Onde os Fracos Não Têm Vez

23/06/2008 | Categoria: Críticas

Irmãos Coen desovam filme perfeito, um pequeno e silencioso thriller surreal em cenário de faroeste

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O destino de cada um de nós é moldado por uma série de coincidências sobre as quais não temos nenhum controle. Este é o tema central de toda a obra dos irmãos Joel e Ethan Coen, um time coeso que está entre os maiores autores do cinema contemporâneo. Os dois integram um pequeno grupo de cineastas, em ação no século XXI, que possuem a clássica habilidade de inserir seus temas prediletos em projetos não-autorais. É o caso de “Onde os Fracos Não Têm Vez” (No Country for Old Man, EUA, 2007), adaptação de um romance de Cormac McCarthy que os Coen receberam a incumbência de levar a cabo. Eles não economizaram talento na tarefa. Trata-se de um filme perfeito, um pequeno e silencioso thriller surreal em cenário de faroeste.

Curiosamente, embora o tema principal lhes seja caro, “Onde os Fracos Não Têm Vez” tem um registro em tom de lamento fúnebre, silencioso, que soa dissonante da obra pregressa de Joel e Ethan – uma obra repleta de pontos altos e sem qualquer nota destoante, não custa lembrar. É possível entender a produção como uma espécie de meditação triste sobre os excessos quase surreais de violência que existem no mundo moderno (muito embora as seqüências esparsas de violência sejam extremamente gráficas e sangrentas). Além disso, a forma clássica como o filme é narrado, através de uma montagem brilhante que se apoia na justaposição de imagens simples e dispensa as palavras, cria um subtexto metalingüístico muito interessante. “Onde os Fracos Não Têm Vez” também funciona como lamento da morte iminente da narrativa cinematográfica.

Esta atmosfera de nostalgia está incorporada ao narrador. O xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones, num papel muito semelhante ao que fez em “Três Enterros”) é um nostálgico de carteirinha. Ele sabe que sua época já passou, e está vivendo num tempo que não compreende. O cenário da ação – as estradas semi-abandonadas da região fronteiriça com o México, pontuadas pelos típicos motéis vagabundos de terceira categoria – reforça ainda mais esta sensação de desesperança, de mal-estar da civilização. O fato de possuir poucos diálogos e menos humor negro do que o normal, para um título dos irmãos Coen, acentua ainda mais esta qualidade melancólica do filme. A atmosfera permanente é de cansaço, de exaustão. A sensação de estar no fim da linha.

Toda a ação gira em torno de uma negociação mal-sucedida envolvendo drogas e US$ 2 milhões. Por uma série de coincidências, as jornadas de três homens vão se cruzar em torno deste negócio frustrado. O soldador Llewelyn Moss (Josh Brolin) encontra o cenário de uma chacina, no meio do deserto, durante uma caçada. Ele descobre uma mala com o dinheiro, e decide mantê-la. A decisão põe em seu encalço o assassino profissional Anton Chigurh (Javier Bardem), um psicopata com cabelo de fã dos Beatles. Investigando o caso está o já citado Ed Tom Bell. Os três se embrenham numa tripla perseguição que, como nos velhos faroestes de Anthony Mann, tem mais a ver com a ética peculiar dos criminosos românticos do que com o dinheiro em si.

Os dois primeiros atos são simplesmente perfeitos, sensacionais, irretocáveis. A ação é dinâmica e incessante, mas muito silenciosa. O segundo ato até parece um filme mudo (e não contém quase nenhuma exposição, algo raro e elogiável), narrado de forma extremamente cinematográfica. Lembra um pouco, talvez, a legendária cena do roubo da joalheria em “Rififi” (1955). O excelente roteiro, assinado pelos dois diretores, modula o suspense na medida certa, utilizando a edição de som de maneira espetacular. Observe, por exemplo, como o ruído do receptor de ondas sonoras, que o personagem de Bardem carrega consigo, aperta e afrouxa a tensão de maneira fascinante, na assustadora seqüência do tiroteio dentro do motel.

Funcionando como mero elemento de ligação entre as incríveis seqüências mudas, os diálogos ganham ainda mais relevância quando surgem. Os irmãos Coen aproveitam esta economia de palavras e saciam as mais altas expectativas, criando diálogos geniais, repletos de ironia e humor mordaz, Uma cena brilhante está entre os grandes momentos de Bardem, em atuação absolutamente fantástica, aterrorizante por trás de um ridículo penteado em franja. Trata-se da reação incomum de Chigurh a uma pergunta banal (“será que vai chover para onde você está indo?”), feita pelo vendedor de uma loja de conveniência. Aliás, as moedas que o matador carrega no bolso, e usa constantemente, são objetos cênicos que encapsulam com perfeição o tema do longa-metragem – o papel preponderante das coincidências no destino dos homens.

