Pagamento, O

16/08/2004 | Categoria: Críticas

John Woo desperdiça boas idéias de Philip K. Dick e constrói filme de ação com a truculência convencional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Em certa medida, “O Pagamento” (Paycheck, EUA, 2003) é um legítimo filhote da mente do escritor Philip K. Dick. Fãs da literatura do mais famoso autor de ficção científica do século XX vão reconhecer dentro do roteiro, quase instantaneamente, elementos tradicionais na obra do autor. Em especial, dois deles: a obsessão com a possibilidade de previsão do futuro e a não menos obsessiva teimosia a respeito de tecnologias que possibilitem a interferência nos arquivos de memória do cérebro humano. É uma pena que o cineasta chinês John Woo tenha preferido realizar um filme de ação convencional, quando poderia ter investido em uma trama muito mais complexa e instigante.

O engenheiro Michael Jennings (Ben Affleck, fraco como sempre) é um gênio da computação que se dedica a um ramo da sua profissão denominado Engenharia Reversa. Isso indica que ele desmonta aparelhos sofisticados para descobrir seus segredos e os remonta, com melhorias, a pedido de fábricas concorrentes. Trata-se de uma prática que fere a lei das patentes e, por ser ilegal, rende muito dinheiro. Jennings é um dos profissionais mais requisitados do mercado por atender a outro requisito, além do talento: ele permite que sua memória seja apagada de modo seletivo, de maneira que não consegue se recordar daquilo que fez no período de tempo em que trabalhava na invenção ilegal.

No início do filme, Jennings recebe uma proposta do milionário James Rethrick (Aaron Eckart, apenas competente): trabalhar durante três anos em um projeto ultra-secreto para ganhar uma bolada que pode superar os US$ 100 milhões. Mesmo sabendo que terá que apagar três anos da própria memória, ele topa. Quando tudo termina, Jennings faz uma descoberta surpreendente: ele abriu mão da fortuna em troca de um envelope que contém apenas 20 itens comuns, como um relógio, um clipe e um passe de ônibus. Além disso, está sendo perseguido tanto pelos capangas do empresário que o contratou como pelo FBI. Ele precisa descobrir o que se passa contando apenas com o conteúdo do misterioso envelope.

A premissa é fascinante, e o filme começa bem. Usando apenas o raciocínio, Michael Jennings rapidamente desenvolve uma teoria para o que está acontecendo. Ele ganha a ajuda do parceiro Shorty (Paul Giamatti, repetindo o papel cômico em que se tornou especialista) e da bióloga Rachel Porter (Uma Thurman, com expressão de enfado), que pensa não conhecer. O grande problema do longa-metragem está na divisão injusta do filme em partes desiguais, desequilibradas. Assim, Michael Jennings utiliza cada item do envelope para dar um pequeno passo à frente, mas praticamente não faz esforço para encontrar a utilidade de cada objeto. Além disso, em intervalos regulares de dez minutos, ele se mete em uma longa seqüência de perseguição/ou luta. Nessas horas, o engenheiro vira super-herói, algo bastante inverossímil.

Essas seqüências não apenas desequilibram o filme, mas também insistem em repetir muitos dos cacoetes de John Woo: pombos voando, cenas em câmera lenta intercaladas com cortes rápidos, referências a duelos de faroeste pós-modernos. Tudo isso já foi visto antes em “Missão Impossível 2” e outros filmes menores do mesmo autor. Se em “Minority Report” Steven Spielberg conseguia temperar perfeitamente a trama inteligente com boas doses de ação, John Woo prefere deixar o raciocínio em segundo plano e exagerar na duração das cenas violentas. Para completar, o filme ainda inclui um final moralista, auto-indulgente e bastante previsível, algo que contraria frontalmente o tipo de solução que se esperaria de uma trama de Philip K. Dick, cujos personagens são sempre enigmáticos e contraditórios.

A rigor, pode-se dizer sem pestanejar que vêm de Dick todas as boas idéias de “O Pagamento”. Espectadores mais familiarizados com a ficção científica em Hollywood vão lembrar de “O Vingador do Futuro” (1990), de Paul Verhoeven, e “Minority Report” (2002). Esses ecos são exatamente aquelas duas obsessões de Philip K. Dick, cujos contos também geraram essas duas obras: a memória e o futuro. Assim, se é verdade que os enredos desse trio de obras se equivalem, fica claro o quanto a mão de um diretor pode pesar no resultado final. Spielberg, sempre competente, consegue representar muito melhor a complexidade das idéias de Philip K. Dick, e vai bem mais longe nas implicações filosóficas, na crítica social e na construção de cada personagem. Já “O Pagamento”, como “O Vingador do Futuro”, não passa de diversão sofisticada e inconseqüente.

– O Pagamento (Paycheck, EUA, 2003)
Direção: John Woo
Elenco: Ben Affleck, Uma Thurman, Aaron Eckart, Paul Giamatti
Duração: 119 minutos

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