Pacto de Justiça

16/06/2004 | Categoria: Críticas

Kevin Costner volta à direção realizando um faroeste clássico, lançado em DVD básico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Homem mais poderoso de Hollywood no início da década de 1990, o ator e diretor Kevin Costner virou um paria após dois retumbantes fracassos artísticos e comerciais, “Waterworld” e “O Mensageiro”. A queda foi tão violenta que somente em 2003 ele teve a primeira oportunidade de se reerguer. O filme em questão se chama “Pacto de Justiça” (Open Range, EUA, 2003) e é um faroeste clássico, arquetípico, talvez um pouco contemplativo demais para platéias viciadas em adrenalina. Mas mesmo esses, se agüentarem até o final, serão premiados com uma longa e virtuosa seqüência de tiroteio, brutal e realista.

“Pacto de Justiça” é um retorno maduro de um diretor calejado. Menciono a direção porque, como ator, Costner jamais parou de trabalhar, embora tenha ficado restrito por um bom tempo a filmes de segunda categoria. O filme parece mesmo ter sido construído cuidadosamente, para evitar um novo tombo que talvez viesse a ser fatal. Costner utilizou um orçamento magro (US$ 26 milhões, num ano em que a média das produções de Hollywood fechou em US$ 102 milhões), pago parcialmente do próprio bolso, e contou com a ajuda de três veteranos tarimbados: Robert Duvall, Michael Gambon e Annette Bening.

O enredo lembra muito as revistas de faroeste italiano (colecionadores de Tex, não percam!); ou seja, é a história clássica de faroeste, o mito de Davi e Golias transposto para as pradarias verdejantes do oeste norte-americano. Charley (Costner) e Boss (Duvall) são dois vaqueiros que trabalham juntos há 10 anos, se respeitam demais, mas pouco conhecem um do outro. Eles viajam com mais dois ajudantes, levando uma boiada de um ponto a outro do país. O filme não deixa claro os locais de origem ou de chegada dos bois, mas sabe-se que ficam a milhares de quilômetros de distância.

Ao passar pelo vilarejo de Harmonville, contudo, os vaqueiros arrumam encrenca com um xerife corrupto e com um rico proprietário de terras da região. Ajudados por pistoleiros profissionais, os bandidos farão de tudo para roubar os bois, enquanto Charley e Boss decidem que abandonar a postura pacífica e partir para a violência é uma questão de honra. No aspecto técnico, é de se louvar a excelente fotografia de James Muro, que organiza o filme em torno de dois visuais distintos. Na primeira metade, as lindas paisagens californianas, valorizadas pelo ritmo contemplativo do roteiro, terminam por evocar uma sensação de espiritualidade que parece ser justamente o resultado desejado por Costner.

A segunda metade ganha ação e Muro passa a filmar com câmera móvel, realçando as tonalidades de terra. O longo tiroteio que representa o clímax do filme tem seqüências brilhantemente fotografadas, com um realismo inédito em faroestes. Normalmente, duelos nesse tipo de filme terminam rapidamente, quando o ás acerta um tiro certeiro atrás do outro, enquanto os bandidos erram todas. Aqui isso não acontece. Não é raro que, no calor da batalha, um personagem descarregue um revólver em outro sem conseguir acertar uma única vez. Além disso, são poucas as vezes em que o cinema mostrou, de forma crua, o que o impacto de uma bala de rifle calibre 12 pode fazer com um corpo humano. “Pacto de Justiça” mostra isso de forma até surpreendente, pois a seqüência de ação quebra completamente o ritmo lento do filme até então.

Isso tudo funciona muito bem para a ação; ao contrário do que pode parecer, a cena não fica deslocada na tela porque representa visualmente o estado de espírito de Charley: um homem atormentado, de alma escura, que já viu de tudo na guerra e subitamente tem acessos de fúria incontroláveis. Aliás, Charley e Boss são personagens muito bem construídos e interpretados de forma impecável pelos dois atores. De forma geral, as atuações são um ponto alto do filme.

Em compensação, talvez por medo de errar, Kevin Costner repetiu sem ousadias a estrutura dramática do longa-metragem clássico de faroeste. Há até o interesse romântico do herói (Annette Bening, charmosa e competente como sempre), que rende diálogos bem interessantes, apesar de um tantinho deslocados, especialmente no desfecho da película. Todos os arquétipos de personagens podem ser facilmente encontrados no filme: o herói, o vilão, um contraponto cômico (Button, caubói adolescente vivido pelo mexicano Diego Luna) e até o mestre espiritual, por assim dizer, do protagonista (Boss).

Também incomoda – e isso é bem mais sutil, mas está lá – uma certa celebração de valores conservadores que o norte-americano médio cultiva com dedicação ímpar. Nesse ponto, “Pacto de Justiça” vai na contramão de faroestes mais contemporâneos, como “Os Imperdoáveis”, cujos personagens não podem ser colocados facilmente em uma linha onde o certo e o errado ficam claramente definidos.

O filme de Kevin Costner é maniqueísta, celebrando um código de honra muito típico do faroeste tradicional (“eu posso matar à vontade e ser muito cruel, desde que faça isso com alguém mais desonesto do que eu”). Mas é só isso. Desconte o aspecto ideológico, e “Pacto de Justiça” pode ser considerado um presente que fãs de faroeste só recebem muito raramente. O DVD é simples, contendo apenas o filme. Mesmo assim, aproveite.

– Pacto de Justiça (Open Range, EUA, 2003)
Direção: Kevin Costner
Elenco: Kevin Costner, Robert Duvall, Annette Bening, Michael Gambon
Duração: 141 minutos

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