Origem, A

08/12/2010 | Categoria: Críticas

Desconte o hype em torno do filme de Christopher Nolan e sobra uma grande produção que une efeitos especiais e enredo intrincado numa história que, sem ser obra-prima, diverte e faz pensar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Você sabe o que é hype? Se não, continue lendo. Se sim, vale a pena refrescar a memória. Hype é o termo em inglês que designa algum assunto sobre o qual todo mundo anda falando em certo momento. Um exemplo: o maior hype de 2010, no cinema, foi criado em torno de “A Origem” (Inception, EUA, 2010). Como praticamente todo filme que se torna objeto de hype, a mistura de aventura, sci-fi, thriller e drama romântico assinada por Christopher Nolan carrega consigo virtudes e defeitos do tal fenômeno midiático. Pelo lado bom, atrai aos cinemas gente que normalmente passaria longe de obras que oferecem entretenimento com cérebro. Pelo ruim, causa rejeição automática e má vontade em pessoas que normalmente enxergariam as qualidades criativas de um filme que, longe de ser obra-prima, diverte e faz pensar, combinação anda cada vez mais rara numa Hollywood quase totalmente dominada por corporações industriais. “A Origem” é tão inteligente quanto um filme de US$ 160 milhões pode ser – e essa sentença, propositalmente, deve ser compreendida tanto quanto elogio quanto como crítica.

Uma das piores coisas de um hype da magnitude do experimentado por “A Origem” é que esse fenômeno leva as pessoas a adotarem posicionamentos extremos. Quem gostou começa a usar com freqüência cada vez maior clichês surrados do tipo “melhor filme do ano”, “da década” ou “do século” (os fãs do começaram uma campanha para dar nota 10 em massa à película no IMDb, colocando-a no terceiro posto da tradicional lista dos melhores filmes de todos os tempos do banco de dados). Quem não gostou aumenta os defeitos e atribui o sucesso aos efeitos tardios de um hype anterior, vivido pelo mesmo diretor no rastro da morte do ator Heath Ledger, com “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008). Vale lembrar que a trajetória desse título nas votações do fórum do IMDb repetiu o mesmíssimo terceiro lugar.

Todo esse fenômeno precisa ser avaliado com cuidado pelos críticos. A atividade, afinal, exige certo distanciamento. Sabemos que a subjetividade é inevitável, e que ninguém é imune aos fenômenos midiáticos, mas eles podem – e devem – ser tratados com tal. É por isso que, diante do quebra-cabeça cuidadosamente orquestrado pela caneta hábil de Nolan (que também assina o roteiro e a produção do filme), é importante se perguntar constantemente, ao longo dos 148 minutos de projeção: quanto da experiência emocional e narrativa que que experimentamos é influenciada, direta ou indiretamente, por tudo aquilo que já lemos ou ouvimos sobre ele?

Isso posto, vamos ao filme. Para começo de conversa, um dos argumentos mais repetidos (tanto por quem gostou da obra quanto por quem a detestou) é de que “A Origem” teria um enredo complicado. Promotores do filme exaltam sua narrativa em camadas, enquanto detratores avaliam que a narrativa se esvai em complexidades inúteis ou se torna simplesmente confusa. Ambos partem do mesmo fenômeno para chegar a diagnósticos opostos. Perdem de vista o cuidado extremo com que Christopher Nolan trata a lógica peculiar que rege o cotidiano dos invasores de sonhos, categoria profissional à qual pertencem praticamente todos os personagens importantes.

Basta analisar o roteiro com atenção para perceber esse cuidado, tão extremo que se torna mesmo um defeito, pois emperra a fluidez narrativa. A rigor, toda a primeira hora de projeção está repleta de diálogos que explicam detalhadamente ao espectador a lógica interna que rege a atividade profissional, dos dilemas éticos às impossibilidades físico-químicas, dos efeitos colaterais às seqüelas psicológicas. Especial atenção é dada à maneira como o tempo e o espaço se comportam dentro dos sonhos (e nos sonhos dentro dos sonhos, e assim por diante). Nolan chegou mesmo a incluir no enredo um personagem que representa o espectador dentro da trama.

Esse personagem é Ariadne (Ellen Page, em atuação entre o mediano e o inexpressivo), a arquiteta novata e talentosa que vai sendo apresentada (ao mesmo tempo em que nós, na platéia) àquele universo extravagante pelos colegas veteranos. A todo momento, os personagens interrompem diálogos ou ações físicas para explicar a ela (e por conseguinte, a nós) detalhes a respeito da elaborada lógica interna que rege a atividade dos invasores de sonhos. O nome da personagem não é mera coincidência – na mitologia grega, Ariadne torna-se esposa do deus Dionísio como conseqüência direta do ato de adormecer, além de ser a mulher que guia Teseu para fora do labirinto do Minotauro.

