Onde Começa o Inferno

06/06/2007 | Categoria: Críticas

Faroeste de Howard Hawks une comédia e drama em filme que influenciou dezenas de diretores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Um grupo reduzido de pessoas, praticamente sem meios de se defender, está cercado por uma multidão de inimigos que não vão hesitar em atacá-los. Essa idéia simples já foi filmada dezenas de vezes, em Hollywood, por cineastas militantes de diversos gêneros. De filmes de zumbi (“Despertar dos Mortos”) a aventuras (“Assalto à 13ª DP”), a indústria cinematográfica pagou muito tributo a esse esqueleto narrativo. O filme que funciona como marco zero dessa trama, porém, é um faroeste não muito bem recebido em seu tempo mas que, aos poucos, se tornou clássico: “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo, EUA, 1959), de Howard Hawks.

O diretor norte-americano é dono de uma das mais prolíficas e variadas carreiras da história de Hollywood, mas, embora sempre respeitado, nunca fez parte da turma mais festejada do cinema, por um motivo muito simples: Hawks nunca foi um estilista. Ele celebrou um estilo discreto de direção que praticamente torna invisível o cineasta atrás das câmeras. Por isso, os críticos sempre encontraram grande dificuldade em visualizar temáticas ou recursos de estilo que fossem recorrentes na obra de Hawks. Pois talvez seja justamente essa – a habilidade de fazer filmes que pareciam nascer, sem a mão de um diretor – a característica que marca o cinema de Howard Hawks.

“Onde Começa o Inferno” nasceu como um projeto de reunião entre o diretor e eterno cowboy John Wayne, com quem já havia trabalhado antes (em, por exemplo, “Rio Bravo”, de 1948). Os dois desejavam uma obra que dialogasse com outro clássico do gênero, “Matar ou Morrer”, célebre longa-metragem de Fred Zinnemann que contava a história de um xerife com a obrigação de enfrentar, sozinho, quatro malfeitores com hora marcada para chegar na cidade dele. Hawks então ampliou o escopo e criou a trama que originaria um sem-número de variações cinematográficas.

Wayne é John T. Chance, xerife de uma pequena cidade, na última década do século XIX. Ele prende o irmão de um rico proprietário de terras depois que este mata um homem desarmado, dentro de um saloon. Faz isso mesmo sabendo que pode atrair contra si as armas dos 40 pistoleiros profissionais que trabalham para a família Burdette – e, é claro, isso acontece mesmo. Para ajudá-lo a manter o preso na delegacia local, Chance conta apenas com um alcoólatra (Dude, vivido por Dean Martin), um velho aleijado (Sumpy, defendido por Walter Brennan), um jovem violeiro (Colorado, estréia de Ricky Nelson no cinema) e uma garota interessada dele (Feathers, interpretada por uma Angie Dickinson belíssima).

A duração do filme é extremamente longa, mas a teia de relações que Hawks consegue tecer em torno dessas cinco figuras é tão fluida que “Onde Começa o Inferno” corre como um rio. Parte da graça do longa-metragem vem do fato de que o cineasta consegue manter o público sob uma curiosa tensão, retardando ao máximo o confronto anunciado logo nos primeiros minutos mas, ao mesmo tempo, submetendo-os aos dramas e comédias particulares de cada personagem.

A maior parte da ação, na verdade, consiste nos cinco personagens lidando com problemas simples do cotidianos, problemas que são familiares a nós, a audiência. Um deles sofre com os tremores pela falta de álcool, o outro fica embaraçado por não saber dizer a uma garota que está atraído por ela, e assim por diante. Assim, a nossos olhos, eles se tornam pessoas de carne e osso, e não meros marionetes construídos para matar e morrer na tela do cinema.

A rigor, “Onde Começa o Inferno” nem deveria ser considerado um faroeste, uma vez que apenas a ambientação no Velho Oeste remete ao estilo. Em mais de duas horas de projeção, os tiroteios podem ser contados nos dedos de uma mão. Os momentos de comédia (a relação tumultuada entre o tímido Chance e a ousada Feathers, com diálogos deleiciosos que fazem alusões picantes a sexo) e drama (o alcoolismo de Dude) se alternam em uma montagem que deixa o filme andar em seu próprio ritmo, tranqüilo e sem pressa, mas jamais lento.

A habilidade de Hawks fica evidente quando detalhes das filmagens são revelados. Toda a cidade cenográfica onde se passa a ação, por exemplo, foi construída em escala menor do que a real, para dar aos personagens uma aparência imperceptível de grandiosidade; é dessa forma que eles se tornam arquétipos, e não meros personagens. Além disso, a bela fotografia em technicolor captura toda a ação em cores vibrantes e alegres, de forma que o filme jamais se torna opressor ou claustrofóbico. A cor é um elemento importante em particularmente uma cena, que envolve uma mistura de sangue e cerveja.

Para evitar essa sensação claustrofóbica e permitir a tensão apenas em um nível subliminar de percepção, o diretor Howard Hawks utilizou um recurso interessante. Ele evitou filmar os atores de perto – não há um único close de rosto em “Onde Começa o Inferno”. O cenário é tão importante para a ação quanto os atores, e os enquadramentos são clássicos, sem muitos movimentos de câmera.

Com tudo isso, o resultado é um filme redondo, que faz sorrir e emociona à moda antiga. “Onde Começa o Inferno” costuma ser considerado o ponto mais alto da carreira de Howard Hawks, e isso não é pouco na obra de um homem que assinou, entre outros, a comédia “Os Homens Preferem as Loiras” e o policial noir “À Beira do Abismo”. Se você duvida, pense bem: que outro diretor conseguiria fazer John Wayne protagonizar uma cena de amor que soasse realmente convincente, a não ser um sujeito que tivesse um olho para comédia tão bom quanto a habilidade de dirigir westerns?

Existem duas versões em DVD nacional, ambas da Warner. Uma é simples, contendo apenas o filme, com imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) excelente, e o som (Dolby Digital 2.0) OK. Não há extras. Na versão especial dupla, há um belo documentário sobre a carreira de Howard Hawks (54 minutos), outro sobre o filme em si, bem completo (33 minutos), e um featurette curto sobre a paisagem do Arizona em que a história se passa (8 minutos). O disco 1 é quase igual ao da edição simples, acrescido de um comentário em áudio que reúne o crítico Richard Shickel e o mais devoto fã de Hawks: o diretor John Carpenter, que utilizou livremente a escopo narrativo deste filme em vários de seus trabalhos.

– Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, EUA, 1959)
Direção: Howard Hawks
Elenco: John Wayne, Dean Martin, Angie Dickinson, Ricky Nelson, Walter Brennan
Duração: 141 minutos

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