Operário, O

13/07/2005 | Categoria: Críticas

Imagem arrasadora de Christian Bale esquelético marca suspense paranóico e visualmente sombrio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Trevor Reznik é um homem que vive no limite da sanidade. Durante o dia, ele trabalha como metalúrgico em uma fábrica, operando máquinas pesadas. À noite, vaga pela cidade como um fantasma. Trevor sofre de insônia crônica e não consegue dormir há mais de um ano. Por causa dessa condição, emagrece violentamente. Apesar disso, Trevor leva a vida em frente com bom humor surpreendente para alguém em condição física tão deprimente. Pelo menos até uma série de eventos inexplicáveis começarem a acontecer. “O Operário” (The Machinist, Espanha, 2004) investiga o estado mental dessa personalidade atormentada, inserindo essa investigação no contexto de uma trama de suspense intrincada.

O personagem-título fornece uma das imagens mais impressionantes já mostradas em um filme. Para viver Reznik, o ator norte-americano Christian Bale se submeteu a uma das dietas mais rigorosas de que se tem notícia. Passou três meses comendo apenas uma lata de atum e uma maçã por dia. Perdeu 28 quilos e ganhou a silhueta de um sobrevivente de campo de concentração, fazendo o corpo franzino de Tom Hanks em “Náufrago” parecer o de um lutador de sumô. A impressionante imagem da degradação física deste homem, somada ao talento dramático do ator, coloca Trevor Reznik na posição de um dos personagens mais sombrios, mais devastados (tanto física quanto emocionalmente), que o cinema já foi capaz de mostrar.

“O Operário” não existiria sem Christian Bale. É verdade que o diretor Brad Anderson (do inteligente romance “Próxima Parada Wonderland”) trabalhou meticulosamente na parte técnica, com resultado muito bom na cenografia, na iluminação e na trilha sonora. Mas não há como dissociar o filme da imagem de um Christian Bale esquelético. “Se você emagrecesse mais, desapareceria”, diz, a certo momento, a prostituta Stevie (Jennifer Jason Leigh), com quem Trevor arma encontros ocasionais. Não é figura de linguagem. Tanto é verdade que os produtores do longa-metragem obrigaram o ator a interromper o regime ao alcançar os 58 quilos. Segundo o plano original, Bale começaria a filmar quando chegasse aos 49, mas a nutricionista que acompanhava o regime teve medo de que a saúde dele sofresse alguma complicação mais grave.

Para a platéia, não há nenhuma dificuldade em entrar no clima depressivo do filme. Quando vemos o estado físico arrasador em que se encontra Trevor Reznik, acreditamos automaticamente na realidade do filme. “O Operário” é narrado em flashback. Na primeira cena, Reznik carrega um cadáver enrolado em um tapete para jogá-lo no mar. Na seqüência, o filme retorna no tempo (não há narração em off e nem legendas que expliquem o quanto). É noite, e Trevor divide a cama com Stevie. Eles têm uma relação de amizade, muito mais próxima do que o típico caso da prostituta e seu cliente. Stevie gosta de Trevor, se preocupa com ele. “Não ligue, ninguém nunca morreu de insônia”, sorri ele.

Nenhum personagem faz essa pergunta, mas o filme a deixa no ar: embora não seja capaz de matar diretamente um homem, até que ponto a insônia interfere na sanidade mental de alguém? É esse o mote de “O Operário”. O filme se dedica a mostrar o quanto alguém em tal condição pode se tornar paranóico e solitário. Manipulando maquinaria pesada todos os dias, Trevor acaba provocando um acidente que mutila um colega de trabalho. Pior do que isso: todos os demais colegas de trabalho lhe dizem que o enigmático Ivan (John Sharian), com quem ele bate papo nos intervalos, não existe. Trevor desconfia de um complô para enlouquecê-lo. Mas quem estaria armando contra um homem tão alquebrado?

Ivan é uma figura assustadora. Careca, óculos escuros, dentes enormes e um dedão do pé implantado cirurgicamente no lugar do polegar (“nunca mais consegui jogar cartas do mesmo jeito”, diz ele), o sujeito está sempre por perto. Ao mesmo tempo, o operário começa a encontrar bilhetes com mensagens cifradas pregados na geladeira de casa. Seu apartamento não é mais um lugar seguro. Quem diabos é Ivan? Qual o papel do chefe, que não tem pudor de afirmar a Trevor que ele está na sua lista negra, na trama? E o estranho Miller (Mark Ironside), que parece contente por estar mutilado?

