Operação Valquíria

17/06/2009 | Categoria: Críticas

Polêmico e bem feito, melodrama de guerra de Bryan Singer distorce deliberadamente fatos da história da II Guerra

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Não dá para negar: Bryan Singer cultiva uma obsessão pela II Guerra Mundial, particularmente pelo Holocausto. Esse período histórico já havia sido abordado de forma periférica em duas produções anteriores do cineasta, “O Aprendiz” (1998) e o primeiro “X-Men” (2000), ambas torturando o ator britânico Ian McKellen com memórias traumáticas das batalhas na Europa. Em “Operação Valquíria” (Walkyrie, EUA/Alemanha, 2008), Singer finalmente mergulha nessa obsessão pessoal e a traz para o centro do palco, em um melodrama que distorce deliberadamente detalhes históricos reais e se junta a um movimento cinematográfico internacional (e provavelmente involuntário), exemplificado por filmes como “A Queda” (2004) e “O Leitor” (2008), que tenta humanizar os carrascos nazistas.

“Operação Valquíria” trata de um caso real, ocorrido em 1944. Na ocasião, um grupo de oficiais do exército alemão (chamado Wermacht) elaborou e executou um plano para assassinar Hitler, tomar o poder na Alemanha e acabar com a guerra. A história nos mostra que o plano fracassou; seus executores quase conseguiram o objetivo, mas foram descobertos e fuzilados, dando ao ditador a chance de prolongar o massacre dos judeus europeus por mais um ano, antes de ser finalmente derrotado. Inspirado em velhos thrillers políticos ambientados durante a guerra (“Desafio das Águias”, de 1968), Singer capricha na direção de arte para reconstituir os eventos com o máximo possível de tensão e fidelidade visual. Infelizmente, o mesmo cuidado não foi usado na construção de um perfil historicamente acurado dos principais personagens, em particular o protagonista, o coronel Claus Von Stauffenberg (Tom Cruise).

O Stauffenberg do filme é um ótimo exemplo do modo como o cinema pode distorcer, em ficção, a personalidade de alguém que efetivamente existiu. O nobre alemão tem todas as qualidades de um autêntico herói hollywoodiano. Ele é mostrado na tela como um homem devotado à família, que ama a esposa (Carice Van Houten, de “O Espião”) e os filhos, é moralmente íntegro e tem horror aos atos sanguinários cometidos pela Wermacht. Na vida real, porém, não era bem assim. Stauffenberg participou ativamente da invasão à Polônia, comandou o massacre de milhares de judeus e deixou cartas abertamente anti-semitas. Convenientemente, o filme não cita nenhum desses detalhes embaraçosos a respeito do passado do herói. Auxiliado pelo roteiro de Christopher McQuarrie, o diretor prefere enfatizar – especialmente na segunda metade da produção – os tensos movimentos de bastidores que envolveram a execução do plano.

É verdade Stauffenberg liderou uma tentativa de matar Hitler em 1944, e pagou por isso com a vida. Naquela ocasião, porém, já não era mais segredo que a Alemanha tinha perdido a guerra. Todos os oficiais nazistas sabiam que a derrota era apenas questão de tempo, já que os exércitos russo (pelo leste) e norte-americano/inglês (pelo oeste) avançavam sem parar rumo a Berlim. O coronel alemão e todos os alto oficiais que participaram do complô, portanto, não estavam procurando salvar vidas. Queriam evitar a destruição física do país, preservar a população civil que lá residia (basicamente ariana, inclusive as próprias famílias) e, obviamente, salvar a própria pele. O quanto de heroísmo existe neste ato?

Num artigo demolidor a respeito de outro filme (“O Leitor”), o historiador Ron Rosembaum, um dos maiores especialistas do mundo em estudos sobre o Holocausto, raciocina com simplicidade a respeito desse suposto heroísmo. Para ele, se Stauffenberg e os demais oficiais nazistas tivessem formado o complô em 1941 (quando a Alemanha estava em vantagem e parecia estar perto de ganhar a guerra), o ato seria revestido de verdadeiro heroísmo. Pois bem: nada – nem uma vírgula desta discussão – está no filme. Bryan Singer demonstra habilidade técnica no manejo das ferramentas narrativas do cinema, da escalação de atores à escolha do estilo de fotografia para cada uma das duas metades do filme, mas jamais usa essa expertise para construir uma obra sólida e articulada. “Operação Valquíria” é um thriller raso. Só isso.

Synger usa a seu favor o olho privilegiado para composições visuais grandiosas. Com orçamento de US$ 80 milhões e filmagens agendadas em muitos dos locais verdadeiros onde os eventos históricos ocorreram (a cena da execução dos integrantes do complô, por exemplo, foi filmada na praça real onde o evento ocorreu), o cineasta foi capaz de reconstituir o período histórico com incrível atenção aos detalhes. Até mesmo os móveis reais que ficavam na residência de inverno de Hitler foram usados. Cenários como a piscina onde nada o oficial responsável pelo exército de reserva da Alemanha (Thomas Krestschmann), decorada com uma enorme suástica negra sob o azul límpido dos azulejos, demonstram o quanto a equipe se desdobrou para reconstituir fielmente a suntuosidade das construções nazistas.

A fotografia de Newton Thomas Sigel segue um planejamento inteligente, apesar de mais ou menos óbvio. Na primeira parte do filme, que focaliza o planejamento do assassinato, a cinematografia é clássica e elegante, com travellings abundantes, movimentos elaborados de câmera e uso constante de gruas. Já a segunda parte (a execução do plano) é quase inteiramente filmada com a câmera na mão, com composições visuais mais espontâneas, menos planejadas, de forma a acentuar a tensão e o suspense do momento. Este trecho é, sem dúvida, o mais interessante do filme, embora parte dessa tensão seja automaticamente dissipada pelo fato de que conhecemos o final (pois sabemos que Hitler só se matou em 1945, perto do fim da guerra).

Por fim, a escalação de atores foi feita de forma inteligente, apesar de polêmica. Como não tinha tempo de projeção para desenvolver cada um dos muitos personagens secundários, Synger preferiu escalar muitos atores que já haviam interpretado oficiais nazistas em filmes anteriores (casos de Christian Berkel e Thomas Krestschmann, sendo que este último já tem 10 oficiais do exército alemão no currículo). Deste modo, cada ator traz um pouco de sua história pregressa para seu papel, o que facilita o reconhecimento dos rostos por parte do público. Por outro lado, a decisão de escalar prioritariamente atores britânicos (Bill Nighy, Terence Stamp, Kenneth Branagh) para os papéis de conspiradores, deixando os “vilões” nazistas nas mãos de alemães, cheira a preconceito da pior espécie, pois sugere que entre os “nazistas bonzinhos” só havia estrangeiros.

O DVD da Fox Filmes é simples, respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e traz áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Operação Valquíria (Walkyrie, EUA/Alemanha, 2008)
Direção: Bryan Singer
Elenco: Tom Cruise, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Terence Stamp
Duração: 120 minutos

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