dela o espectador ganha uma interminável seqüência de 20 minutos em que Schumacher volta ao início para explicar o filme tintim por tintim, como se a platéia fosse formada por pessoas que entraram na sessão depois que ela tivesse começado.

A longa seqüência de exposição não é apenas tediosa, mas também acaba deixando ainda mais evidentes os furos e a ausência de lógica interna no roteiro do iniciante Fernley Phillips. Aí vão algumas questões para você, que viu o filme, refletir sobre: por que a polícia não investigou o quarto de hotel com as inscrições na parede? Aliás, qual a razão que os donos do hotel teriam para cobrir todo o quarto com papel-parede, se eles nada tinham a temer? Qual a ligação entre o cachorro, Walter e a garota desaparecida? E, finalmente, existe ou não uma natureza sobrenatural no número 23?

O DVD da Playarte traz apenas o filme. A qualidade de imagem (widescreen) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– Número 23 (Number 23, EUA, 2007)
Direção: Joel Schumacher
Elenco: Jim Carrey, Virginia Madsen, Danny Huston, Lynn Collins
Duração: 95 minutos

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