Olhe para os Dois Lados

10/08/2009 | Categoria: Críticas

Filme-mosaico australiano tematiza a morte (ou a idéia dela) de forma original, sensível e surpreendentemente otimista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O tema é a morte. Ou melhor, as diferentes – e às vezes imprevisíveis – maneiras como a simples idéia da morte afeta as pessoas, naqueles momentos em que cada um de nós precisa obrigatoriamente lidar com ela. Tema árido, pouco usual e nada agradável. É surpresa, portanto, que a diretora estreante Sarah Watt tenha conseguido fazer de “Olhe para os Dois Lados” (Look Both Ways, Austrália, 2005) não apenas um bom filme, mas um filme sobretudo original, sensível e de certa forma otimista sobre um assunto tão delicado e negativo. É um trabalho que tem lá seus defeitos, mas desenha um futuro promissor para a cineasta australiana.

A abordagem seguida por Sarah Watt é um dos maiores acertos. Ela fez um filme-mosaico, uma dessas obras sem protagonistas, que entrelaça histórias de vários personagens a partir de um evento em comum. Ao contrário do que normalmente acontece nos títulos hollywoodianos que usam a mesma estrutura narrativa (bom exemplo desta camisa-de-força é o oscarizado “Crash”), Watt jamais tenta fechar muito o foco em situações que remetam ao tema principal. Os personagens lidam com problemas do cotidiano, como gravidez indesejada e diagnóstico de doença inesperada, e o fazem das formas mais diversas. “Olhe para os Dois Lados” não tenta ensinar uma lição. O final força um pouco a barra em direção a uma pouco hipotética redenção, mas isso não chega a atrapalhar a condução segura da narrativa.

Outro acerto é a escalação do elenco. Como o filme foi inteiramente produzido na Austrália, à margem dos estúdios, Sarah Watt pôde utilizar atores (todos muito bons) com cara de gente comum, e não estrelas de Hollywood. As mulheres têm barriguinha, os homens são feiosos, alguns se vestem mal, e não há nada de errado com isso. Pelo contrário – estes detalhes aumentam o grau de empatia das histórias com o espectador, porque conseguimos nos reconhecer na tela. Todas as histórias envolvem, em maior ou menor grau, os conceitos de coincidência e destino, e isso ajuda ainda mais a platéia na tarefa de se identificar com aquele personagem ali, ou com aquele outro acolá. A narrativa segue um ritmo naturalmente lento, sem muitos diálogos, e com diversas passagens musicais que acentual o caráter melancólico da trama.

O evento que provoca os encontros dos personagens é um acidente banal: um homem correndo atrás de um cachorro escorrega, cai e é atropelado por um trem. Ele morre. A partir daí, o filme acompanha um punhado de pessoas que se esbarram na cena do acidente. Cada um segue seu caminho, mas essas trajetórias não são paralelas, e voltam a se cruzar depois. Três personagens ganham mais tempo de tela: Nick (William McInnes), fotógrafo que acaba de receber o diagnóstico de câncer; Meryl (Justine Clarke), desenhista que testemunhou o acidente ao voltar do enterro do pai; e Andy (Anthony Rayes), repórter que trabalha em um estudo sobre suicídios que parecem acidentes.

Um detalhe interessante é que Sarah Watt realiza experiências de linguagem, acompanhando o fluxo de consciência de dois personagens (Nick e Meryl) através de técnicas diferentes de montagem, espertamente associadas à profissão de cada um. Os pensamentos de Nick são exibidos através de seqüências de fotografias estáticas (ele é fotógrafo), enquanto os de Meryl aparecem na tela transformados em animações (desenhista). Ambos compartilham pensamentos constantes de morte, e por isso não é nenhuma surpresa quando os dois se descobrem apaixonados – a história desta paixão impossível, já que ele parece condenado à morte, acaba se tornando a veia narrativa principal, e também uma leitura original para o título, traduzido no Brasil de forma literal. A seqüência de sexo entre os dois, que põe o espectador numa curiosa posição de onisciência (pois sabe mais sobre cada um do que o outro), é um dos momentos mais criativos, bem-humorados e originais.

É possível argumentar, com razão, que o longa-metragem sofre do excessos na parte gráfica e também tem problemas de ritmo. Fazendo jus ao passado de animadora, Sarah Watt de fato exagera na quantidade de seqüências modernosas que captam os pensamentos de Nick e Meryl (ela não tenta explicar porque somente os dois foram agraciados com tal técnica). Também se excede nas seqüências musicais agridoces, um recurso que proporciona ao público, quando bem utilizado, momentos de refresco para que se possa refletir sobre o filme – o excesso se manifesta especialmente no terceiro ato, quando a narrativa praticamente se arrasta de um pseudo-clipe para o próximo. Ainda assim, “Olhe para os Dois Lados” é o tipo de título gratificante para quem anda procurando obras que fujam à receita clássica do filme de massa.

O lançamento em DVD no Brasil leva o selo da Art Filmes. O disco não tem extras, contém imagens mutiladas nas laterais (1.33:1) e som em dois canais (Dolby Digital 2.0)

– Olhe para os Dois Lados (Look Both Ways, Austrália, 2005)
Direção: Sarah Watt
Elenco: William McInnes, Justine Clarke, Anthony Rayes, Lisa Flanagan
Duração: 101 minutos

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