Pacto dos Lobos, O

25/09/2003 | Categoria: Críticas

Christopher Ganz mistura kung fu, faroeste e história nacional, criando filme histérico e, às vezes, divertido

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A França sempre foi a pátria dos filmes intelectualizados. A Nouvelle Vague, movimento que tinha em suas trincheiras Jean-Luc Godard, fez sucesso no meio acadêmico, mas nunca dialogou muito satisfatoriamente com o público (talvez com a exceção louvável de François Truffaut). Nos últimos 20 anos, a escassez de cineastas novos fez a produção do país diminuir ainda mais. Para completar, despencou também a fatia de público local que prestigiava os trabalhos da casa. Nos últimos tempos, contudo, os produtores franceses decidiram reagir. “O Pacto dos Lobos” (Le Pacte des Loups, França, 2001) é fruto dessa reação: uma salada que mistura drama de época, artes marciais, terror, faroeste e romance com alguma eficiência.

Que fique logo claro um detalhe: “O Pacto dos Lobos” é um filme francês, mas não foi feito para fãs da Nouvelle Vague. Na verdade, ele representa uma guinada radical em direção à cultura pop, que os realizadores europeus comandam há alguns anos. De alemães (Tom Tyker, de “Corra Lola Corra”) a britânicos (Guy Ritchie, de “Snatch”), passando pelos próprios franceses (Jean-Pierre Jeunet, de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”), os novos diretores perceberam que, se quisessem carreiras estáveis e lucrativas, tinham que atrair mais público. Assim, usaram a imaginário cinematográfico e as convenções fílmicas de Hollywood para dar um molho comercial aos trabalhos, mantendo porém algumas características da filmografia do continente. Christopher Gans, o homem por trás de “O Pacto dos Lobos”, talvez seja o mais norte-americano de toda essa geração.

De qualquer forma, é bom ver o filme desarmado, porque a salada de influências é de fundir a cuca – junte no mesmo filme um botânico francês rico e folgado, um índio americano que luta kung fu, uma prostituta italiana intelectualizada e um lorde sinistro de um braço só. É verdade, eles estão todos na trama, que se passa em 1764. Naquele ano, Gregoire de Fronsac (Samuel Le Bihan, que parece um Christopher Lambert mais jovem) é enviado pela Corte francesa à província camponesa de Gévaudan, para tentar capturar um monstro lendário que ataca mulheres e crianças na região. Junto com ele está o silencioso índio mohawk Mani (Mark Dacascos, ator havaiano conhecido por interpretar o herói da série “O Corvo”). A dupla investiga preguiçosamente o caso durante a chegada do rigoroso inverno, enquanto o bon vivant Fronsac sonha com uma viagem aos desertos quentes da África, flerta com a aristocrática Mariane de Morangias (Émmilie Dequene) e tem um caso com a prostituta Sylvia (Monicca Bellucci).

A tal besta lendária de Gévaudan existiu de verdade, matou mais de 100 pessoas em quatro anos e desapareceu sem deixar vestígios; esse é um atrativo a mais para o espectador. O autor do filme, porém, se apressa em explicar que a solução proposta para o caso saiu de sua própria cabeça, é inteiramente fictícia. Através de um raciocínio tortuoso, Gans avisa que toda a complicada trama é uma metáfora – muito óbvia, por sinal – para a história da França, a decadência da Monarquia e a ascenção da Revolução Francesa. Nesse sentido, pode-se dizer que a interpretação pessoal para o mito do lobisomem de Gévaudan é uma tentativa esforçada de rever a história de seus antepassados. Essa leitura perde fôlego para espectadores que não estejam familiarizados com os meandros da história francesa. Francamente, parece ser também uma tentativa boba de tentar intelectualizar uma trama que, à moda de “O Tigre e O Dragão, funciona muito melhor como aventura frenética que apenas revisita, sem maiores pretenções, uma lenda local.

A diferença, nesse caso, está no enorme caldeirão de influências de Christopher Gans. Admirador fanático das películas de terror barato de todas as épocas (das obras da produtora Hammer aos primeiros filmes de Sam Raimi), ele ainda joga na mistura ecos dos italianos Dario Argento (mestre do horror escatológico na década de 1970) e Sergio Leone (criador dos chamados faroestes spaghetti). A abertura do filme, uma longa e veloz tomada em câmera subjetiva de um ataque do monstro, remete aos vôos dos espíritos da natureza de Raimi em “A Morte do Demônio”. A trilha sonora e as solitárias cavalgadas em dupla são reverências à trilogia do “Homem Sem Nome”, de Leone. A montagem cheia de cortes rápidos e closes sangrentos homenageia a câmera de Argento. Além de tudo isso, há ainda doses generosas de artes marciais, uma cortesia do ator Dacascos, que fez as coreografias.

Toda essa mistura está inserida num drama de época que se desenrola bem ao estilo francês, com diálogos repletos de ironia e metáforas da luta de classe que, alguns anos mais tarde, resultaria na Revolução Francesa. As doses atrevidas de sexo também não parecem em nada com um filme americano; a sensualidade da bela italiana Monica Bellucci (“Matrix Reloaded”) simplesmente inexiste do lado de cá do Atlântico.

Das intepretações ao som explosivo e em alto volume, tudo é exagerado em “O Pacto dos Lobos”. Algumas vezes o artifício funciona, como nas cenas de ação, que alternam tomadas em câmera lenta, edição fragmentada e planos filmados com câmeras digitais. Em outras vezes a coisa fica exageradamente brega – quando o índio joga o cabelão de lado, antes de partir para o pau, não dá para reprimir uma risadinha constrangedora. Mas o espírito do filme é esse mesmo. Cabe ao espectador comprá-lo ou não. Para os mais entusiasmados, o DVD nacional ainda traz um documentário.

O mais curioso em “O Pacto dos Lobos” está na constatação que, quando analisado por partes, o filme parece superior ao que realmente é. O grande problema parece vir do excesso de elementos jogados na mistura – isso tira um bocado do ritmo. As lutas, por exemplo, são tão picotadas na edição que acabam confundindo o espectador e ficando confusas. Em contrapartida, os diálogos e papos-cabeça praticamente congelam o filme e o fazem arrastar-se por vários minutos. O desnível entre os dois estilos é muito grande e isso causa incômodo, especialmente quando se sabe que o trabalho se alonga por quase duas horas e meia. Por outro lado, a investigação permanece emperrada durante tempo demais e, quando avança, salta aos borbotões rumo ao final.

A própria trama carece de soluções inteligentes, visto que Gregoire de Fronsac é um mulherengo incorrigível que se preocupa muito mais em jogar lábia nas mulheres (até nas prostitutas!) do que em investigar as mortes atrozes. As interpretações também estão meio desleixadas e teatrais, especialmente do experiente Vincent Cassel (marido de Bellucci), que interpreta Jean-François de Morangias, o nobre com um braço só. O diretor compensa essas falhas com música vigorosa, som literalmente explosivo, direção de arte correta e fotografia deslumbrante, que explora magnificamente as paisagens geladas da região rural francesa. “O Pacto dos Lobos” não é uma obra-prima como “Amelie Poulain”, mas diverte.

– O Pacto dos Lobos (Le Pacte des Loups, França, 2001)
Direção: Christopher Gans
Elenco: Samuel Le Bihan, Vincent Cassel, Monica Bellucci, Mark Dacascos, Émmilie Dequene
Duração: 142 minutos

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