Obrigado por Fumar

13/02/2007 | Categoria: Críticas

Sátira de Jason Roitman é ágil, inteligente e não tem medo de parecer politicamente incorreta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Sátiras são um terreno perigoso para uma estréia cinematográfica, e isso faz com que o trabalho do diretor e roteirista novato Jason Reitman em “Obrigado por Fumar” (Thank You for Smoking, EUA, 2005) seja ainda mais interessante. O filme, uma comédia ágil, cheia de nonsense e sem o menor receito de parecer politicamente incorreta, é ambicioso, pois investe em vários alvos simultâneos – a indústria do tabaco, Hollywood, o poder da palavra – e acerta todos. Ao contrário do que pode parecer, não é contra e nem a favor do cigarro, e defensores dos dois lados vão tanto dar risadas quanto ficar irritados com os argumentos cínicos e inteligentes que pontuam todo o longa-metragem.

Aliás, o verbo que melhor define a produção de Jason Reitman é justamente “argumentar”. Este é o tema do filme e o trabalho de Nick Naylor (Aaron Eckhart), o protagonista. Ele se define com um slogan que mais parece campanha publicitária de qualquer coisa: “Michael Jordan joga basquete. Charles Manson mata pessoas. Eu falo”. É verdade. Fala muito, e bem. E interpreta melhor ainda. Consegue ser frio ou caloroso, humilde ou audacioso, suave ou bombástico, dependendo da situação. Nick Naylor usa as palavras como arma. Ele explica a seu filho Joey (Cameron Bright) que sua profissão consiste em saber argumentar. “Se você argumenta corretamente, você nunca está errado”.

Nick Naylor tem um emprego em que poucas pessoas no mundo ficariam confortáveis: é o porta-voz do instituto de saúde criado pelas indústrias de cigarro para realizar pesquisas sobre o fumo. Na prática, Naylor funciona como o principal lobista e defensor dessas empresas. É o cara que comparece a debates de televisão sobre o cigarro, aperta a mão do adolescente que está morrendo com câncer de pulmão, e diz ao público, emocionado, que as indústria do cigarro não têm nenhum interesse em provocar danos à saúde do rapaz, pois estão, na verdade, perdendo um cliente.

Naylor sabe que é preciso de muita flexibilidade moral para exercer a profissão, mas firmeza ética não faz parte do seu talento natural. O talento dele é falar, não precisa fazer nenhum esforço para isso, e seus argumentos têm a destreza com que Ronaldinho Gaúcho cobra uma falta. O lobista não liga para as conseqüências do que diz. Nos horários de folga, ele se reúne para beber e bater papo com os dois colegas que desempenham a função correspondente em outras duas indústrias letais, a de bebida (Maria Bello) e a de armas (David Koechner). O trio se auto-intitula “Mercadores da Morte” e é responsável por algumas das melhores cenas de “Obrigado por Fumar”, como aquela em que comparam as estatísticas de mortes provocadas pelas respectivas indústrias para as quais trabalham.

Jason Roitman fez um excelente trabalho como roteirista, criando um filme com a estrutura clássica do melodrama (isso inclui até mesmo uma ligeira redenção moral no terceiro ato), mas preenchendo-a com doses generosas de cinismo e incorreção política. Os diálogos curtos e incisivos são pontuados de feroz energia criativa (“os EUA têm o melhor governo do mundo por causa do seu sistema de apelações infinito”), e muitas vezes parecem funcionar como slogans publicitários. O brasileiro “Cidade de Deus” usou estratégia semelhante e se deu bem. A atmosfera aqui é a mesma, trocando-se apenas a favela violenta pela guerra surda nos bastidores da indústria do tabaco.

Há montes de personagens brilhantes. Rob Lowe retocado de Botox, tem um papel curto, e memorável como o agente de estrelas em Hollywood que pede US$ 25 milhões para que Brad Pitt e Catherine Zeta-Jones fumem no espaço sideral, em uma ficção científica futurista (“É a fronteira final, Nick!”). Robert Duvall nem precisa levantar da cadeira para fazer o chefão das fábricas de cigarro que amaldiçoa o ano de 1952, momento em que uma reportagem da popular revista Reader’s Digest mostrou o cigarro como vilão pela primeira vez. William H. Macy trabalhou apenas por um dia para gravar sua parte como o senador Ortolan Finistirre (nome sensacional, aliás), um ardoroso combatente do cigarro e defensor de queijo cheddar. Há muitos outros como eles.

Algumas pessoas podem achar que o filme perde força criativa quando enfoca a vida familiar de Nick, um sujeito divorciado que tenta melhorar a relação com o filho adolescente (Cameron Bright). É possível entender isso. Joey Naylor, o garoto, representa o comportado melodrama se insinuando dentro de uma comédia arisca e rebelde, politicamente incorreta, que por vezes lembra os melhores momentos do grupo Monty Python. Mas ele tem um papel importante dentro da trajetória de Nick Naylor, e encaixa corretamente dentro do filme.

Se há algo que atrapalha “Obrigado por Fumar”, é um certo excesso de estilo nos truques usados para acelerar o ritmo – split screen (tela dividida em duas ações), freeze frames (telas congeladas com um narrador falando sobre a cena em questão), narração bem-humorada em off que de vez em quando se torna intrusiva e interrompe a ação em intervalos longos demais. Mas são defeitos menores, facilmente perdoáveis. No geral, “Obrigado por Fumar” é uma grata surpresa. Mesmo para quem notar que ninguém, nem um único figurante, é visto com um cigarro aceso durante os 92 minutos de projeção. Talvez seja uma ironia fina. Ou talvez seja um elemento politicamente correto disfarçado, dentro de um filme que parece ser mais rebelde do que é de fato. De todo modo, funciona.

O DVD da Fox não tem extras, mas a qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– Obrigado por Fumar (Thank You for Smoking, EUA, 2005)
Direção: Jason Reitman
Elenco: Aaron Eckhart, Katie Holmes, William H. Macy, Maria Bello
Duração: 92 minutos

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