Pacto Sinistro

22/11/2004 | Categoria: Críticas

Alfred Hitchcock flerta com o noir em filme de composição narrativa impecável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Teria sido Alfred Hitchcock, em algum momento da carreira, um diretor de filme noir? Embora tenha ficado conhecido pela habilidade quase sobrenatural para construir tramas policiais elegantes e intrincadas, o cineasta inglês nunca se aproximou muito do gênero, norte-americano por excelência. Mesmo assim, flertou com ele pelo menos uma vez, na primeira de uma série de obras-primas cometidas durante uma seqüência de pouco mais de 10 anos: “Pacto Sinistro” (Strangers on a Train, EUA, 1951). O filme abriu a porteira pela qual saíram “Janela Indiscreta”, “Um Corpo Que Cai”, “Intriga Internacional” e “Psicose”, entre outras obras-primas.

Hitchcock fez o filme sob pressão. Ele vinha de dois fracassos consecutivos e começava a ser questionado pelos estúdios de Hollywood. Muita gente pensava se ele havia perdido a habilidade quase mágica de narrar histórias com imagens, antes revelada em filmes como “Rebecca – A Mulher Inesquecível” e “Festim Diabólico”. A resposta veio na forma de uma história que o inglês soube contar e recontar, em infinitas variações, melhor do que qualquer outro colega de profissão: o drama de um homem inocente, acusado por um crime que não cometeu.

O cavalheiro em questão é um tenista profissional, Guy Haines (Farley Granger). Um dia, durante uma viagem casual de trem, ele conhece um homem charmoso e bem vestido, Bruno Anthony (Robert Walker). Bruno propõe, em tom de brincadeira, que ambos “troquem de crime” – será que Guy não toparia matar o pai dele? Em troca, ele poderia dar cabo da ex-mulher do tenista, a infiel Mirim (Kasey Rogers), deixando-o livre para casar com a filha de um prestigiado senador, Anne Morton (Ruth Roman). Guy sorri e vai embora. Fica petrificado quando descobre, alguns dias depois, que Bruno levou a proposta a sério e estrangulou Miriam em um parque de diversões.

Guy, evidentemente, é o principal suspeito do crime, pois tinha a ganhar com ele. Todos sabiam que ele desejava o divórcio para poder casar com a nova namorada, e que Miriam estava se recusando a assinar a papelada. Por isso, a polícia põe um detetive para acompanhar Guy. O tenista ainda precisa enfrentar as ameaças de Bruno, que exige o cumprimento da contraparte da aposta – Guy deve matar o pai dele, ou o bom vivant dará um jeito de incriminá-lo pela morte de Miriam. Está armada a situação para que Hitchcock exerça a habitual destreza na construção de cenas que unem beleza visual e eficiência narrativa com o máximo de qualidade.

A seqüência de abertura de “Pacto Sinistro” é antológica. A câmera está colada ao chão. Um automóvel de luxo aproxima-se e pára diante de uma estação de trem. Um homem desce. A platéia não vê nada além dos sapatos, mas sabe que está diante de um sujeito rico e refinado. Sabe por causa dos sapatos caros, e do mordomo que lhe abre a porta e carrega a bagagem. Pouco depois, um táxi para no mesmo lugar. Desce outro homem; este é pobre. Tem sapatos gastos. Os dois sobem no trem. Sentam-se diante um do outro. Os sapatos se encontram, há um choque involuntário, e pronto: Guy (o pobre) e Bruno (o rico) se falam pela primeira vez.

O encontro é precedido, ainda, por uma imagem metafórica sensacional, uma tomada de duas linhas de trem que, afastadas, convergem e se encontram, para depois de afastarem mais uma vez. Hitchcock condensa, em uma simples tomada, totalmente encaixada na narrativa, todo o rumo que o filme vai tomar. As linhas de trem são os dois homens. É uma a simbologia perfeita para falar do encontro casual de dois sujeitos comuns, vivendo situações extraordinárias, que precipitam acontecimentos incomuns.

