O Que Você Faria?

29/10/2007 | Categoria: Críticas

Todo fechado em um só cenário, tenso e inteligente, filme é bem-humorado libelo anti-globalização

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Cenário mais simples e direto do que aquele apresentado em “O que Você Faria?” (El Método, Argentina/França/Itália, 2005) não existe. A comédia do diretor argentino Marcelo Piñeyro reúne sete personagens e os mantém trancados dentro de uma sala de reuniões durante duas horas. Todos participam de um processo de seleção que dará vaga de executivo em uma empresa multinacional a apenas um. Do lado de fora, uma passeata anti-globalização. Dentro, uma espécie de reality show cheio de tensão e desconfiança, com cada candidato dando vazão aos piores instintos, na tentativa de se agarrar ao emprego salvador.

A origem do curioso filme de Piñeyro é uma peça teatral escrita pelo espanhol Mateo Gil. A trama reproduz a atmosfera claustrofóbica do clássico “Doze Homens e uma Sentença” (1957), só que acrescida de uma atmosfera à Agatha Christie, só que sem os assassinatos. De fato, o tema inverte com perspicácia a tensão dramática do filme de 1957. No longa de Sidney Lumet, os personagens apresentavam opiniões divergentes e debatiam longamente, ao longo da trama, até obterem concordância total. Aqui ocorre o oposto: a disputa disfarçada de cordialidade que os candidatos ao emprego exibem no início vai, aos poucos, assumindo a postura de guerra aberta.

Ao entrarem na sala de reuniões, os sete pré-escolhidos não sabem nada sobre o processo de seleção. O tempo passa, ninguém da empresa e, aos poucos, eles vão percebendo que a seleção já está em andamento, através de uma espécie de jogo. Alguém que está fora da sala começa a enviar instruções individuais, através de monitores de computador colocados em frente a cada um. Como não conhecem os critérios, os candidatos logo estão imersos em dúvidas. Mentir, desconfiar e trapacear pode fazer parte do jogo, mas será que os avaliadores gostariam que eles fizessem isso? Não é melhor ser sincero o tempo inteiro, mesmo que tal procedimento pareça uma desvantagem? E se um deles for um espião infiltrado, o que fazer?

Como se pode perceber, não é coincidência que o roteiro do longa-metragem estabeleça que, do lado de fora da sala, a passeata transformou o trânsito de Madri em caos. Nós nunca vemos uma imagem sequer deste protesto, porque ele está lá apenas para inserir a trama, inteligente e bem conduzida, dentro de um contexto político. Sim, “O que Você Faria?” é uma obra engajada, que usa a ironia e o humor depreciativo para alfinetar a impessoalidade do sistema capitalista. Não é um filme que defende um sistema de governo ou coisa que o valha, mas “O Que Você Faria?” exibe claramente uma postura moral diante do que vê. E a direção segura de Piñeyro (“Plata Quemada”) mantém acesa a atenção do espectador até o fim, surpresa atrás de surpresa. Fique ligado até os últimos segundos de projeção porque, como na vida, a direção do vento pode mudar a qualquer instante.

O DVD nacional, da Neo Max, não contém extras. A qualidade de imagem é OK (widescreen letterboxed) e a do áudio, razoável (Dolby Digital 2.0).

– O Que Você Faria? (El Método, Argentina/França/Itália, 2005)
Direção: Marcelo Piñeyro
Elenco: Eduardo Noriega, Najwa Nimri, Eduard Fernández, Pablo Echarri
Duração: 115 minutos

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