Apenas uma Vez

24/09/2008 | Categoria: Críticas

Simples e sedutor, romance entre dois músicos de rua tem canções organicamente integradas à narrativa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Junto ao faroeste, o gênero musical teve dias de glória em Hollywood na primeira metade do século XX. Desde então, perdeu espaço no gosto do público de cinema e praticamente morreu, emplacando uma ou outra exceção (“Moulin Rouge”) que confirma a regra. A principal razão para tamanha decadência vem da constatação de que os espectadores contemporâneos não admitem mais histórias contadas de maneira assumidamente não-realista. Como todos sabemos, em clássicos como “Cantando na Chuva” (1952) a ação pára de ser realista, de tempos em tempos, e abre espaço para um número de dança. O público atual não aceita mais isso. Até mesmo as animações infantis da Disney, último território deste artifício narrativo, dispensam o recurso.

O grande desafio dos musicais contemporâneos, portanto, é inserir canções na narrativa de modo orgânico, sem interromper a progressão constante da história. O músico e cineasta irlandês John Carney encontrou uma maneira simples e original de driblar o problema: usando um fiapo de trama tradicionalíssimo, quase arquetípico, transformou as canções como elo de ligação entre dois músicos de rua, um rapaz e uma garota que estão naquela idade em que as pessoas têm que deixar os sonhos de adolescência de lado e cair na real para sobreviver num mundo hostil, duro, que não perdoa os românticos. Pois “Apenas uma Vez” (Once, Irlanda, 2006) é doce, simpático, tem canções lindas – folk irlandês intimista no estilo de Nick Drake e Damien Rice – e uma adorável dupla de protagonistas. Ou seja, é um filme feito sob medida para os românticos de carteirinha que curtem música de boa qualidade.

O enredo é tão mínimo que a platéia jamais fica conhecendo os personagens pelo nome. O rapaz (Glen Hansard) está na faixa dos 30 anos. Trabalha consertando aspiradores de pó na loja do pai, pela manhã, e gasta as tardes tocando violão e cantando em troca de moedas, nas ruas de uma Dublin proletária e suja de fuligem. A qualidade confessional das canções, aliada às melodias melancólicas, atrai uma imigrante tcheca de 17 anos (Markéta Iglová). Ela vende flores para sustentar uma filha pequena e a mãe idosa, e toca piano nas horas vagas. A atração que nasce entre os dois é pura e genuína, mas há barreiras para que a relação se concretize fisicamente. A moça é casada, e o marido vive na República Tcheca. Já o rapaz, de coração partido, tenta fugir à tentação de rumar a Londres para encontrar a namorada perdida recentemente. Dublin é pobre e feia, mas pelo menos lhe proporciona uma sensação fugaz de segurança.

Curto e direto, ““Apenas uma Vez”” se resume a acompanhar o processo fascinante de aproximação do casal, que se dá através da afinidade musical. Claramente encantados um com o outro, os dois canalizam para a música o sentimento que nasce entre eles. O diretor John Carney mantém a câmera à distância, registrando os momentos de forma despojada. É preciso ressaltar que boa parte da história é autobiográfica. Carney foi baixista da banda The Flames (cujo guitarrista e vocalista é exatamente Glen Hansard), e sofreu durante anos com a partida da namorada para Londres – o videoclipe que o protagonista vê no notebook como inspiração para compor foi editado com cenas caseiras da moça. Além disso, os dois protagonistas são músicos de verdade, e compuseram todas as canções que tocam na trilha sonora.

Simples e cativante, ““Apenas uma Vez”” fez ruidoso sucesso de público ao ser exibido no Festival de Sundance, onde conquistou o prêmio de público. O braço independente da Fox acabou por comprar os direitos do longa-metragem e lançá-lo nos Estados Unidos, onde conquistou a crítica (impressionantes 98% de aprovação no site agregador Rotten Tomatoes) e se tornou cult. O grande truque para esta aceitação sem reservas é justamente o uso inteligente da música, completamente orgânica e integrada à narrativa, mas a direção de John Carney é correta e eficiente, seguindo a trilha do também irlandês “The Commitments” (obra na qual Glen Hansard teve um pequeno papel). O resultado é uma produção pequena, honesta, que soa realista sem abrir mão do romantismo. De quebra, o final é uma beleza.

O DVD nacional é um lançamento da Imagem Filmes. O enquadramento original (widescreen anamórfico) está preservado. A trilha de áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Apenas uma Vez (Once, Irlanda, 2006)
Direção: John Carney
Elenco: Glen Hansard, Markéta Iglová, Bill Hodnett, Geoff Minogue
Duração: 85 minutos

| Mais


Deixar comentário