Hitchcock atingiu, com “Pacto Sinistro”, um nível impressionante de refinamento na composição visual de seqüências inesquecíveis. Tome, por exemplo, a cena do assassinato de Mirim, vista através do reflexo nos óculos da mulher. É tecnicamente impecável. Depois, em um dos momentos mais arrepiantes do longa-metragem, Guy entra numa quadra de tênis, olha para a platéia e quase congela com o que vê. Todos, na arquibancada, acompanham a bola com os olhos, balançando a cabeça de um lado para o outro da quadra. Menos uma pessoa. Bruno, sentado no meio do público, mantém o olhar – acompanhado de um sorriso radiante – fixo nos olhos de Guy.

A figura do vilão é a grande força do filme. Hitchcock não gostou do desempenho do ator Robert Walker, mas não há nada de errado com a interpretação. Walker dá a Bruno gestos levemente afetados, sugerindo sutilmente uma conotação homossexual. Quando sabemos que o filme foi baseado em livro da escritora Patricia Highsmith, fica evidente que Bruno é apenas uma variação de Tom Ripley, o imortal e sedutor vigarista que aparece em uma série de livros da autora, e também em filmes importantes de Hollywood, como “O Talentoso Ripley”.

Highsmith não é a única referência ao filme noir que aparece em “Pacto Sinistro”. O escritor Raymond Chandler foi responsável pela primeira versão do roteiro, rejeitada por Hitchcock. Mas o longa-metragem paga tribuno mesmo ao estilo policial norte-americano por investir toda a composição visual em fortes contrastes preto-e-branco. Muitas seqüências se passam à noite, na escuridão. Em determinada tomada, talvez uma das mais arrepiantes do filme, Guy Haines está dentro de um táxi quando olha pela janela e vê, diante das escadarias que margeiam uma imponente construção com colunas gigantescas de mármore branco, um minúsculo ponto negro. É Bruno. Sempre vigilante, sempre sinistro.

A primeira versão brasileira de “Pacto Sinistro” em DVD foi lançada sem capricho, apenas com o filme (não restaurado) e sem extras. Mas a Warner compensou o vacilo lançando a edição especial de dois discos, em 2004. O principal atrativo do pacote é uma versão alternativa do longa-metragem, descoberta em 1991 e utilizada antes em pré-estréias inglesas do filme. Ela foi acomodada no disco 2, enquanto a versão normal está no disco 1. A diferença entre ambas, porem, é quase imperceptível – apenas dois minutos de cenas adicionais, na nova montagem. E a Warner nem indicou onde estão as diferenças entre as duas montagens do filme.

O filme está em formato 4 x 3 (tela cheia), com o corte original da época, imagens restauradas de forma impecável e som remasterizado em formato Dolby Digital 1.0. Um documentário que analisa a produção e seu impacto sobre a obra de Hitchcock (36 minutos) é o prato principal entre os extras. Existe ainda um comentário em áudio interessante, com o estudioso e cineasta Peter Bogdanovich, o roteirista Joseph Stefano (“Psicose”), a filha de Hitchcock, Patrícia (que tem um papel no filme), e trechos de uma entrevista de 1961 concedida pelo próprio cineasta inglês. O comentário está no disco 1.

Três featurettes completam o pacote. O primeiro traz o cineasta M. Night Shyamalan comentando cenas do filme, em 12 minutos. O segundo (7 minutos) contém uma entrevista com a atriz Kasey Rogers, que faz o papel da esposa adultera de Guy Haines. Por fim, a família Hitchcock se reúne (11 minutos) para falar sobre o cineasta. Um pacote imperdível para quem é fã.

– Pacto Sinistro (Strangers on a Train, EUA, 1951)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Farley Granger, Robert Walker, Ruth Roman, Kasey Rogers
Duração: 101 minutos

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