No filme, ela é a única novata do time de seis invasores de sonhos liderado por Cobb (Leonardo DiCaprio). Este último foi contratado por um milionário japonês (Ken Watanabe) para realizar uma tarefa considerada impossível: ao contrário de extrair um segredo da mente de uma vítima, tarefa comumente realizada pelos invasores de sonhos, o executivo asiático deseja implantar uma idéia na cabeça do filho (Cillian Murphy) de um adversário. O elenco estrelado ainda inclui atores premiados com o Oscar (a francesa Marion Cotillard, o inglês Michael Caine), candidatos a astros (Joseph Gordon-Levitt) e veteranos de habilidade comprovada (Pete Postlethwaite).

Seguindo uma tradição cada vez mais abundante no cinema contemporâneo, “A Origem” se esmera em citações e alusões tanto visuais quanto narrativas (observe, por exemplo, a simetria dos móveis e a paleta de cores do aposento onde pai e filho se encontram no epílogo do filme, e tente não se lembrar da quarta parte do clássico “2001 – Uma Odisséia no Espaço”) e aborda um tema clássico, já explorado por dezenas de cineastas e teóricos do audiovisual: os paralelos entre o mundo dos sonhos e a narrativa cinematográfica. Da mesma forma, Christopher Nolan resgata uma variação pós-moderna desse mesmo tema (o apagamento contínuo das fronteiras entre realidade e ficção), usando as melhores técnicas de efeitos especiais disponíveis. A seqüência em que Cobb explica a lógica do mundo dos sonhos a Ariadne (e aos espectadores), num bistrô em Paris, é um dos melhores momentos do filme, e um eficiente encontro de entretenimento, raciocínio e emoção.

Nolan não explora esse tema com a intensidade ou a sofisticação de um David Cronenberg (“Existenz” ou “Spider”). Os sonhos concebidos por ele pouco têm da qualidade onírica dos verdadeiros sonhos, assemelhando-se muito mais a estágios de um jogo eletrônico (em cada nível, os personagens precisam atingir um objetivo específico) em que a ação é mais física do que emocional. Por outro lado, a clareza narrativa com que o diretor organiza tantas ações paralelas e personagens é admirável, resultando em um terceiro ato que é pura engenharia cinematográfica, uma tour-de-force de montagem. Nolan tem o mérito de criar diversão de qualidade com bom potencial para reflexão – e isso nunca é ruim.

Claro, “A Origem” não chega perto do status de obra-prima. A música onipresente, clichê e intrusiva de Hans Zimmer já desqualificaria o filme para tanto, menos pela construção melódica (com arranjos inspirados em canção de Edith Piaf, que exerce papel importante na trama) e mais pelo exagero no uso, já que ela praticamente não pára durante todo o filme. Isso banaliza o trabalho da equipe de efeitos sonoros, praticamente impossibilitando-a de utilizar os ruídos como fonte de experiências sensoriais (algo que o próprio Nolan já havia feito de forma criativa em “Insônia”, de 2002). Nos diálogos, a combinação de close-ups extremos de rostos com o uso de lentes teleobjetivas, que comprimem espaços, geram uma sensação de falta de ar e transformam freqüentemente os segundos planos em imagens abstratas, ajudando a dar tensão e ritmo à narrativa; mas os planos gerais não têm o senso apurado de composição visual de um Michael Mann, cuja técnica é semelhante e mais sofisticada. De qualquer forma, a obsessão de Nolan com o tema do duplo, expressa muitas vezes em imagens envolvendo espelhos, marca presença aqui. Preste atenção nelas, pois são importantes.

Ademais, ainda que “A Origem” exija que a platéia acompanhe o desenrolar dos acontecimentos com atenção redobrada, a narrativa em camadas não chega a ser nem complexa e nem confusa. Com atenção, é perfeitamente possível acompanhar toda a trama sem se perder, ainda que a importância dos pequenos detalhes (uma marca estilística de Nolan) só possa ser percebida totalmente numa revisão. As reações de promotores e detratores, na verdade, são sintomas do quão inerte e insípida anda a criatividade dos roteiros que pululam nas grandes produções norte-americanas atuais. E isso, no que toca a “A Origem”, é um elogio.

O DVD da Warner traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– A Origem (Inception, EUA, 2010)
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy
Duração: 148 minutos

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