Um das surpresas da produção é a participação de Josh Brolin, ator que parecia condenado ao mundo das produções de segunda categoria em Hollywood. Ele teve que vencer a desconfiança dos irmãos Coen, que não queriam sequer vê-lo num teste em carne e osso, enviando um vídeo gravado nos bastidores de “Planeta Terror”, de Robert Rodriguez (o favorito dos Coen era o finado Heath Ledger, mas ele acabou por recusar o convite). Surpreendentemente, Brolin convence perfeitamente em um papel taciturno, que exige mais da expressão corporal do que da capacidade de recitar os diálogos que o filme quase não tem (e que, não custa repetir, são maravilhosos quando aparecem, como no encontro entre Chigurh e o caçador de recompensas interpretado por Woody Harrelson).

“Onde os Fracos Não Têm Vez” guarda muitos elementos dos melhores filmes de Joel e Ethan Coen, mas também marca a entrada dos irmãos numa fase diferente, mais madura, da carreira. Saem a vitalidade, o humor ferino e a visão de mundo surreal (a fotografia de Roger Deakins, sóbria e discreta, reflete esta alteração visualmente). Entram o tom de cansaço e a nostalgia, já citados anteriormente. E permanecem o tema central, o ótimo ouvido para sotaques (ambientar a trama no meio-oeste dos EUA e lançar à região um olhar pitoresco é, além de normal no cinema dos Coen, uma maneira de injetar um leve molho de absurdo) e a forte sensação de que os Coen estão se transformando em críticos silenciosos das idiossincrasias da vida moderna, dois caras antiquados que vivem num mundo tecnológico e violento, mas compreendem que não há o que fazer para mudar esta situação. Só lhes resta lamentar – e que belo lamento é “Onde os Fracos Não Têm Vez”.

Apesar do Oscar e do sucesso de crítica, o filme está longe de ser unanimidade. Boa parte dos detratores, contudo, se apóia em duas decisões narrativas que julga equivocadas (a partir deste ponto, vale um aviso de spoiler: quem não viu o filme deve parar por aqui!). A primeira é a ousadia de eliminar a cena que seria, num thriller comum, o clímax da história – o encontro explosivo entre perseguidores e perseguidos, que uma elipse sensacional e inesperada elimina da trama. Pois bem: a decisão de privar o público da explosão de violência que ocorre neste momento apresenta coerência asboluta com o tema do filme, que é justamente o excesso de violência.

Da mesma forma, a cena derradeira, que mostra o xerife narrando um sonho que teve com o falecido pai, soa incompreensível para muita gente. Para entendê-la, é preciso lembrar da abertura, com a cansada narração em off do mesmo personagem, afirmando não entender mais o mundo em que vive. O sonho que ele conta, apesar de não parecer ter relação com a história, na verdade apresenta uma leitura bastante original que, mais uma vez, se ajusta ao tema da violência desmedida. Desta forma, os diretores não apenas reafirmam a originalidade do longa como, de quebra, ainda criam uma rima interessante entre o início e o final da obra.

O DVD, lançado pela Paramount, traz o filme com qualidade boa de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolb Digital 5.1). Os extras incluem making of (24 minutos), um mini-documentário sobre o personagem do xerife (6 minutos) e outro sobre o trabalho dos irmãos diretores (8 minutos).

- Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Man, EUA, 2007)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: Javier Bardem, Josh Brolin, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson
Duração: 122 minutos

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10 comentários
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  1. Olá Rodrigo,
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    Geralmente concordo com suas críticas e, antes de ir à locadora, sempre dou uma passadinha por aqui. Desta vez, contudo, não curti a indicação.
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    Para mim, o filme só não foi uma decepção completa pela atuação do Bardem, que é um ator acima da média. Aliás, apesar de não ter gostado da trama, Bardem subiu ainda mais no meu conceito, por desenvolver um tipo consistente, mesmo com um tubo de gás a tiracolo…
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    Já a participação de Harrelson foi uma “ponta”, sem qualquer contribuição ao roteiro.
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    E Tommy Lee, o que dizer? Mais um policial/xerife/delegado pra coleção. Vai acabar virando um Charles Bronson, fazendo detetives septuagenários.
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    Aquele diálogo final, sobre sonhos e cavalos, foi maçante, descartável e principalmente frustrante, por ver que o filme acabava sem nada acontecer entre os protagonistas.