Os únicos locais onde Trevor se sente em paz são a casa de Stevie, para onde começa a ir com mais freqüência, e uma lanchonete 24 horas no aeroporto local, onde Trevor bate ponto todas as madrugadas, para comer torta e tomar café. É lá que Trevor conhece Marie (Aitana Sánchez-Gijon), a simpática mãe divorciada de um menino de 6 anos, que se importa com ele e o convida para sair.

A rigor, “O Operário” é mais um de uma longa lista de filmes que revisita um tema muito familiar nesta virada de século: a fronteira entre realidade e ilusão. Armado com um roteiro inteligente que espalha pistas (Falsas? Verdadeiras?) sobre a natureza do problema de Trevor, o diretor Brad Anderson contou com financiamento e equipe técnica espanhóis para construir o requintado clima de pesadelo que envolve o longa-metragem.

“O Operário” se sai muito bem na tarefa de dar vida ao mundo paranóico de Trevor Riznik, a começar pela excelente trilha sonora de Roque Baños, construída com base na mistura inusitada de theremin (instrumento russo que produz o som lúgubre e agudo das músicas que emolduravam as produções de terror da Hammer, nos anos 1960, e foi reutilizado com exímia perfeição por Howard Shore em “Ed Wood”, de Tim Burton) e percussão.

Os cenários decrépitos, caóticos e urbanos são perfeitos. A iluminação, repleta de tons azulados e cinzentos, valoriza áreas de sombra para deixar tudo ainda mais misterioso. Quase toda a ação se passa à noite ou em interiores, outra escolha acertada. A fotografia de Xavi Giménez (responsável pelos sombrios thrillers espanhóis “Intacto” e “Darkness – A Sétima Vítima”) e Charlie Jiminez escolhe ângulos exóticos sempre que pode; preste atenção nas tomadas feitas na cozinha de Trevor, quase sempre mostrada de cima para baixo. Toda a parte cenográfica revela uma influência evidente dos filmes do expressionismo alemão, como se “O Gabinete do Dr. Caligari” tivesse sido refilmado pela ótica pós-moderna de David Fincher.

O nome de Fincher é fundamental para chegar ao âmago de “O Operário”. Como personagem, Trevor Reznik evoca imediatamente Jack, o protagonista de “Clube da Luta”, já que ambos sofrem de um problema semelhante (insônia aguda) e apresentam degeneração física decorrente desse problema. “O Operário” também possui o ar urbano de “Seven”, primeiro grande trabalho de Fincher, e a estrutura de seu roteiro é repleta de pistas que devem ser recolhidas e interpretadas pelo espectador, à moda de “Vidas em Jogo”, mais um projeto de Fincher.

Só que Brad Anderson não é David Fincher. Onde o mestre triunfou – os roteiros dos três filmes citados são excepcionais, cada um à sua maneira – o pupilo escorregou. É verdade que, longe dos braços de Hollywood, Anderson pôde visitar lugares que Fincher não conseguiu; é impossível acreditar que a Fox (que produziu “Clube da Luta”) bancaria um filme cujo protagonista tivesse a silhueta de um etíope esfomeado. Mas faltou ao cineasta inventividade para elaborar um final menos moralista, bobo e, até certo ponto, previsível. A decepção no final quebra um pouco a magia de “O Operário”, embora não conspurque seus méritos: este é um dos filmes mais corajosos de 2004.

O DVD, da Paramount, contém comentário em áudio do diretor, um documentário de bastidores (30 minutos) e oito cenas excluídas (ou mais longas, algumas com comentário). O formato de vídeo é original (widescreen anamórfico), e há três trilhas de áudio (inglês, português e espanhol) em Dolby Digital 5.1.

– O Operário (The Machinist, Espanha, 2004)
Direção: Brad Anderson
Elenco: Christian Bale, Jennifer Jason Leigh, Aitana Sánchez-Gijon, John Sharian
Duração: 102 minutos

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