Olhar do Paraíso, Um

28/06/2010 | Categoria: Críticas

Abusando de computação gráfica e quebrando a ação em várias narrativas paralelas, Peter Jackson falha em injetar empatia e calor humano à história de uma adolescente assassinada que observa sua família de outra dimensão

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Um Olhar do Paraíso” (The Lovely Bones, EUA, 2009) deveria, supostamente, marcar o retorno de Peter Jackson aos filmes pequenos e intimistas, após uma década dirigindo grandes produções lotadas de monstros, criaturas fantásticas e dúzias de personagens movendo-se em histórias paralelas. Se lançarmos um olhar atento para a obra que o neozelandês construiu antes da trilogia “O Senhor dos Anéis”, contudo, veremos que o flerte com tons épicos, efeitos especiais e exageros de estilo sempre fizeram parte de sua personalidade. Confirmada em “Um Olhar do Paraíso”, esta característica responde pelo relativo fracasso criativo do filme de 2009.

Concebido como estudo íntimo de uma personagem adolescente, “Um Olhar do Paraíso” falha na tarefa exatamente por causa da abordagem grandiosa aplicada pelo diretor à adaptação do romance de Alice Sebold. Embora retenha elementos de dois ótimos filmes que Jackson realizou antes da hercúlea tarefa de transpor os calhamaços de J.R.R. Tolkien para o meio audiovisual (“Almas Gêmeas”, de 1994, e “Os Espíritos”, de 1996), a adaptação de “Um Olhar do Paraíso” resultou num filme belo mas frio, espécie de portfólio de luxo de roupas e cenários delirantes pintados via CGI no estilo multicolorido dos anos 1970, mas habitado por personagens que carecem de complexidade e estofo emocional.

A narradora e protagonista do filme é a adolescente Susie Salmon (Saoirse Ronan). Numa abertura narrada e sonorizada de modo idêntico a “Beleza Americana” (1999), a jovem nos informa que foi morta aos 16 anos, no dia 6 de dezembro de 1973. A partir desta revelação inicial, Jackson usa todo o primeiro ato para nos mostrar quem era Susan e como ela morreu, vítima da violência de um vizinho serial killer (Stanley Tucci). Tratava-se de uma menina feliz, cheia de vida, esperta e observadora, que dividia com o pai (Mark Whalberg) a paixão por arte e estava prestes a namorar um colega de escola. Em outras palavras, um primeiro ato correto. É o melhor momento do filme.

A partir da cena da morte – cuja brutalidade é descrita no livro, mas Jackson evita mostrar, preferindo uma saída interessante que mostra Susan circulando entre duas dimensões – o longa-metragem envereda por um caminho irregular. Diante do desaparecimento da filha e sem ter certeza absoluta sobre a morte, a família de Susan desmonta. O pai se lança numa investigação obsessiva, a mãe não agüenta o tranco e foge; a irmã mais nova é a única a desconfiar da identidade do assassino, o que a transforma num alvo em potencial para um ataque futuro. Enquanto isso, a própria garota morta observa tudo de um purgatório, espécie de limbo em CGI ultracolorido onde sofre, se desespera e encontra uma misteriosa garota nipônica (Nikki SooHoo) que se oferece para ajudá-la a superar o trauma e ir para o céu definitivo.

Ao definir esta estrutura narrativa multifacetada, Jackson perde de vista o objetivo inicial de realizar um estudo de personagem. O roteiro, escrito pelo mesmo time de “O Senhor dos Anéis” (o próprio Jackson, a mulher Fran Walsh e Phillipa Boyens), quebra a história em diversas narrativas paralelas: a investigação triste e sem rumo do pai, a paranóia do vizinho assassino, a desconfiança gradual da irmã, a dificuldade de Susan em aceitar seu destino. Para cada uma das histórias paralelas, a equipe de produção desenvolve todo um ambiente e uma atmosfera distintos, num evidente trabalho meticuloso de desenho de produção e fotografia, que acaba se revelando um tanto excessivo. Em cada plano do filme, há tanto o que ver e ouvir que não sobra espaço para o espectador exercitar um mínimo de imaginação.

O mundo onírico de Susan, por exemplo, é todo construído com as cores da roupa que ela usava ao morrer. Para ilustrar a paranóia de George Harvey, o assassino, Jackson abusa de câmera subjetiva e de close-ups extremos que às vezes fazem uma unha, ou uma impressão digital, encher toda a tela do cinema. A casa dos Salmon é atulhada de objetos cênicos espalhados por móveis e paredes. Embora toda essa overdose de elementos visuais seja criada com lógica e coerência narrativa, acaba se tornando um empecilho – uma parede de gelo – que impede a empatia efetiva entre público e personagens, algo absolutamente essencial para um filme assim funcionar.

Essa falta de empatia não é, de maneira alguma, um problema de elenco ou direção de atores. Todos estão muito bem, especialmente Saoirse Ronan (a substituição da vitalidade do primeiro ato pela angústia do segundo é crível) e Stanley Tucci, cuja caracterização transforma o vilão – ironia, talvez? – no personagem mais interessante do filme, um sujeito tímido e retraído com um impulso maníaco para a violência, como um primo distante do inesquecível matador de crianças do clássico expressionista “M – O Vampiro de Dusseldorf” (1931). Whalberg não compromete no papel do pai depressivo, Weisz tem pouquíssimo tempo em cena e Susan Sarandon, no papel da avó da Susan ficcional, é mero desperdício de talento. Sua função narrativa consiste simplesmente em fornecer alívio cômico nas partes mais angustiantes da narrativa.

Talvez o principal defeito do filme seja sintetizado pelo purgatório de CGI construído tão cuidadosamente pelo diretor. Embora consista de uma série de proezas técnicas dignas dos épicos de aventura dirigidos por Jackson, o limbo onde Susan passa a viver parece uma combinação entre o ambiente alienígena visitado por Jodie Foster em “Contato” (1997) e o céu de tinta aquarela que lambuza Robin Williams em “Amor Além da Vida” (1998), devidamente sofisticado com as novas técnicas de computação gráfica do estúdio Weta, de propriedade do próprio diretor. É tudo lindo, as transições entre a ação na Terra e a ação no purgatório são criativas e bem tramadas, mas falta a empatia e o calor humano que se espera de um estudo de personagens.

O filme é ruim? Não, um diretor do calibre de Peter Jackson não seria capaz de cometer um filme realmente ruim. Mas empalicede severamente quando colocado lado a lado dos já citados filmes pequenos do diretor, o excelente drama fantástico “Almas Gêmeas” (que também versava sobre garotas adolescentes e mortes violentas) e a divertida aventura romântica “Os Espíritos”. Os dois filmes combinavam bem a grandiosidade dos efeitos especiais com roteiros mais intimistas, calorosos e irreverentes, algo que Jackson não conseguiu desenvolver aqui. Ainda por cima, o moralismo agressivo do final é elemento novo num filme do diretor neozelandês. Uma pena.

O DVD lançado pela Paramount, simples, não apresenta extras. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones, EUA, 2009)
Direção: Peter Jackson
Elenco: Saoirse Ronan, Stanley Tucci, Mark Whalberg, Rachel Weisz
Duração: 125 minutos

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