Orfanato, O

15/12/2008 | Categoria: Críticas

Mesmo carecendo de originalidade, filme espanhol cria tensão, atmosfera sinistra e prega um par de sustos de arrepiar os cabelos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Outrora chamado pejorativamente de “Peter Jackson latino”, por causa do visual gorducho e da predileção por temas fantásticos, o mexicano Guillermo Del Toro aproveitou a ascensão ao primeiro time da indústria cinematográfica para seguir os passos do colega mais famoso em outra seara. Agora, além de diretor talentoso, Del Toro virou produtor. A estratégia consiste em emprestar o prestígio pessoal, adquirido com o excelente “O Labirinto do Fauno” (2006), para ajudar novatos promissores a filmar longas-metragens com pouca grana e distribuição decente. O horror “O Orfanato” (El Orfanato, Espanha, 2007) é filhote desta estratégia e grafa os letreiros “Guillermo Del Toro apresenta…” logo na abertura, e de modo generoso.

“O Orfanato” marca a estréia em longas-metragens do diretor espanhol Juan Antonio Bayona. Foi feito com pouquíssimo dinheiro, já que boa parte da equipe técnica também fazia o debut na profissão. É um filme de horror à moda antiga, que aposta em atmosfera de tensão e fotografia escura para meter medo. Contando com as preciosas dicas de Del Toro, que também conseguiu um contrato decente de distribuição do filme nos Estados Unidos, Bayona conseguiu realizar uma história simples e tensa, manipulando uma série de convenções do gênero e reciclando elementos de filmes de horror clássicos e contemporâneos, incluindo “Os Inocentes” (1961) e “O Chamado” (2002). O resultado não chega a surpreender pela originalidade, mas alcança o efeito mínimo que se espera de bons trabalhos do gênero, cada vez mais raros: gruda o espectador na cadeira, o mantém sob permanente estado de tensão e lhe prega pelo menos um par de sustos de arrepiar os cabelos.

A história é narrada do ponto de vista de Laura (Belén Rueda). Ele é uma mulher bem-sucedida profissionalmente que retorna ao orfanato onde passou a infância e decide montar, na velha mansão, um serviço de atendimento para garotos com problemas mentais. Laura vive um casamento feliz. Ela e o marido (Fernando Cayo) criam um menino adotado (Roger Príncep) e soropositivo. Solitário, o garoto encontra companhia em dois amigos invisíveis. Depois que a família chega à mansão, o grupo de coleguinhas imaginários do pequeno Simon cresce ainda mais, enquanto o relacionamento dele com os pais começa a apresentar problemas. Quando Simon desaparece misteriosamente, após uma discussão, Laura desconfia que alguns eventos estranhos presenciados por ela podem ter relação com o passado do orfanato, e decide investigá-lo.

Em uma avaliação apressada, incomoda a grande quantidade de elementos gráficos e/ou narrativos reciclados de filmes de horror mais famosos. Além dos já citados “Os Inocentes” (a forma como a mansão é fotografada, a dinâmica entre personagens adultos e infantis) e “O Chamado” (um farol, crianças estranhas que podem ou não ser fantasmas), Bayona busca inspiração em “Os Outros” (a médium, os figurinos), “Água Negra” (desenhos infantis sinistros) e “O Sexto Sentido” (aumento do frio como indicativo de possível atividade sobrenatural). O próprio Del Toro não escapou dessa colcha de retalhos cinematográfica, uma vez que seu “A Espinha do Diabo” também era ambientado em um orfanato com fama de mal-assombrado. Além disso, a iconografia do gênero é explorada à exaustão: portas que batem sozinhas, figuras mascaradas, uma velha sinistra, tempestades e uma trilha sonora insossa e onipresente, que se excede no recurso de sinalizar ao espectador o que ele deve sentir e manipular o volume do áudio para indicar um susto que se avizinha.

A ausência de novidades, aliada à ausência de uma maior elaboração dos personagens mais importantes, é o único grande defeito da produção. Talvez por causa disso, a primeira metade do longa-metragem é mais fraca, recorrendo com insistência a pequenos clichês visuais e narrativos (como a insípida elipse de seis meses, anunciada através de uma reportagem de televisão) e a falsos sustos anunciados pela trilha sonora e não concretizados. A longa e tensa seqüência com a médium (Geraldine Chaplin), porém, aumenta a voltagem emocional da história, e faz o filme crescer bastante. É a melhor cena do filme, foge do óbvio e explora bem a edição de som para construir o maior susto da projeção. É aí que “O Orfanato” finalmente engata uma quarta marcha e empurra o espectador mais para dentro da cadeira.

Pouco importa que o terceiro ato seja bastante inverossímil (a reação do noivo de Laura a um determinado pedido disparatado que ela lhe faz é absolutamente impossível), porque a platéia já está fisgada. Como é hábito no cinema de horror espanhol, Bayona não hesita em criar um final diferente e melancólico, que não dissipa a tensão construída durante o filme e planta na boca da audiência um travo amargo. A cereja no topo do bolo, para os mais atentos, fica por conta das referências à fábula de Peter Pan, muito mais sutis, originais e inteligentes do que as dezenas de citações que homenageiam obras clássicas do gênero (a gruta escavada por baixo do farol, por exemplo, remete ao esconderijo do Capitão Gancho no clássico conto infantil). Graças a essas referências, o final não parece deslocado ou forçado, fazendo bastante sentido.

O DVD da Calífórnia contém apenas o filme, sem extras dignos de nota. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) é boa, e o áudio poderia ser melhor (Dolby Digital 2.0). E edição dupla especial capricha mais no som (Dolby Digital 5.1) e tem um segundo disco com making of e trailer.

– O Orfanato (El Orfanato, Espanha/México, 2007)
Direção: Juan Antonio Bayona
Elenco: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Geraldine Chaplin
Duração: 110 minutos

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