Pacto de Sangue

11/07/2007 | Categoria: Críticas

Terceiro filme de Billy Wilder como diretor é uma das peças-chave para entender o filme noir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O austríaco Billy Wilder é lembrado pelos estudiosos da história de Hollywood como um diretor e roteirista capaz de fazer comédias e crônicas de costumes mordazes, com humor cínico inconfundível. Como todo grande cineasta dos anos dourados da indústria do cinema, contudo, Wilder era um mestre que fazia de tudo, sem distinção de gênero. Seu primeiro grande filme não foi uma comédia, mas um policial. “Pacto de Sangue” (Double Indemnity, EUA, 1944) se transformaria, com o passar dos anos, em uma das peças-chave para entender o estilo que os críticos franceses denominaram de filme noir.

Um noir é, via de regra, um policial estilizado, que se passa predominantemente à noite, envolve uma atmosfera pessimista e é protagonizado por pessoas de humor ácido e intenções nem sempre altruístas. Em 1944, porém, o termo não havia sido criado. Billy Wilder não sabia que estava fazendo, talvez, a epítome do filme noir, ao fazer a história do filme girar em torno de uma loira fatal: Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck). Ela é uma mulher fria e calculista que planeja fazer um seguro de vida para o marido idoso (Tom Powers) e matá-lo em seguida.

“Pacto de Sangue”, porém, não é narrado do ponto de vista de Phyllis, mas do homem que por ela se apaixona: o corretor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray). Ele abre o filme entrando de madrugada na empresa onde trabalha, sentando na mesa do chefe e ditando em um gravador, para ele, uma confissão. As palavras de abertura são de uma ousadia e cinismo surpreendentes para a Hollywood da época: “Matei um homem por dinheiro e por uma mulher. Não consegui o dinheiro. Também não terminei com a mulher”, diz Neff, parecendo o homem mais triste do mundo, mas conservando o senso de humor que tornaria Billy Wilder um dos mais admirados diretores e roteiristas de todos os tempos.

Observe: quantos filmes tinham coragem de, em 1944, antecipar o final logo na primeira frase dita pelo protagonista? Quantos filmes apresentavam como herói um assassino confesso de caráter duvidoso? Quantos filmes contavam o enredo em retrospectiva, alternando os tempos presente e passado durante a narrativa? São muitas perguntas, mas a resposta é uma só: pouquíssimos filmes tinham coragem de fazer isso. Talvez influenciado por “Cidadão Kane”, produzido três anos antes (mas, na época, um fracasso monumental que só viria a ser descoberto como obra-prima no final dos anos 1950), Billy Wilder teve o topete de, em seu terceiro filme como diretor, ousar tudo isso.

A idéia central do enredo de “Pacto de Sangue” é simples, mas sua condução é complexa e cheia de reviravoltas. O motor da ação é o sexo, embora ela não apareça na tela por causa da censura rígida da época. Há, no entanto, uma inteligente elipse em momento central do filme, quando Walter e Phyllis se encontram pela primeira vez no apartamento dele, que sugere o sexo de modo inequívoco; eles discutem, se beijam ardentemente, há um corte, e então vemos os dois sentados em lados opostos do sofá, fumando cigarros. Seria muita inocência presumir que, entre a chegada e a saída da mulher, não houve sexo.

Walter Neff conhece Phyllis Dietrichson em uma tarde calorenta, em Los Angeles, ao tentar receber fatura vencida do seguro do carro de um cliente. A garota é a esposa do homem, e recebe Neff de modo insinuante, enrolada em uma toalha, no alto de uma escadaria. “Imediatamente quis vê-la de novo, sem aquela estúpida escada”, lembra Walter, narrando os fatos no gravador. O tipo de diálogo que se tornaria marca-registra de Billy Wilder.

A narração em off funciona perfeitamente em “Pacto de Sangue”. O recurso é criticado, por especialistas em cinema, porque presume a existência de um narrador onipresente. Não é o caso. Aqui, quem conta a história é o próprio Walter Neff, e ele grava a narração na frente das câmeras, fazendo uma confissão detalhada ao chefe. Por que ele não contou tudo pessoalmente ao patrão, você pode argumentar? O filme responde a isso também: Walter Neff e Barton Keyes (Edward G. Robinson) têm uma relação de pai e filho. Keyes admira Walter e o trata com carinho; em certo momento do filme, até mesmo tenta promovê-lo, mesmo quando o corretor já está envolvido no crime. Por isso, Walter não tem coragem de fazer a confissão pessoalmente.

Keyes é o chefe dos corretores da agência. Ele tem um instinto – “um pequeno ser que vive dentro do meu estômago” – praticamente infalível. Quando o marido de Phyllis aparece morto, apenas alguns dias depois de fazer um seguro de US$ 50 mil, não é preciso ter instinto para desconfiar de um crime. E se o segurado morre de uma forma excêntrica, que dá direito aos beneficiários do contrato a receber a indenização em dobro (como caindo de um trem em baixa velocidade, por exemplo), aí fica realmente difícil de aceitar que se trata de um acidente. Mesmo assim, o instinto de Barton Keyes parece não ver nada de errado na história. Talvez porque o seguro fora feito pelo único funcionário com quem ele se importa.

Não há nenhuma sugestão de homossexualismo aqui, embora o última frase do filme seja “eu te amo”, proferida de um homem para o outro. O contexto em que a frase é dita, no entanto, explica exatamente porque o crime demora tanto a ser desvendado. A relação entrenBarton e Walter é algo que não existia no romance que originou o filme, escrito por James Cain (de “O Destino Bate à sua Porta”), mas Billy Wilder trabalhou exaustivamente no roteiro para construir a relação, de forma a dar mais solidez aos personagens. Conseguiu. Walter Neff é um homem de carne e osso: profissional ambicioso, altivo, mas também solitário e carente, e ávido pela figura paterna de Barton. Em essência, Neff é uma pessoa boa que cometeu um erro terrível. A cena em que ele retira um rival pelo amor de Phyllis do local de um crime prova isso. Ao invés de safar-se da confusão e acabar com o rival, ele prefere livrar o homem.

“Pacto de Sangue” foi bem recebido em Hollywood e transformou Wilder em diretor do primeiro time. Alguns anos depois, ele faria uma série de obras-primas (“Crepúsculo dos Deuses” e “Quanto Mais Quente Melhor” são apenas duas delas). Mas seu filme mais influente talvez ainda seja “Pacto de Sangue”. Ele foi refilmado em 1973 (o estúdio convidou Wilder para comandar a refilmagem, fato que ele considerou uma ofensa) e forneceu material para incontáveis obras inspiradas no estilo, incluindo bons filmes, como “Corpos Ardentes”, de Lawrence Kasdan.

O DVD da Versátil tem boa qualidade de imagem (fullscreen, formato original) e áudio (Dolby Digital 2.0, remasterizado). Os extras incluem documentário (37 minutos) sobre a produção.

– Pacto de Sangue (Double Indemnity, EUA, 1944)
Direção: Billy Wilder
Elenco: Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson, Porter Hall
Duração: 106 minutos

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