Olhos sem Rosto, Os

26/04/2006 | Categoria: Críticas

Filme de 1959 mescla surrealismo, thriller e violência gráfica para obter um clássico do horror

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Os Olhos sem Rosto” (Les Yeux sans Visage, França/Itália, 1959) faz parte da galeria de filmes que, embora obscuros para o grande público, são idolatrados por uma minoria de cinéfilos interessados em filmes de horror. Primeiro trabalho em longa-metragem de um dos fundadores da legendária Cinemateca Francesa, “Os Olhos sem Rosto” não despertou muita atenção na época do seu lançamento, obtendo na maior parte das vezes críticas negativas. O tempo se encarregaria de mostrar, no entanto, que o trabalho de Georges Franju vai além da simples proposta de meter medo na platéia, construindo delicadamente uma atmosfera fantasmagórica que permanece no subconsciente muito tempo depois de terminada a projeção.

É provável que a grande responsável pela permanência do filme de Franju no imaginário dos cinéfilos seja a grande crítica norte-americana Pauline Kael. Maior nome em atividade na profissão durante os anos 1960 e 1970, Kael foi uma das poucas especialistas a enxergar em “Os Olhos sem Rosto” algo mais do que um mero filme de horror. Para Kael, o filme tinha uma qualidade etérea que transcendia os encantos do gênero maldito. Como acontecia com freqüência, a crítica teimosa que adorava ser “do contra” percebeu, antes de todo mundo, que estava diante de uma obra original, um filme capaz de mesclar elementos de gêneros díspares – o surrealismo, o thriller policial e o naturalismo macabro do teatro Grand Guignol – para construir algo único.

Sabe-se que, para filmar “Os Olhos sem Rosto”, Franju teve que se submeter a uma espécie de censura prévia. Fã dos trabalhos de Luis Buñuel, ele queria agregar um toque de surrealismo a uma dupla de gêneros interligados que estavam, em meados da década de 1950, teoricamente ultrapassados: o expressionismo alemão e os filmes de monstro dos estúdios Universal. A proposta que Franju levou ao produtor Jules Borkon falava em fundir as três coisas. Borkon concordou em financiar a produção, desde que o cineasta se comprometesse a evitar cenas com violência gráfica (ele havia incluído seqüências reais de cavalos sendo mortos no curta “Sangue das Bestas”, de 1949).

O roteiro, assinado por cinco nomes, foi inspirado em uma novela de mistério que fazia sucesso na França e emprestava idéias de produções cinematográficas como “O Fantasma da Ópera” e “Frankenstein”. Como protagonista, Franju adotou a figura do cientista louco. No entanto, procurou humanizá-lo e dotá-lo de maior complexidade emocional. O homem é o Dr. Génessier (Pierre Brasseur), ilustre cirurgião especializado em transplantes. Traumatizado após provocar um acidente de automóvel que deixou a filha Christiane (Edith Scob) com o rosto desfigurado, o médico tenta utilizar seu talento para curar o problema da filha. Para isso, sua assistente (Alida Valli) seqüestra moças nos arredores de Paris, para que o doutor lhes retire os rostos cirurgicamente, a fim de tentar transplantá-los na própria filha.

“Os Olhos sem Rosto” é um filme construído sobre uma imagem poderosa: a da bela Catherine, que se torna uma figura fantasmagórica, com sua máscara branca de porcelana e seus vestidos brancos e diáfanos, vagando sem rumo pelos amplos corredores da mansão gótica, afastada da capital francesa, onde vive com o pai. Os enormes e expressivos olhos claros da atriz Edith Scob ajudam a transformar a figura de trágica de Christiane numa personagem complexa, de nuances que vão muito além das palavras. De fato, “Os Olhos sem Rosto” é um filme lento, repleto de seqüências sem diálogos, e isso pode incomodar alguns espectadores, mas funciona a favor do filme, no sentido em que contribui para a construção de uma atmosférica lúgubre.

A bela fotografia do polonês Eugen Schüfftan (responsável pelos efeitos especiais do clássico “Metrópolis”, de Fritz Lang) vai além do mero contraste claro/escuro que sempre caracterizou o expressionismo alemão. A câmera busca ângulos que acentuam o isolamento da família Génessier, bem como a progressiva perturbação emocional de pai e filha. Há pelo menos três belas seqüências filmadas à noite, perturbadores por captar um senso agudo de desolamento e solidão. Schüfftan usa os cômodos do casarão da família (especialmente o sinistro porão) para dar um toque levemente macabro a Christiane, cujo figurino – observe que ela sempre usa vestidos claros e compridos, que a fazem parecer flutuar como um fantasma, ao invés de caminhar – completa o trabalho brilhantemente.

Como se não bastasse, Franju ainda deu um jeito de filmar uma longa e incômoda seqüência de cirurgia facial, quando mostra em detalhes a retirada cirúrgica do rosto de uma garota. Fez isso utilizando um estilo naturalista desconcertante, com tomadas longas e sem cortes, poucos movimentos de câmera e uma influência concreta dos famosos espetáculos do teatro Grand Guignol, que com uma crueza inédita escandalizaram muita gente na Paris da primeira metade do século XX.

O DVD lançado no Brasil é um clone da excelente edição norte-americana feita pela Criterion. O disco simples contém uma cópia em excelente estado de conservação, nítida e sem arranhões, que preserva o enquadramento original (1.66:1) e tem ótima qualidade de som (Dolby Digital 1.0). Entre os extras, destaque para uma curta entrevista em vídeo com Franju, sobre o filme, e o impactante curta-metragem “Sangue das Bestas” (1949), que mostra em 20 minutos o cotidiano dos matadouros na periferia de Paris, incluindo cenas violentas com mortes de animais. Tudo isso com legendas em português.

– Os Olhos sem Rosto (Les Yeux sans Visage, França/Itália, 1959)
Direção: Georges Franju
Elenco: Pierre Brasseur, Alida Valli, Juliette Mayniel, Edith Scob
Duração: 90 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »