Oldboy

09/01/2007 | Categoria: Críticas

Thriller coreano sobre vingança é partida de xadrez recheada de cenas fortes e idéias surpreendentes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A onda de interesse pelo cinema asiático, desde meados da década de 1990, tem um responsável: Quentin Tarantino. De animações japonesas a longas de artes marciais chinesas, a filmografia de olhos puxados tomou de assalto os cinemas e home theaters mais descolados. Tarantino não tem nada a ver com a produção de “Oldboy” (Coréia do Sul, 2003), mas é graças a ele que você pode ter acesso a um dos mais originais, inteligentes, surpreendentes e requintados filmes dos últimos anos.

O norte-americano era o presidente da comissão que deu ao filme de Park Chan-Wook o Grande Prêmio do Júri, em Cannes 2004. O prêmio provocou o lançamento do filme nos EUA e na América Latina. Aos cinéfilos, só resta agradecer mais uma vez a Tarantino, porque o filme é uma pequena obra-prima do thriller de suspense, uma trama de vingança com fartas doses de humor negro e algumas das reviravoltas mais inteligentes vistas em filmes desde “Seven”, de David Fincher.

Os primeiros 15 minutos de “Oldboy” fisgam qualquer espectador desavisado. O filme abre mostrando um bêbado preso por perturbar a ordem pública. Oh Dae-su (Min-sik Choi) está levando presentes para a filha de três anos, mas solta alguns palavrões e fica preso por algumas horas. Na saída da prisão, é seqüestrado e posto para dormir. Oh Dae-su acorda no que parece ser um quarto de hotel, bem arrumado, com um pequeno banheiro e uma televisão. Ele recebe uma refeição por uma minúscula janela na porta, ao nível do chão, de algum sujeito misterioso que não lhe dirige a palavra.

O probre Oh Dae-su não tem a menor idéia do motivo pelo qual foi raptado. Pela TV, no entanto, descobre que sua mulher foi assassinada e suas impressões digitais foram encontradas no local, o que o torna procurado pela polícia. Os dias passam. A filha pequena de Oh Dae-su é adotada por um casal sueco. De vez em quando, um gás é liberado pelo sistema de ventilação do quarto, e o raptado adormece. Quando acorda, percebe que teve o corpo limpo e os cabelos cortados. Esta é a rotina básica do cativeiro. O agressor continua sem falar com ele. Os dias viram meses. Os meses viram anos. Quinze anos.

Depois de quinze anos sozinho, isolado do convívio social, tendo apenas uma TV como companhia, Oh Dae-su é libertado. O seqüestrador lhe deixa um telefone celular e boa quantidade de dinheiro. Ele está forte; durante os quinze anos, aprendeu a lutar esmurrando pacientemente a parede, até tornar ossos e músculos mais resistentes. Nas ruas, sabe que não pode mais recorrer aos amigos e parentes, pois é um fora-da-lei. Tudo o que lhe resta é a vingança. Resta descobrir contra quem, e por que diabos o seqüestrador lhe destruiu a vida.

A partir desse ponto de partida, “Oldboy” dispara uma trama requintada e verossímil de vingança, cuja melhor comparação seria não com outro filme, mas com um jogo de xadrez. Uma partida disputada por dois campeões, recheada de cenas perfeitas e boas idéias. A investigação empreendida por Oh Dae-su segue rumos lógicos, mas jamais previsíveis. Um exemplo: ele acredita que a única pista para descobrir a identidade do criminoso é o gosto da comida que lhe era servida diariamente no cativeiro. Por isso, passa a visitar restaurantes pelo toda a cidade, na esperança de reconhecer o sabor. É ou não tão lógico quanto imprevisível?

O que Oh Dae-su não sabe, mas logo vai descobrir, é que o seqüestrador misterioso continua à espreita, e segue revelando suas razões aos poucos, pedaço por pedaço, até demonstrar que sua motivação também está ligada a um sentimento de vingança. De fato, o espectador mais atento vai perceber que as duas jornadas, de herói e vilão, são simétricas de maneira quase perfeita. Não é errado dizer que a prisão de Oh Dae-su é apenas o primeiro lance de um dos melhores jogos de xadrez cinematográfico construídos nos últimos 10 ou 20 anos. Sim, há muitas reviravoltas, e nenhuma – nem uma sequer! – é previsível. Quantos filmes são capazes de tanta originalidade em pleno século XXI?

“Oldboy” é o tipo de filme sobre o qual não se deve falar muito, sob pena de estragar as surpresas que o espectador vai encontrar. Duas seqüências, no entanto, não podem deixar de serem mencionadas. A primeira é grotesca para os olhos ocidentais, e acontece dentro do restaurante japonês em que Oh Dae-su vai parar após ser libertado do cativeiro. “Quero comer algo vivo”, pede ele. Quando a cozinheiro aparece com um polvo, ele não espera que ela o corte em pedaços, como é costume local; toma o animal da mão da garota e o engole a dentadas. Vivo, com os tentáculos balançando loucamente. Sem cortes.

Não é uma cena para estômagos sensíveis, e nem é gratuita – graças a ela, Oh Dae-su granjeia a comiseração da cozinheira, Mi-do (Kang Hye-jeong). A garota vai terminar ajudando o sujeito na sua busca sedenta por vingança. De qualquer forma, é bom que a platéia esteja preparada para seqüências do tipo, porque Park Chan-Wook não poupa o espectador. Há uma cena, mais adiante, em que Oh Dae-su precisa obter uma confissão e usa um martelo para praticar uma tortura assustadora, que fará você pensar duas vezes antes de ir ao dentista de novo (esta cena é uma referência ao clássico “Maratona da Morte”, com Lawrence Olivier).

A segunda cena é um plano-seqüência magnífico, em que nosso herói luta contra um grupo de malfeitores no apertado corredor de um edifício. Durante aproximadamente três minutos, com a câmera posicionada lateralmente, podemos assistir a uma das coreografias de luta mais bem criadas – e mais verossímeis – que o cinema já foi capaz de mostrar. Quem ainda mantinha alguma dúvida a respeito do virtuosismo do diretor Park Chan-Wook atrás das câmeras vai perdê-la nesse momento.

O plano-seqüência é a jóia da coroa de uma fotografia brilhante, que passeia por cenários urbanos e naturais, multicoloridos ou sombrios, com naturalidade, apoiada em enquadramentos precisos. Como se não bastasse, “Oldboy” ainda possui uma edição ágil e criativa, que vai muito além do estilo picotado de montagem dos filmes juvenis, lembrando um pouco o “Hulk” de Ang Lee. Em determinada cena, por exemplo, a página de entrada de um site que Oh Dae-su visita na Internet se transforma em um flashback do personagem, de modo irreprensível. Em resumo, você está diante de uma obra-prima.

A edição especial em DVD do filme, da Europa Filmes, traz o filme com ótima qualidade de imagem (wide 2.35:1 letterboxed) e som espetacular (DTS, em coreano). Já o disco 2 é uma decepção, contendo apenas uma mini-entrevista do diretor com jovens coreanos (7 minutos), galeria de cenas cortadas (20 minutos, com opção de ouvir comentário em áudio do diretor) e dois trailers, um deles produzido por um fã. A versão para locadoras é pelada, sem extras, com o filme na proporção de imagem correta mas áudio apenas no formato Dolby Digital 2.0 (em português e coreano).

– Oldboy (Coréia do Sul, 2003)
Direção: Park Chan-Wook
Elenco: Min-sik Choi, Ji-tae Yu, Hye-jeong Kang, Dae-han Ji
Duração: 120 minutos

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