Oito e Meio

08/07/2004 | Categoria: Críticas

Fellini mistura sonho e realidade em filme que reflete a angústia de um bloqueio criativo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Oito e Meio” (8 ½, Itália/França, 1963) permanece, desde o lançamento, como um dos filmes favoritos de cineastas e estudiosos da Sétima Arte. Muitos espectadores comuns, por outro lado, têm implicância com o filme; o acham frio, incompreensível, confuso, lento. De certa forma, “Oito e Meio” reflete o divórcio entre as opiniões de crítica e público que, justo a partir da década de 1960, começou a ser irremediavelmente ampliado. O longa-metragem está disponível em DVD no Brasil em uma excelente edição restaurada da distribuidora Versátil.

Antes de analisar as imagens geradas por Fellini, é preciso examinar as condições históricas em que “Oito e Meio” apareceu. O filme foi o segundo realizado pelo cineasta italiano a partir do ponto de ruptura fundamental de sua carreira. Até o fim dos anos 1950, Fellini era um representante exemplar da principal escola de cinema nascida na Itália, o neo-realismo; a obra máxima desse período é “Noites de Cabíria”. Os diretores da escola (Roberto Rossellini, Luchino Visconti) pregavam que o cineasta devia registrar a realidade de maneira fiel, com o mínimo possível de intervenção estética.

A partir de “A Doce Vida” (1961), Fellini começou progressivamente a abandonar essas regras rígidas. Cada vez mais interessado no processo fragmentado de construção de idéias a partir do subconsciente, com ênfase especial nas memórias de infância, Fellini passou a despreza a narrativa. Fez isso passando a incluir seqüências oníricas e imagens nostálgicas sem ligação aparente com os enredos. Eventualmente, os filmes dele acabariam por se transformar em puros disparates alucinatórios (“Cidade das Mulheres”, de 1980). Na época de “Oito e Meio”, Fellini ainda não tinha ido tão longe. Mas já desafiava as regras clássicas da narrativa do cinema.

Em “Oito e Meio”, ele transformou em filme um bloqueio criativo verdadeiro, que vivia na ocasião. Em outras palavras, Fellini criou o que muitos artistas fazem em momentos de desespero profissional: uma obra de arte que reflete a angústia do criador, num momento em que não se sente capaz de criar um trabalho decente. Guido (Marcelo Mastroianni) é o alter ego do cineasta. Ele se esconde, dos atores e da equipe técnica, atrás de um par de óculos escuros. Prestes a filmar um épico de ficção científica, Guido não sabe mais que rumo tomar no filme, e parece francamente desinteressado em fazê-lo. Ainda por cima, vê a vida pessoal – mulher (Ainou Aimée) e amante (Sandra Milo) cruzam uma com a outra nas ruas da cidade onde filme – atropelar o trabalho.

Um dado interessante: a última pesquisa que a influente revista britânica Sight & Sound realizou sobre os maiores filmes de todos os tempos, em 2002, apontou “Oito e Meio” na nona posição. Mas, quando computados apenas os votos de cineastas, o filme de Fellini sobe para terceiro, contando com votos de gente de prestígio, como John Boorman, John Waters e Theo Angelepoulos. A mensagem é clara: “Oito e Meio” é um filme que os diretores adoram, porque reflete as dúvidas, as tensões, as angústias de fazer cinema – reflete, em última instância, as desordens internas do artista.

Se o espectador comum rejeita “Oito e Meio”, o faz por ser obrigado por Fellini a assimilar um ritmo e uma narrativa completamente exóticos. A rigor, não existe trama; o filme é uma espécie de diário filmado das sensações, desejos, sonhos e pensamentos de Guido. As imagens refletem não as coisas como elas são, mas a maneira como Guido as vê – e isso inclui delírios como a brilhante seqüência em que o diretor imagina todas as mulheres do filme (até mesmo as coadjuvantes mais imperceptíveis) como moradoras de um harém em que ele é o sultão. “Oito e Meio” flagra Fellini no ápice da mistura de sonho e realidade que ele, mais que qualquer outro cineasta, soube transformar em celulóide.

O DVD da Versátil tem estojo de luxo, som Dolby Digital 1.0 mono e imagens restauradas, o que valoriza a excelente fotografia em preto-e-branco de Gianni Di Vennanzo. Um bom documentário de 54 minutos (“Fellini – Um Auto-retrato”, com legendas em português) completa o pacote, junto com uma coleção de pôsteres, imagens, trailer e notas biográficas. Em tempo: o título da obra se refere ao número de filmes que Fellini realizara até então, contado na matemática peculiar do italiano – sete longas e três curtas metragens.

– Oito e Meio (8 ½, Itália/França, 1963)
Direção: Federico Fellini
Elenco: Marcelo Mastroianni, Claudia Cardinale, Ainou Aimée, Sandra Milo
Duração: 138 minutos

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