Orgulho e Preconceito

02/08/2006 | Categoria: Críticas

História de amor impossível na Inglaterra vitoriana agrada por leveza e vitalidade juvenil

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Orgulho e Preconceito” (Pride & Prejudice, EUA, 2005) é um filme baseado num dos mais famosos romances de Jane Austen, escritora especialista em mostrar como as convenções sociais sufocavam a vida das mulheres no século XIX, quando viveu. O perfil da autora do romance, bem como de outras produções baseadas em livros que ela escreveu (caso de “O Piano”), podem passar a impressão errada sobre o filme de Joe Wright. “Orgulho e Preconceito” é a história de um amor impossível que possui a pompa das produções sobre a vida das altas classes na Inglaterra vitoriana, mas não é um filme solene ou arrastado; pelo contrário, está cheio de bom humor, charme e vitalidade juvenis.

Classificar a produção como uma espécie de “Bridget Jones” no século XIX não estaria muito longe do resultado final. A protagonista do longa-metragem é Elizabeth “Lizzie” Bennet (Keira Knightley), uma de cinco irmãs de uma família pobre, mas com conexões dentro da burguesia. O sonho da vida da matriarca dos Bennet (Brenda Blethyn) é arrumar bons casamentos para as cinco jovens, todas risonhas e bonitas. Elizabeth é a segunda mais velha das cinco, e também uma moça romântica, mas de opiniões firmes. Ela gosta da idéia de casar, mas acha que isso só deve acontecer com um rapaz que ela ame.

O filme começa quando um jovem burguês se muda para a casa vizinha dos Bennet, que imediatamente armam um baile a fim de apresentar Charles Bingley (Simon Woods) à primogênita da família, Jane (Rosamund Pike). Os dois se apaixonam perdidamente. Ocorre que, junto com Charles, um certo Sr. Darcy (Matthew MacFadyen) comparece à festa. O rapaz é duas vezes mais rico do que o amigo, mas também é um sujeito taciturno e mau-humorado que logo se revela um pernóstico de primeira. “Elizabeth é tolerável, mas não bonita o bastante para mim”, revela ao colega em uma conversa privada. Sentada ali perto, Lizzie ouve o papo por acidente. E jura odiar Darcy para o resto da vida.

Esses acontecimentos tomam conta dos cinco minutos iniciais de “Orgulho e Preconceito”, e telegrafam imediatamente o tema central do filme: um amor impossível entre duas pessoas de classes sociais diferentes, que acham que se odeiam. Sim, você já viu esse filme antes; o Mark Darcy de “Bridget Jones” não possui esse sobrenome por acaso (além disso, ele é descrito no livro como alguém muito parecido com o ator Colin Firth, que interpretou Darcy numa versão televisiva do romance de Austen feita em 1995). Helen Fielding, a autora do livro (e do roteiro do primeiro longa), obviamente homenageou Jane Austen quando deu ao vizinho arrogante da desbocada Bridget o mesmo nome do sombrio desafeto de Elizabeth Bennet.

A grande sacada do filme de 2005 é a leveza com que o enredo batido foi transportado para o cinema. Não estamos diante de um dramalhão romântico, mas de uma comédia de época, um melodrama leve e cômico, repleta de diálogos espirituosos e dinâmicas cenas de baile, onde a coreografia impecável e as longas tomadas sem cortes com a câmera passeando entre os personagens (e captando as diferentes conversas entre eles) garantem que as mais de duas horas de projeção passem rapidamente. Além disso, o bom roteiro de Deborah Moggach garante personagens interessantes, que podem até não ser densos ou profundos (“Orgulho e Preconceito” não tem a intenção de ser levado muito a sério), mas são calorosos e interessantes, e nos fazem torcer por eles.

Lizzie é uma heroína perfeita para os tempos de Bridget Jones, uma garota linda e inteligente que tem um sonho, e luta por ele com determinação. Mas talvez ela não transpirasse simpatia se fosse interpretada pela atriz errada. Keira Knightley garante o melhor papel da carreira, ganhando chance de desfilar diálogos que são ao mesmo tempo engraçados e dramáticos, e explorando à exaustão um sorriso desconcertante, que ajuda a iluminar as belas composições visuais orquestradas pelo fotógrafo Roman Oshin. Knightley é apoiada com um ótimo elenco, que inclui uma divertida Brenda Blethyn no impagável papel da mãe da heroína, uma senhora tagarela que faz de sua vida uma impressionante luta infindável para garantir um bom futuro a cada filha.

Romances de amor impossível formam uma longa tradição na coleção de narrativas ocidentais, em todas as mídias, desde a literatura clássica (“Romeu e Julieta”) até o cinema de aventura dos primeiros anos (“King Kong”). “Orgulho e Preconceito” honra essa tradição com uma história agradável e divertida, um melodrama cômico feito com orçamento apenas razoável (perceba que a direção de arte é correta, mas não tão suntuosa quanto as habituais produções de Hollywood que retratam o século XIX, embora o filme aproveite as belas paisagens naturais da Inglaterra rural) e que se apóia sobretudo no texto irônico e nos atores para divertir. Se era essa a intenção de Joe Wright, as missão foi cumprida a contento.

O DVD da Universal traz o filme (imagem em widescreen anamórfico, som em Dolby Digital 5.1), mais comentário em áudio do diretor, um diário de filmagens, final alternativo e biografia da autora do livro, Jane Austen.

– Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice, EUA, 2005)
Direção: Joe Wright
Elenco: Keira Knightley, Matthew MacFadyen, Brenda Blethyn, Donald Sutherland
Elenco: 127 minutos

| Mais
Tags:


Assine os feeds dos comentários deste texto


8 comentários
Comente! »