Pacto Maldito

24/10/2006 | Categoria: Críticas

Diretor novato usa história simples de adolescentes para abordar dilemas morais intrincados

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

As piores tragédias nascem do acaso, da combinação casual de elementos que, isoladamente, parecem banais e sem importância. Observadas de forma desleixada, como o fazem muitos filmes, tragédias não significam nada além de histórias dramáticas que mexem com as emoções da platéia. Por trás do sempre alto potencial dramático, contudo, tragédias também escondem dilemas morais intrincados, que os melhores filmes conseguem desnudar de forma sutil e perspicaz, criando situações de proporcionam oportunidades inteligentes de reflexão, por parte do espectador. “Pacto Maldito” (Mean Creek, EUA, 2004) é uma dessas obras raras, um longa de adolescente que usa uma tragédia para refletir sobre o modo como as situações do cotidiano moldam os valores morais e o caráter das pessoas.

O longa-metragem de estréia do diretor Jacob Aaron Estes realiza um brilhante estudo de dilemas morais a partir de uma história simples. O filme não realiza, como alguns críticos apontam, um retrato da inércia juvenil ou coisa parecida; o fato de os personagens serem jovens é um detalhe importante na história, mas não é determinante para o tema da moralidade, subjacente à narrativa. O verdadeiro assunto do longa-metragem, a lição que o filme nos dá, é que nós, seres humanos de qualquer idade e classe social, construímos nosso arcabouço moral não a partir de pensamentos ou reflexões sobre o tema, mas sobretudo a partir de atitudes concretas. Em outras palavras: decidir ser uma pessoa melhor não faz de ninguém uma pessoa melhor. São as ações dessa pessoa que contam.

A história é bastante prosaica, e narrada de maneira direta, descontando-se os excessos de música (a trilha sonora a base de violoncelos é muito bonita, mas aparece por tempo demais) e câmera tremida (uma estética despojada que já se tornou meio cansativa no cinema independente norte-americano), tiques típicos de um diretor estreante. Sam (Rory Culkin) é um adolescente de compleição frágil, constantemente espancado por George (Josh Peck), o grandalhão da turma. Sam conta ao irmão mais velho sobre as surras e o rapaz , junto com um grupo de amigos na faixa dos 17 anos, bola uma vingança. Eles decidem convidar George para um passeio de barco no rio da cidade, a fim de humilhá-lo. Não seria mais do que uma brincadeira chata se a combinação de alguns fatores inesperados não desse à situação o potencial de uma tragédia.

A direção de Jacob Aaron Estes impressiona pela condução firme, incomum em estreantes. A narrativa é objetiva e os personagens, bem construídos. O filme também não tenta ser demasiado didático, de forma que o público não recebe informações em excesso sobre o passado de cada um – esses dados vão surgindo naturalmente, integrados à ação principal, sem que a atenção do espectador seja desviada da história. Também não há maniqueísmos: todos são gente normal, gente de carne e osso. Não há pessoas malvadas ou psicopatas. George, por exemplo, pode ser bastante chato e inconveniente, mas também é caloroso e divertido.

Neste longa-metragem, George é aquilo que mais se aproxima de um protagonista, o que tem mais tempo de tela. Na verdade, o gordinho possui sérios problemas emocionais. Sofre de déficit de atenção, uma doença clinicamente comprovada, e esse detalhe, associado ao temperamento forte, o tornaram uma pessoa solitária e incompreendida, que vai mal na escola. Como qualquer adolescente normal, George quer ter amigos – só não sabe como consegui-los. Cada vez que abre a boca, solta alguma bobagem. Ele tem um talento todo especial para descobrir o ponto fraco de cada um e alfinetá-lo sem pensar que está ferindo o candidato a companheiro. Não percebe que essa atitude só piora as coisas.

O excelente desempenho do elenco jovem e parcialmente desconhecido garante credibilidade aos personagens. Eles parecem gente como a gente, e não estrelas de Hollywood interpretando pessoas de papel. Observe, por exemplo, a cena em que Sam e Millie (Carly Schroeder), dois pirralhos de 13 anos, trocam um envergonhado beijo na boca. Quem, na idade deles, nunca agiu exatamente da mesma maneira, quando exposto a uma situação parecida?

Se já é bom no desenvolvimento da história, “Pacto Maldito” (exibido nos cinemas brasileiros com o nome “Quase um Segredo”) vira um excelente estudo sobre dilemas morais a partir do momento em que a situação-limite se manifesta. Aí, a trama dá uma guinada, e Sam e seus amigos tornam-se não mais um grupo compacto, mas um bando fragmentado de indivíduos desnorteados, que precisam tomar alguma atitude – e é esta ação, necessariamente uma postura individual diante do problema, que será fundamental para a construção do caráter de cada um. No fundo, “Pacto Maldito” dramatiza uma situação facilmente reconhecível por qualquer um de nós, ainda que aumentando sua voltagem emocional. E isso é sempre ótimo.

O DVD brasileiro é um lançamento simples da Paramount. O formato do enquadramento foi preservado (wide 1.85:1 anamórfica) e o som é bom (Dolby Digital 5.1). O único extra (além de uma galeria básica de storyboards) é um comentário em áudio que inclui o diretor Jacob Aaron Estes, a diretora de fotografia Sharone Meir, a montadora Madeleine Gavin e os atores Josh Peck, Trevor Morgan, Ryan Kelley e Carly Schroeder.

– Pacto Maldito (Mean Creek, EUA, 2004)
Direção: Jacob Aaron Estes
Elenco: Rory Culkin, Josh Peck, Scott Mechlowicz, Carly Schroeder
Duração: 90 minutos

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