Olhar de Anjo

25/07/2004 | Categoria: Críticas

Jennifer Lopez capricha na quantidade de açúcar e faz filme para obrigado o espectador a chorar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★☆☆☆☆

Logo que surgiu no cenário cinematográfico, Jennifer Lopez destacou-se por duas características peculiares: o belo corpo e a língua afiada. Nas primeiras entrevistas, não se fez de rogada ao detonar a colega chicana Salma Hayek, então maior estrela de cinema entre os latinos que moravam nos EUA. Pelo menos por ali, a arrogância parecia verdadeira porque ela demonstrava um certo talento, em filmes como a cinebiografia da cantora mexicana “Selena” e o subestimado “Reviravolta”, de Oliver Stone.

Depois a situação mudou. Depois de migrar para a música e faturar horrores liderando as paradas de sucesso com um disco horrível, Jennifer virou estrela de primeira grandeza e vem se dedicando a mostrar sua face conservadora. A atriz desandou a fazer filminhos meia-boca repletos de lições de moral. É o caso de “Olhar de Anjo” (Angel Eyes,EUA, 2001, 88).

Além de Lopez, o filme tem o candidato a astro Jim Caviezel, bom ator que ainda não se livrou do segundo time de Hollywood, e a nossa Sônia Braga. A brasileira aparece em apenas duas cenas, interpretando a mãe de Lopez com um sotaque nada americano. O papel é pequeno, mas importante: Jennifer faz uma policial, Sharon Pogue, que passa os dias correndo atrás de meliantes e as noites rodando na sala com insônia. Amigos? Esqueça. Nem mesmo a família quer saber dela, depois que a menina prendeu o próprio pai, após este ter espancado a mãe, dez anos antes.

Essa rotina solitária e deprimente vai sofrer o abalo com o aparecimento do vagabundo Catch (Caviezel), que a salva da morte certa. Agradecida, ela inicia uma amizade que logo vai resvalar para o namoro. O problema é que o sujeito tem um evidente problema no passado que o impede de revelar qualquer coisa sobre o que fazia antes do encontro. Em resumo: são dois solitários desajustados tentando aliviar a dor da solidão entre si.

Esse tema já foi bem explorado em outras obras, como o irônico e tocante “Melhor É Impossível”, que tinha duas qualidades inegáveis: um texto cínico e elegante e a presença impagável de Jack Nicholson. O diretor Luis Mandoki (dos dramalhões “Uma Carta de Amor” e “Loucos de Paixão”) não tem nem uma coisa nem outra. Caviezel é esforçado, mas não muito mais do que isso, enquanto sua parceira… alguém aí lembra há quanto anos Lopez não faz um filme decente?

”Olhar de Anjo” não leva uma nota zero, mas fica perto disso. Após uma primeira meia hora repleta de clichês, o filme até que melhora um pouquinho no meio, quando o conflito entre os protagonistas engrena após uma boa interpretação da jazzística “Nature Boy” (infelizmente, já lindamente usada na abertura e no encerramento de “Moulin Rouge”). Acontece que o final enterra o filme noutro turbilhão de clichês e em uma tonelada de açúcar. Quem gosta de chorar em filmes previsíveis tem aqui um prato cheio.

Olhar de Anjo (Angel Eyes, EUA, 2001)
Direção: Luis Mandoki
Elenco: Jennifer Lopez, Jim Caviezel, Sônia Braga
Duração: 112 minutos

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