Onze Homens e Um Segredo

30/09/2004 | Categoria: Críticas

Steven Soderbergh tira férias, vai para Las Vegas e filma história de roubo impossível da maneira que um mágico faria

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Os críticos de cinema contemporâneos de Alfred Hitchcock não iam muito com a cara dele. Embirravam com o fato de que seus filmes não eram ideológicos. Mas a recíproca também era verdadeira. O autor de “Janela Indiscreta” não dava a mínima para os detratores. Sua máxima estava estampada numa frase célebre: “Não quero que meus filmes sejam pedaços de vida, prefiro que sejam vistos como deliciosos pedaços de bolo de chocolate”. Essa é a melhor definição para “Onze Homens e Um Segredo” (Ocean’s Eleven, EUA, 2002), de Steven Soderbergh.

Paradoxal, nesse caso, é que um dos bolos de chocolate mais deliciosos de 2002 tenha saído das mãos de um “confeiteiro” verborrágico e engajado. Pois é. O mesmo homem capaz de esmiuçar agudamente o elemento voyeur e a superficialidade dos relacionamentos atuais (“Sexo, Mentiras e Videotape”) e o complexo encandeamento de causas e conseqüências – sociais, econômicas e familiares – do mundo das drogas (“Traffic”) também gosta de tirar pausas para o recreio. “Onze Homens e Um Segredo” é uma obra-prima da despretensão com cérebro, a prova de que um filme pode ser intrincado e relaxante ao mesmo tempo.

Para aproveitar cada um dos 117 minutos de “Onze Homens e Um Segredo”, tente fazer um favor a si mesmo e esqueça o elenco multimilionário que pipoca na tela. Não consegue? Tudo bem, nem eu. Então vamos lá. George Clooney, amigo de Soderbergh desde o policial “Irresistível Paixão”, atuou como catalizador do “brinquedo” cinematográfico. Comprou o roteiro, convenceu Soderbergh a fazer o filme (quando o cineasta disse que queria tirar férias, Clooney sugeriu que não havia férias melhores do que comandar uma grande farra de três meses em Las Vegas). Depois, ainda negociou a participação dos atores milionários.

Se Brad Pitt e Julia Roberts no mesmo filme já simboliza muito dinheiro, calcule quanto seria gasto para juntar a eles o próprio Clooney, Matt Damon, Andy Garcia e mais um punhado de colegas talentosos e menos conhecidos, como Don Cheadle. Resposta: nada. Pelo menos adiantado. Todo mundo trabalhou em troca de percentagens de bilheteria, algo raro em projetos de estúdio. Esse, contraditoriamente, é o maior ponto negativo do projeto, pois a Warner centrou o marketing em cima do elenco multimilionário e esqueceu de valorizar a grande estrela do filme, que é o roteiro. Por isso, muita gente menosprezou a obra sem ao menos se dar ao trabalho de conferi-la. Pena: não dá para imaginar diversão descerebrada mais estimulante do que “Onze Homens e Um Segredo”.

A trama é muito simples – e o poder de sedução do filme vem daí. Um bandido charmoso (Clooney, interpretando o canalha de sempre) sai da prisão com um plano audacioso: assaltar o cofre dos três maiores cassinos de Las Vegas e, de quebra, reconquistar a ex-mulher (Roberts), agora casada com o dono dos estabelecimentos (Garcia). Para pôr o intrincado plano em prática, ele reúne onze ladrões de personalidades inteiramente diferentes. Pronto, você não precisa saber mais.

Soderbergh conduz o filme com mão de veterano. Os diálogos, sempre econômicos, exalam ironia por todos os poros. A trilha sonora é sublime, uma coleção impecável de soul e funk dos anos 1970. A fotografia (novamente de Soderbergh, sob o psedônimo de Peter Andrews, algo que ele já havia feito em “Traffic”) carrega nas cores quentes – especialmente no vermelho e no laranja, típicas da Cidade do Néon. Tudo perfeito, sem exageros, para não retirar a atenção do enredo.

Na segunda metade do filme – que começa curto, engraçado e promissor – vem o melhor de tudo. Numa declaração velada de amor ao cinema, Soderbergh assume o papel de mágico e orquestra um brilhante truque de prestidigitação. Em outras palavras, ele utiliza um artifício que anda cada vez mais raro nos dias de hoje: faz com que o espectador saiba menos do que os protagonistas, mas sem deixar que a platéia perceba essa ignorância. Aliás, abençoada ignorância! Dessa maneira, nada do que você vê na tela é exatamente aquilo que parece ser, e a surpresa no final da projeção aparece, genuína e inevitável. O resultado final é muito inteligente, empolgante mesmo.

Como a vida nem sempre é cor-de-rosa, a Warner se encarregou de pisar na bola. Em DVD, um formato que preza especialmente pela fidelidade ao original, o Brasil não ganhou versão em widescreen. O filme está em tela cheia, que corta as imagens na lateral. Os dois comentários em áudio (um com os atores Matt Damon, Andy Garcia e Brad Pitt, e o outro com Soderbergh e o roteirista Ted Griffin) estão lá, mas sem legendas. Há ainda dois documentários, um estilo making of (15 minutos) bem trivial, e outro (10 minutos) sobre o figurino dos atores. Ou você acha que Brad Pitt já chega no set daquele jeito cool?

Onze Homens e Um Segredo (Ocean’s Eleven, EUA, 2003)
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Julia Roberts, Andy Garcia, Don Cheadle
Duração: 117 minutos

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