Orquestra dos Meninos

03/04/2009 | Categoria: Críticas

Execução carregada de clichês e direção de atores equivocada atrapalham a narração de uma história inspiradora

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Uma boa história nem sempre garante uma narrativa do mesmo nível. Esta afirmação, cultivada com carinho por jornalistas de todo o mundo, também cabe perfeitamente na atividade cinematográfica. Se tomar decisões equivocadas, um cineasta pode muito bem transformar uma história interessante em um filme medíocre. Infelizmente, foi o que aconteceu com o longa-metragem dirigido pelo veterano Paulo Thiago. “Orquestra dos Meninos” (Brasil, 2008) não chega a ser totalmente ruim, mas decepciona. O enredo rascunha personagens ricos de forma simplista e caricatural, investindo em uma série de clichês e cacoetes narrativos que dão cheiro de mofo à narrativa, fazendo-a ranger como se estivesse enferrujada.

O filme é baseado em uma história real, ocorrida em São Caetano, pequeno município vizinho a Caruaru, no agreste de Pernambuco. Na verdade, trata-se da cinebiografia do maestro Mozart Vieira, homem humilde que dedicou a vida a educar crianças pobres da cidade, ensinando-as a tocar instrumentos musicais. A chamada Orquestra dos Meninos de São Caetano ficou famosa, na primeira metade dos anos 1990, fazendo turnês nacionais em que tocavam peças de Mozart e Villas-Lobos. O prestígio de Mozart ficou abalado depois que ele sofreu acusações de forjar o seqüestro de um dos garotos. Insinuações de pedofilia também viraram voz corrente na cidade. Como nenhuma prova dessas acusações jamais apareceu, Mozart continuou a perseguir o sonho. E venceu. A Fundação criada por ele cuida de 200 crianças carentes e a orquestra continua a funcionar.

Paulo Thiago acompanhou o caso pelos jornais e embarcou na idéia de filmar uma versão ficcional da história em 2000. Levou oito anos para transformar a idéia em realidade. O longa-metragem, inteiramente rodado em Sergipe, usa uma base de atores consagrados (Murilo Rosa, Priscila Fantin, Othon Bastos) e mescla-a com uma porção de jovens amadores, que representam os garotos músicos. Esta estratégia, aliada às locações reais – nenhuma cena foi feita em estúdio – e ao estilo naturalista de iluminação, garantem o ar de contemporaneidade à produção. Todas são, afinal, técnicas muito utilizadas pelos diretores mais jovens que filmam no Brasil, quase sempre com bons resultados. Se por um lado o esforço de atualização feito por Paulo Thiago deu resultado, por outro o resultado final deixa flagrante um estilo de cinema anacrônico, ultrapassado.

Este cheiro de mofo fica especialmente evidente na direção de atores, talvez a pior característica do trabalho de Paulo Thiago. Da mesma forma que acontecia em “O Vestido”, por exemplo, os atores parecem estar interpretando no teatro. Eles falam de maneira excessivamente pausada, usam gestos largos e exagerados. Parecem sempre falsos. O mau desempenho coletivo complica a vida da platéia, que enfrenta enorme dificuldade para “entrar” no espírito da história, porque a sensação de estar assistindo a um filme mecânico e sem vida não passa nunca. Além do mais, a escalação de Priscila Fantin como uma adolescente nordestina semi-analfabeta soa quase como piada de mau gosto, porque a estrela global jamais consegue “sumir” dentro do elenco de anônimos, o que seria fundamental para que ela funcionasse no papel. Murilo Rosa, como o protagonista, é o único membro do elenco que está realmente bem. O fato de estar em todas as cenas minimiza bastante o problema. Sem ele, “Orquestra dos Meninos” seria um desastre.

O outro problema grave está no roteiro, escrito a seis mãos por Thiago, Melanie Dimantas e Graciela Maglie. Ele abusa de clichês, tanto nas situações dramáticas propostas quanto na composição dos personagens. Na cena em que Mozart (Rosa) se declara para Creusa (Fantin), por exemplo, pode-se vislumbrar a sombra de um bom personagem – um homem sonhador, cheio de vitalidade e esperança e ousadia, que não desiste nunca, mas com absoluta inabilidade no campo afetivo. A seqüência seguinte, porém, puxa o filme de volta à realidade, recriando de forma caricatural um dos momentos dramáticos mais copiados em longas de má qualidade. Nela, forma-se o triângulo amoroso típico de novelas, com uma pretendente malvada (Olga Machado) se insinuando de forma grotesca ao sujeito inocente, enquanto a verdadeira moça que o ama vê o flerte e interpreta tudo errado, sem que ele perceba a lambança.

“Orquestra dos Meninos” está cheio desses exemplos. Personagens batidos em produções comerciais, como o político que só quer faturar com a novidade recém-descoberta e o marqueteiro que promete mundos e fundos com o único objetivo de fazer seu protegido ganhar a eleição, pululam por todos os cantos do longa-metragem. Por trás de tantos equívocos, contudo, repousa uma história arquetípica que já foi contada em infinitas variações, quase sempre com sucesso – a trajetória do sonhador que nunca desiste antes de realizar um sonho aparentemente impossível. É uma história com potencial para atrair muitos admiradores, até mesmo por causa das semelhanças com “Dois Filhos de Francisco”. Só que o filme de Breno Silveira, em que pese a qualidade inferior da música, é muito melhor enquanto cinema.

O DVD foi lançado pela Paramount. O enquadramento original (widescreen) foi respeitado, e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Orquestra dos Meninos (Brasil, 2008)
Direção: Paulo Thiago
Elenco: Murilo Rosa, Priscila Fantin, Othon Bastos, Laís Corrêa
Duração: 108 minutos

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