  2. Cássio, são observações inteligentes, embora eu discorde delas. Considero o filme impecável, em parte, justamente por “driblar” a expectativa criada a respeito de um confronto entre os antagonistas. Se tivessem feito isso, os irmãos Coen teriam entregado justamente o que o público esperava, além de promover um banho de sangue (lembre-se que o filme é um libelo contra a violência desmedida). Ao contrário, eles optaram por criar uma elipse desnorteante. Quanto ao diálogo final, em que pese quase todo mundo ter a mesma opinião que você, considero um toque de mestre. Para mim, faz total sentido. É um sonho que encerra (de forma indireta) o raciocínio criado pelo mesmo homem, o xerife, na abertura do filme – sobre a violência incompreensível e o rumo que ele próprio poderia tomar, face ao mundo que se torna cada vez mais incompreensível.

  3. este filme é perfeito. o final é genial, hiper pertinentes os comentários do rodrigo, o filme é simplesmente kubrickiano.
    sem mais.

  4. Barden esta incrível, que os Coen beijem seus pés. Todos os oscarizados dos últimos anos ganham uma grande luminosidade, mas caem na escuridão nos anos seguintes. Isso vai acontecer com esse filme.

  5. o problema do final é que ele funciona melhor escrito num livro do que visto num filme.
    se as frases filosóficas do final fossem antes da cena em que javier bardem sai vagando da cena do acidente (esta, sim, uma cena digna de encerrar um filme dos coen) eu teria apreciado ainda mais esse filmaço.
    os coen nunca precisaram colocar suas críticas à sociedade na boca de nenhum personagem, porque, como poucos cineastas, eles traduziram suas idéias em imagem em movimento, em cinema (e muitas vezes em diálogos excepcionais, porém sem a menor intenção de passar mensagem). achei que, no final, ficou um tanto forçado.

  6. É demais para minha bruta ignorância. Fiquei com a mesma sensação do personagem do Tommy Lee Jones: decepção e frustração pela “impunidade” do “vilão”. Se essa era a intensão dos irmãos Coen, acertaram no alvo, Rodrigo. Mas para nós (pobres colonizados da cultura norte-americana), que sempre estivemos acostumados com filmes de clímax expolsivo, o personagem do Javier Bardem poderia ao menos ter escorregado numa casca de banana e rachar o côco numa quina de calçada.
    O filme foi feito para deleite dos críticos ( veja como você basicamente frisa aspectos técnicos/filosóficos): “segundo ato é um filme mudo”, “lamento da morte iminente da narrativa cinematográfica”, e por aí vai. Até a tradução do titulo do filme é frustrante. Deveria se chamar “Onde os sem-sutileza não têm vez”. Eu sou um deles — e neste caso, sem nenhum constrangimento.

  7. A opção por não mostrar a morte de Moss é perfeita.
    Até porque ele não foi morto por Chigurh. Sendo assim, como não ocorreu o tão esperado embate entre os dois, não foi preciso mostrar seu assassinato.
    E outra: o importante não era a perseguição, muito menos a maleta, mas sim, os valores de cada personagens quando defrontados com uma situação limite como esta.
    É o “anti-clímax”, que os Coen inventaram de forma genial.

  8. Sou apenas um cidadão que tenta ser honesto consigo mesmo. Gosto de arte que me atinte prioritariamente a alma, não o cérebro.
    O filme é como sexo: tem preliminares, tesão, mas sem orgasmo. E sexo é pra ser praticado, não pensado (o nosso corpo que o diga).
    Ao tirar o fator CATARSE, os irmãos Coen castraram o filme em nome de uma originalidade estéril. Ou seja, essa pequena tentativa de reinventar a roda não dará frutos, muito menos virará regra. Ainda bem.
    O ponto alto dos diretores ainda é “O homem que não estava lá”.

  9. Um filme diferente e com uma atuação impecável de Javier Bardem!

  10. Onde os velhos não têm vez é um livro estonteante de Cormac McCarthy, um escritor americano talentosíssimo (A Estrada é outro livro fabuloso, que virou um filme menor, e meu sonho de consumo é Meridiano de Sangue virar filme nas mãos dos irmãos Coen).
    Concordo em tudo com o Rodrigo: uma bela história não tem que ser resolvida. Essa desilusão, essa incapacidade de o ser humano vencer a violência que ele mesmo produz é marca característica da obra de McCarthy, e os irmãos Coen seriam traidores se terminassem o filme com vingança, prisão, justiça, ou o que quer que seja. Chigurh é o Juiz Holden de Meridiano de Sangue, um Moby Dick: o inimigo invencível, superior em todos os atributos, sobrehumano, quase um deus. Não é um xerife que vai derrotá-lo. A este xerife cabe apenas a tarefa de compreendê-lo e lamentar pelas gerações vindouras, que ainda gerarão muitos outros Chigurh.
    Parabéns pela crítica, Rodrigo. Fiquei com vontade de reler o livro e rever o filme.

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