Olga

19/07/2007 | Categoria: Críticas

Filme de Jayme Monjardim tem técnica impecável, mas não envolve o espectador

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Técnica impecável e roteiro cheio de problemas. A grosso modo, essa descrição cabe bem em “Olga” (Brasil, 2004), uma superprodução nacional que dá seqüência à tentativa de consolidar um mercado para o filme brasileiro nos Multiplex da vida. “Olga” é a estréia no cinema do diretor Jayme Monjardim e da atriz Camila Morgado, que faz a personagem-título. É um filme de mercado, que não almeja ganhar prêmios em festivais, mas deseja conquistar um grande público. E tem potencial para isso. “Olga”, apesar dos muitos defeitos, possui ingredientes para carregar multidões aos cinemas.

A indústria cinematográfica já descobriu, desde o fenômeno “Titanic”, que as mulheres formam uma parcela significativa da platéia dos grandes filmes. “Olga” mira nessa fatia do público. O filme biografa a vida de uma mulher à frente do seu tempo e se desvia, de maneira intencional, do aspecto político dessa biografia, preferindo concentrar o foco no romance que a militante comunista alemã manteve com o líder militar brasileiro Luís Carlos Prestes (Caco Ciocler). A película se inspira (e, de certa forma, complementa, adicionando um pouco de ficção) na badalada biografia de Fernando Morais, publicada em 1985.

“Olga” é um triunfo no aspecto técnico. Trata-se talvez da primeira obra brasileira a ser 100% produzida e filmada em solo nacional, com tecnologia nacional, a alcançar o mesmo patamar técnico das superproduções de Hollywood. Até mesmo o som, tradicional calcanhar de Aquiles dos longas-metragens produzidos no Brasil, apresenta resultado perfeito. Observe, por exemplo, as rápidas seqüências que enfocam a tentativa de golpe de Estado liderada por Prestes, em 1935. A sonorização dos tiroteios utiliza os seis canais de som com toda a pompa que tem direito.

Embora o áudio do filme seja ótimo, os maiores destaques da parte técnica ficam para a fotografia de Ricardo Della Rosa e para a direção de arte de Tiza de Oliveira. A fotografia de Della Rosa acerta ao privilegiar tonalidades de azul e cores frias, transmitindo um ar opressivo, de tristeza, na maior parte do tempo. A direção de arte conseguiu, por sua vez, recriar um perfeito campo de concentração gelado em Bangu, com neve feita de shampoo e isopor. Ambientes na URSS e na Alemanha foram filmados no Brasil com absoluta qualidade. E o Brasil que estamos acostumados a ver na tela do cinema, de cores quentes e luz exuberante, não aparece em “Olga”.

A inspiração estética da fotografia parece ter sido a dupla de filmes de Spielberg sobre a Segunda Guerra Mundial, “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”, mas o resultado final lembra um pouco os filmes de Anthony Minghella, em especial o épico “Cold Mountain”, que também trata de um amor impossível entre um homem e uma mulher, em tempos de guerra. Assim como o filme de Minghella, contudo, tanta exuberância visual não se traduz em um filme bom. O resultado final de “Olga” é frio, distante demais, e não envolve o espectador.

O roteiro burocrático tem culpa no cartório. O texto, com diálogos repletos de clichês, é pobre e unidimensional. Por isso, jamais consegue refletir a complexidade das ações e emoções dos personagens. Um bom exemplo disso está no primeiro terço do filme, quando Olga passa por um duro treinamento militar na URSS e é designada, em 1934, a escoltar Prestes (então hospedado em Moscou) ao Brasil. No processo, os dois se apaixonam. A tradução visual dessa paixão simplesmente não existe. Não há cenas que expliquem o motivo pelo qual Olga e Prestes caem de amor um pelo outro. Nada de especial acontece entre eles.

Prestes, em particular, é o personagem que mais sofre nas mãos da roteirista Rita Buzzar. O líder militar é retratado como um sujeito que não age – apenas reage. Ele não tem iniciativa, não demonstra espírito de liderança e nem carisma. Dessa maneira, fica difícil compreender como uma mulher disciplinada e decidida poderia se apaixonar por um sujeito que, ao lado dela, fica pequeno. Não há uma única seqüência que reflita a construção desse sentimento. Em um momento, os dois são militares cumprindo uma ordem; no seguinte, dividem a mesma cama.

Não é um problema de atores. Camila Morgado faz um bom trabalho como Olga (ajudada pela câmera do diretor Monjardim, que explora fartamente os expressivos olhos azuis da atriz), enquanto Caco Ciocler não compromete. O problema está no roteiro, que pouco trabalha as cenas de transição. Esse tipo de cena é muito difícil e às vezes imperceptível à audiência, pois geralmente não contribui decisivamente para o andamento da história, mas dá idéia de tempo transcorrido e ajuda a firmar as mudanças psicológicas dos personagens.

Pois essas cenas não existem em “Olga”. Foram substituídas por canhestras seqüências de sexo em câmera lenta e luz bruxuleante – a pior coisa do filme, um amontoado medonho de clichês que só pode ser interpretado como concessão comercial para atrair público. Outra concessão óbvia é o fato de personagens na Alemanha e na URSS falarem às vezes na l´ngua local, e em outras em bom e sonoro português, o que cria um verdadeiro samba do crioulo doido.

Talvez haja ainda um problema de montagem. Jayme Monjardim diz que o primeiro corte de “Olga” tinha quase 3h30. Pode ser que as cenas de transição tenham sumido para adequar a duração do filme aos 141 minutos do resultado final. Se isso aconteceu, só resta lamentar a decisão de Monjardim e dos produtores. Eles poderiam ter criado um longa-metragem muito mais firme, se tivessem mais ousadia. Do jeito que está, “Olga” é um filme rarefeito de criatividade.

O DVD de locação de “Olga” é tão convencional quanto o filme. Possui imagem widescreen e som Dolby Digital 5.1, mas decepciona nos extras, trazendo apenas um curto documentário. O disco de luxo, duplo, vem com cenas cortadas e um documentário mais longo.

– Olga (Brasil, 2004)
Direção: Jayme Monjardim
Elenco: Camila Morgado, Caco Ciocler, Fernanda Montenegro, Osmar Prado
Duração: 141 minutos

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