Ônibus 174

18/03/2005 | Categoria: Críticas

Longa reportagem em forma de documentário revisita tragédia carioca de forma profunda e comovente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Ônibus 174”, um dos mais contundentes documentários da safra 2002 no Brasil, cumpre o duro papel de puxar o espectador desavisado de volta à realidade social do País. O longa, dirigido pelo estreante José Padilha, provoca raiva, aflição, indignação. Oferece um panorama social acurado e, por que não dizer, desolador do Brasil contemporâneo. É uma espécie de “Cidade de Deus” sem humor, sem glamour, sem atores. Assisti-lo é (ou deveria ser) uma espécie de dever cívico de cada brasileiro. Ainda que menos por méritos cinematográficos e mais pelo conteúdo social.

O filme trata de um episódio especialmente marcante de violência cotidiana: o seqüestro de um ônibus lotado em plena zona sul (um dos espaços urbanos mais chiques) do Rio de Janeiro. O episódio, ocorrido na tarde do dia 12 de junho de 2000, durou pouco mais de quatro horas. Poderia ter sido apenas mais um ato de violência urbana a cair na vala comum do esquecimento, se não tivesse sido transmitido, ao vivo e em cadeia nacional, para todo o Brasil. Ao todo, 60 milhões de espectadores pararam para assistir ao teatro de violência promovido pelo ex-menino de rua Sandro do Nascimento, então com 22 anos. O rapaz manteve duas dezenas de passageiros sob a mira de um revólver, com o ônibus estacionado na rua e cercado por duas centenas de policiais militares.

“Ônibus 174” reconstitui minuciosamente a tragédia. O diretor José Padilha opta por uma investigação à moda jornalística, procurando dar voz a todos os lados da questão (policiais, meninos de rua, sociólogos, reféns) e tentando manter alguma distância crítica, sem julgamentos morais ou éticos daquilo que é visto. Mas também vai mais longe do que uma simples reportagem, porque busca em duas linhas alternativas de narrativa, que são intercaladas à reconstituição do seqüestro em si, a contextualização da história de Sandro dentro de um panorama mais amplo da violência em território nacional. Ou seja, faz uma reportagem extensa e bem apurada.

A primeira narrativa paralela reconstitui a trajetória do seqüestrador. A biografia do rapaz realmente impressiona: era um menino de rua que viu a mãe ser assassinada a facadas, aos seis anos, e depois sobreviveu ao massacre na igreja da Candelária, em 1992, na noite em que policiais à paisana mataram oito crianças que dormiam nas escadarias do local. O trabalho jornalístico é correto. José Padilha ouve vários amigos que perambulavam com Sandro na época, parentes, vai atrás da ficha criminal do rapaz, visita os lugares onde ele esteve preso.

Na segunda linha secundária de narrativa, o esquadro se amplia e o filme assume um tom claramente mais ambicioso, numa tentativa de explicar a existência de casos como o de Sandro dentro de um contexto social abrangente. Tudo isso é feito com coragem. A tese-chave do filme parece ser narrada pelo sociólogo e ex-secretário de Segurança do Rio, Luiz Eduardo Soares: a sociedade está imersa num contraditório fenômeno em que produz ela mesma a miséria e tenta criar formas – algumas pacíficas , outras violentas – de varrê-la para baixo do tapete, transformando excluídos em homens “invisíveis”. As cenas em que os motoristas cariocas ignoram solenemente as crianças pedintes, tão banais, soam dilacerantes. Todo cidadão de classe média passa por isso diariamente. Fingimos que não vemos os garotos que passam ao lado do carro, a cada avenida, a cada sinal. São fatos corriqueiros (e lamentáveis) em qualquer grande cidade nacional.

Tudo isso são méritos do filme, mas há problemas. “Ônibus 174” resulta muito longo. A reconstituição parece excessiva e enfatiza um clima de suspense que poderia não existir – a função do filme é menos narrativa e mais de denúncia, certo? As imagens, amplamente conhecidas, acabam diluídas em meio a um emaranhado de depoimentos que se entrelaçam. Individualmente, são entrevistas articuladas e interessantes, mas perdem impacto quando apresentadas coletivamente. José Padilha ainda tenta imprimir um tom detetivesco à narrativa, segurando até o fim a conclusão dos fatos (já conhecida). Pior: não explica, e nem tenta, como o seqüestro começou. Autoridades policiais de alta patente, bem como políticos, também não são ouvidos. Certamente não quiseram falar, mas isso não é dito ao espectador em momento algum.

O uso da música também resulta meio equivocado. Se o filme é narrado em tom sóbrio, há várias seqüências em que tenta emocionar o espectador a partir da combinação de imagens violentas com canções tocantes. Nada disso era necessário, pois a brutalidade teima em pipocar na tela. Há um punhado de momentos realmente chocantes em “Ônibus 174”, momentos que enfatizam o abismo social que divide uma classe média assustada, acuada, e uma periferia violenta, sem esperança. Nesse sentido, o filme cumpre o objetivo, descortinando o processo de construção da “estratégia de invisibilidade” montada, inconscientemente, pela própria burguesia. É essa estratégia que nos faz aceitar uma polícia ineficaz, desaparelhada, destreinada e violenta, posta em xeque (novamente) pelo filme.

O melhor momento, porém, está nas cenas e depoimentos em que explica o comportamento dúbio do seqüestrador. Para as câmeras de TV, Sandro vira um perfeito demônio; está apenas atuando, algo que os depoimentos dos reféns deixam claro. Dentro do ônibus, ele encenou várias situações de violência e chegou a simular o assassinato de uma garota. São lembranças impressionantes, que atingem o nervo ciático do problema: o papel da mídia, especialmente da televisão, na perpetuação dessa violência física, moral e espiritual perpetrada pela classe média contra os moradores da favela. A mídia espetaculariza a violência, e mesmo aqueles que não sabem soletrar essa palavra, como Sandro, sabem o que isso significa. Pode-se até discutir a linguagem de “Ônibus 174”, mas não o conteúdo.

Premiado em vários festivais ao redor do mundo, o filme de José Padilha levou três anos para aperecer no mercado de home vídeo. A distribuidora LK-Tel lança o disco com falhas grotescas. Para começar, a versão tem 15 minutos a menos do que a exibida no cinema. Além disso, perde também as legendas nos trechos em que o seqüestro é mostrado ao vivo (o áudio é incomprrensível) e os créditos que informam o papel de cada entrevistado no caso. A LK-Tel reconhece a mancada e promete lançar a versão integral do produto, com comentário em áudio do diretor e cenas cortadas, nos próximos meses.

– Ônibus 174 (Brasil, 2002)
Direção: José Padilha e Felipe Lacerda
Documentário
Duração: 133 minutos

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