Outra, A

19/05/2006 | Categoria: Críticas

Drama elegante de Woody Allen mostra a amarga auto-análise de uma mulher de meia idade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Um dos cineastas preferidos de Woody Allen, desde sempre, é o sueco Ingmar Bergman. No começo da carreira do diretor nova-iorquino, quando ele se dedicava principalmente a comédias no estilo besteirol (“Bananas”, de 1971), essa informação surpreendia muita gente, já que os pesados dramas existenciais de Begman quase não têm humor. Quando Allen finalmente se estabeleceu como cineasta autoral de grande habilidade e talento, começou a inserir pitadas de existencialismo nos filmes, chegando mesmo a fazer alguns dramas, que receberam muitas críticas negativas. “A Outra” (Another Woman, EUA, 1988), ilustre integrante da fase mais séria do cineasta, é o perfeito exemplo de como são injustos esses comentários, já que se trata de um drama belíssimo e, apesar de amargo, bastante otimista.

Na verdade, “A Outra” não destoa tanto assim do restante da obra de Allen. A diferença é que, neste filme, o diretor optou por deixar de lado as tentativas de dosar drama e comédia, abandonando completamente a veia cômica que sempre lhe caracterizou. Se é verdade que os melhores longas-metragens do diretor são aqueles que realizam uma abordagem cômica e intelectualizada do existencialismo (o melhor exemplo desse equilíbrio é, provavelmente, “Hannah e Suas Irmãs”, de 1986), também é verdade que “A Outra” não fica muito atrás dos melhores filmes que ele dirigiu, ao mostrar uma mulher de meia-idade realizando uma honesta e implacável auto-análise do próprio passado.

Como sempre, o enredo se passado no círculo intelectual de meia-idade em Nova York. Marion (Gena Rowlands) é uma renomada professora de Filosofia que acaba de tirar uma licença para escrever um novo livro. Ela aluga um pequeno apartamento para conseguir a tão desejada tranqüilidade que vai lhe permitir escrever, mas descobre, no primeiro dia de trabalho, que consegue ouvir as conversas no apartamento vizinho, onde um psicólogo atende pacientes. A princípio, Marion tenta abafar as vozes fechando o tubo de ventilação com almofadas, mas acaba por escutar as confissões de uma mulher grávida, que a deixam profundamente abalada.

As revelações que Hope (Mia Farrow) faz sobre si mesmo disparam uma crise existencial sem precendentes na filósofa, que até então se considerava uma mulher feliz e realizada. Marion se identifica quase completamente com a garota e, de repente, passa a questionar tudo a sua volta: o marido (Ian Holm), o amor, o casamento, a falta de filhos, as amizades, a ausência do ex-namorado (Gene Hackman) a quem ela ainda ama, as brigas com o irmão Paul (Harris Yulin); enfim, passa a perceber o profundo vazio interior que ela cultivou, com soberba e uma pitada de arrogância, durante anos a fio.

Woody Allen conduz o espetáculo com mão suave, em ritmo tranqüilo, deixando espaço para que os atores brilhem, oportunidade que eles não desperdiçam – a interpretação delicada e ao mesmo tempo angustiada de Gena Rowlands, por exemplo, é inesquecível. Desta forma, os diálogos elegantes abrem espaço para que cada espectador absorva e processe a jornada de aprendizado de Marion, carregando os ensinamentos que ela vai adquirindo para dentro das próprias vidas.

Além disso, “A Outra” funciona como uma crítica implacável ao universo dos intelectuais. No momento-chave do filme (não dá para adiantar qual é, mas você vai reconhecer quando vir), um dos personagens diz para outro que Marion optou por deixar de viver para observar os outros viverem, declaração que encaixa perfeitamente com o estilo de vida intelectual-chique da classe social a que Woody Allen pertence: acadêmicos inteligentes e espertos, sempre prontos a analisar os outros com profundidade, mas que possuem vidas pessoais bagunçadas e repletas de mentiras. A frase, portanto, resume o subtexto do filme com inteligência e economia.

Para traduzir visualmente o estado de espírito amargurado da protagonista, Woody Allen importou da Suécia o diretor de fotografia predileto de Ingmar Bergman, Sven Nykvist. O mestre sueco faz um trabalho brilhante, preferindo os registros em interiores, usando as sombras com ênfase e utilizando uma paleta de cores outonais, em tons pastéis, que dão ao filme um registro melancólico, bem apropriado à impressão sensorial que a história deseja passar.

Em resumo, “A Outra” é um trabalho espetacular que, mesmo fugindo um pouco das características tradicionais de Woody Allen, é um filme adulto que cala fundo e faz pensar. E se você ainda tem dúvida de que se trata de um trabalho otimista, dê uma olhadinha no nome da personagem de Mia Farrow – que aparece pouco, mas é fundamental – ou na cena que fecha a obra. Coisa de autor com A maiúsculo.

O DVD da Fox é simples e sem extras, com exceção de um trailer. O filme respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e tem som OK (Dolby Digital 2.0).

– A Outra (Another Woman, EUA, 1988)
Direção: Woody Allen
Elenco: Gena Rowlands, Ian Holm, Mia Farrow, Gene Hackman
Duração: 81 minutos

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